Salgueiro 1971 – Festa para um rei negro

Por João Vitor Silveira

Logo alternativa para o desfile de 1971, criada por Thiago Santos.

É importante refletir sobre o contexto do desfile do Salgueiro no ano de 1971 do ponto de vista que os próprios jornalistas e os “críticos e entendidos” da época já refletiam não só pelas transformações pelas quais as escolas de samba vinham passando nos últimos anos quanto pelas benesses e malefícios delas. Uma matéria publicada em 20 de fevereiro de 1971 já questionava e refletia sobre as mudanças ocorridas na década de 1950 e, principalmente, na década de 1960. É importante ter isso em conta, pois a própria concepção do enredo e do desfile do Acadêmicos do Salgueiro passa pela constante evolução presente no Carnaval e pelos personagens que a constroem. 

E personagens importantes no desfile do Salgueiro no ano de 1971 não são recursos escassos. Seja qual for o prisma que selecionamos para observar esse fenômeno, teremos como pinçar figuras essenciais para a construção do Carnaval como um todo. Quando olhamos a concepção do enredo “Festa para um Rei Negro”, temos a tarimba revolucionária e transformadora de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, na direção artística de uma equipe constituída de jovens artistas que teriam um papel essencial e protagonista na transformação dos desfiles a partir daquele ano. 

Bastidores do barracão do Salgueiro em 1971, na imagem estão Rosa Magalhães e Lícia Lacerda. Foto: Revista O Cruzeiro.

Pensar no poder artístico, de construção, de concepção e de inovação que fluía por uma equipe constituída por Rosa Magalhães, Joãosinho Trinta, Maria Augusta e Lícia Lacerda é pensar na força motriz desse enredo, que por si própria daria uma narrativa. Tudo começou quando Arlindo teve a ideia original, da qual se manteve apenas o nome “Festa para um rei negro”. Surgiu a história de um rei da nação Cabinda, de nome cristão José Franque, que registrou alguns relatos de seu filho que veio estudar no Brasil e depois se casou com uma nobre portuguesa. Porém a ideia não foi bem vista pelo presidente Osmar Valença. Uma reunião com todos os membros da comissão artística da escola revelou a pesquisa que Maria Augusta desenvolveu para concorrer ao Prêmio Medalha da Escola de Belas Artes, o que hoje equivaleria ao mestrado. Assim surgiu a história da visita de um soberano do Congo à corte de Maurício de Nassau, dividindo esse desfile em duas partes: A comitiva do Rei Negro e a Corte de Nassau. 

Augusta tinha descoberto a história através da indicação do professor Manoel Maurício e contou ainda com a ajuda do embaixador Emanuel Carneiro Leão, um dos grandes especialistas em Brasil Holândes e possuidor de uma rica biblioteca com volumes que serviram de base para a pesquisa tanto da narrativa quanto dos elementos visuais do desfile. A artista dividiu a concepção dos figurinos com Rosa Magalhães, que mergulhava no universo carnavalesco pela primeira vez. Já as alegorias e adereços tiveram a batuta de  Joãosinho Trinta, com o auxílio dos “alegoreiros” Wagner, Francisco e Lúcia. Para auxiliar na construção e supervisionar o metiê, a direção de Carnaval era de um certo Laíla. Tudo isso não foi realizado num estruturado barracão, mas num quintal em Botafogo, moradia de Jordano Sodré e Regina, que cederam o espaço para que a comissão pudesse trabalhar.

Bastidores do barracão do Salgueiro em 1971. Foto: Revista O Cruzeiro.

Sobre o aspecto visual, que tanto marcou a Revolução Salgueirense, esse desfile tem contribuição importante. É certo que alguém que imagine a estética africana em cortejos carnavalescos logo se remeta aos grafismos geométricos e como as apresentações da alvirrubra tijucana foram fundantes na construção desse imaginário. Se esse fato é inquestionável, um olhar mais acurado sobre os desfiles do período entre 1960 e 1971 nos faz perceber que a dita estética geométrica apareceu relativamente pouco nas apresentações. Usada originalmente em 1960, ela só reapareceu sete carnavais depois, em 1967, já que grandes apresentações com enredos negros usaram de um visual tipicamente colonial, como foi o caso de Xica da Silva (1963) e Chico Rei (1964), fazendo jus ao seu tempo histórico, como manda a cartilha de Arlindo Rodrigues, idealizador sozinho das duas apresentações. 

Foi só em 1967, com a “História da Liberdade do Brasil” que um visual de adereços leves, cangas tribais e estampadas de formas retas reapareceram definitivamente na Avenida, para logo depois vir um novo hiato que foi interrompido em 1971. Através da pesquisa visual do grupo liderado por Pamplona e Arlindo, surgiram novos figurinos e adereços emblemáticos que abusaram da estética forjada numa geometria e um aspecto tribal, com tecidos desenhados especialmente para aquele desfile que se uniram a elementos de materiais ordinários e maleáveis, como o vime, sisal, ráfia e isopor. Hoje essa iconografia é completamente difundida no universo das agremiações, mas naquela época era uma novidade que ganhava protagonismo lentamente. A ideia era um desfile mais leve e solto, como era característico da vermelha e branca, sem alegorias em carreata gigantesca e mais liberdade para o samba no pé. E da cabeça já delirante de Joãosinho Trinta, pranchas de praia se transformaram em escudos africanos, fixando definitivamente um imaginário tribal e geométrico ao representar a multiplicidade africana em desfiles do gênero. 

