Salgueiro 1970 – Praça onze, carioca da gema

Por Marcelo Pires

Logo alternativa do desfile desenvolvida por Rodrigo Cardoso.

De todos os carnavais do Salgueiro idealizados por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, o de 1970, Praça XI, Carioca da Gema é o menos comentado, conhecido ou falado. Apesar de ficar entre dois campeonatos históricos, o esquecimento desse desfile é um mistério, pois além de a escola desfilar muito bem e brigar pelo título, não faltou novidade e confusões para marcar a apresentação na história.

Logo após o desfile antológico de 1969, Bahia de Todos os Deuses, Pamplona, de forma totalmente consciente, resolveu que aquele seria o modelo ideal para o Salgueiro e para o Carnaval. Um desfile menos esquemático, baseado em um tema, e não em um enredo cronológico. A alegria e a espontaneidade voltariam ao espetáculo, que naquela época já se mostrava tão competitivo como nunca.  O sucesso do ano anterior só confirmou o modelo adotado e assim a comissão resolveu falar de um tema muito caro ao Salgueiro: o Rio de Janeiro. O recorte seria a lendária Praça XI, berço dos desfiles das escolas e muito mais do que isso – também um retrato do espírito carioca da “malandragem”. Essa filosofia de desfile é explicitada na própria defesa de enredo entregue aos jurados:

 “A gente vai castigar o TEMA e não o ENREDO! 

MOSTRAMOS UMA Praça 11 – Carioca da gema sem nomes e sem DATAS. NADA DE HISTÓRIAS e muito de expressão, VIDA em vez de morte, LIBERDADE enfim!”. 

Segundo eles, a Praça XI seria: “a síntese total da civilização brasileira na sua expressão popular máxima”.

Ideologicamente, Pamplona e Arlindo imaginaram um visual diferente do que vinha sendo apresentado. A ideia era chegar muito perto de uma representação concreta e menos carnavalizada da praça. Os figurinos caracterizariam o mais nitidamente possível os tipos e personagens, enquanto as alegorias seriam cenários realistas, quase que remontando aos famosos pontos em pleno desfile. Na época, aliás, as apresentações aconteciam na Presidente Vargas, perto do local retratado. O Salgueiro não queria parar a sua revolução e em pleno AI-5 não deixou de falar de liberdade.

Desfile do Salgueiro em 1970.

Um ponto que ajudou a preparação do desfile foi o sucesso do ano anterior. O Salgueiro, ainda sem quadra e fazendo seus ensaios no Maxwell, garantiu uma verba de bilheteria que colocou a escola com condições de brigar pelo título. O sucesso era tanto que a escola passou a realizar um ensaio a mais em seu calendário, na sede do América Futebol Clube, na Rua Campos Sales.

A escolha de samba não foi das mais disputadas e ganhou uma obra que pretendia seguir o mesmo esquema do “Bahia”. Um samba empolgado, com letra curta e refrãos populares, que eram duas citações a sambas de roda conhecidos. A música, porém, não empolgava seus componentes. Laíla, nosso grande diretor de harmonia, garantiu que funcionaria no desfile, o que de fato aconteceu.

A escola ia se preparando como campeã. Os figurinos foram desenhados pelo Arlindo depois de uma grande pesquisa sobre a evolução da Praça XI. Vieram predominantemente em branco com toques de vermelho e propositadamente aboliram o luxo para se adequar ao tema. Os destaques seriam mais simples e desfilaram inseridos como personagens. 

Acadêmicos do Salgueiro, 1970

Foi nesse ponto que ocorreu um dos grandes episódios da apresentação: Isabel Valença, a primeira destaque da escola e nome fundamental da Revolução, casada com o presidente Osmar Valença, ganhou o principal papel do cortejo. Ela foi alocada para desfilar como Tia Ciata, a grande matriarca do samba. Ao ver o figurino, porém, Isabel se recusou e disse que não desfilaria com roupa sem luxo. Osmar, que já era uma figura mais lúdica que proativa, ameaçou abandonar até mesmo a presidência. O papel de Tia Ciata foi passado então para Paula, a grande passista. Mas, por intervenção do Pamplona, Arlindo admitiu que Isabel fizesse as alterações que ela queria, mesmo não concordando com essa intervenção que descaracterizaria seu trabalho.  Algum tempo depois, Isabel confessou ao Pamplona que era importante ela ter uma fantasia de luxo, pois com ela ganhava dinheiro nos desfiles pelo Brasil, ainda no rastro do sucesso de sua Xica da Silva. A destaque defendeu que esse dinheiro é o que pagava suas fantasias, já que Osmar não abria a carteira.

Uma novidade nos desfiles naquele ano foi a questão do tempo de apresentação. A escola que não cruzasse a Avenida nos 75 minutos determinados seria descontada. Para o Salgueiro, que à época não tinha o