Desfile do Salgueiro em 1971.

Devido às reformulações das regras do cortejo, havia a necessidade de se otimizar o tempo dos desfiles e controlar melhor os pontos que poderiam causar problemas e atrasos na evolução do desfile. Uma das questões levantadas foi a redução da cauda do vestido de Isabel Valença de dez metros para três metros. Um detalhe que, isolado, pode parecer bobo, mas analisando a importância da figura de Isabel, que à época era inclusive esposa do presidente do Salgueiro, percebe-se que observar esses pontos de mudança é interessante para se manter a perspectiva de que as transformações estão sempre ocorrendo, num processo constante. 

A construção dos destaques para o desfile do Salgueiro no ano de 1971 foi criteriosa e exigente, analisando com muito cuidado a influência que eles poderiam ter sobre o andamento total do desfile, assim como os custos envolvidos no processo. O papel de Maurício de Nassau seria desempenhado na Avenida por Albert Gongmans, um holandês que tinha seis meses de residência no Brasil e era pintor e professor da Escola de Belas Artes. E se pararmos para observar os destaques pelo prisma dos grandes personagens, podemos ver que, se na corte de Nassau tínhamos a presença de Isabel Valença como Ana da Paz, no séquito do Rei do Congo teríamos o grande Rei sendo representado por ninguém menos que Neca da Baiana, outro grande personagem da história da agremiação. 

Paula do Salgueiro no desfile do Salgueiro em 1971.

Quando pensamos sobre os personagens envolvidos na caminhada do Salgueiro para o cortejo daquele ano, é impossível não refletir sobre aquele que foi o grande protagonista do desfile salgueirense: o samba de enredo. A disputa da obra musical para o ano de 1971 foi extremamente acirrada, inclusive chegando a causar um racha na diretoria da escola do Morro do Salgueiro pela indecisão acerca de qual deveria ser o samba escolhido para representar a Academia na Avenida naquele ano. E isso passava diretamente pelas duas figuras que encabeçavam a disputa.

De um lado, o samba do Bala era um dos dois favoritos naquela disputa, sendo inclusive o que tinha a maior parte do apoio. Como adotamos a perspectiva de observar os personagens, ter a figura do Bala naquela disputa já era bastante interessante, visto que era uma composição sua o samba de 1969, “Bahia de Todos os Deuses”, que gerou uma transformação na forma de se enxergar, abordar e compôr um samba de enredo. Sua obra, que acabou por não vencer a disputa, foi gravada por Jair Rodrigues (guarde esse nome).

Por outro lado, o samba do Zuzuca era o outro favorito para aquele concurso. O samba já havia ganhado enorme notoriedade pelo mundo do Carnaval enquanto ainda era um concorrente. Zuzuca participou também de um processo para revolucionar a forma como se compõe e se constrói um samba-enredo, apostando num samba leve, de composição pequena e com um refrão forte e marcante. É possível dizer que a melodia de “Pega no Ganzê, Pega no Ganzá” seja a melodia de samba-enredo mais reconhecível de todos os tempos. 

Salgueiro desfilando em 1971. Revista Manchete.

A direção do Salgueiro parecia entender esse apelo, já que apostou nesse samba para ser o hino do Salgueiro pro Carnaval de 1971. A obra continuou a estourar na comunidade do Carnaval, ganhando até mesmo uma versão pornográfica de seu tão famoso estribilho. Essa foi uma das cartas na manga do Salgueiro para uma evolução impecável no desfile, que passou quicando na Avenida com o samba sendo entoado a plenos pulmões não só pelos desfilantes, mas também pelo público que os assistia, consequência de um belo trabalho da direção de harmonia de Laíla. A outra estratégia foi a confecção de fantasias, adereços de mão e alegorias mais leves, ajudando na evolução da escola. 

O samba continuou notório e grande parte disso se deu pela gravação de um artista, o que fez com que se popularizasse e se espalhasse por todo mundo, como uma grande exportação da nossa cultura para todo o mundo. O artista que gravou o samba? Jair Rodrigues, que também eternizou uma versão do samba-enredo da parceria de Bala, que saiu derrotado da disputa. Se mesmo com a gravação a obra não se eternizou na posteridade, entretanto, é possível extrair dele uma frase síntese que representa toda a importância narrativa da Revolução Salgueirense e de seus enredos: “Senhor, oh, senhor, agora eu sei… que eu também tenho um rei”. Poder de síntese da importância da representividade de personagens negros nos desfiles salgueirenses. 

Talvez essa seja a grande magia do desfile de 1971 do Salgueiro: a intrincada malha de personagens históricos, que ajudaram a revolucionar o Carnaval antes, durante e depois de 1971. Uma amálgama complexa de nomes gigantescos do nosso Carnaval, que iriam trazer glórias enormes para as mais diversas coirmãs. Mas, primeiro, trouxeram a glória para o Salgueiro e, talvez, seja por isso que se diz:

Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente.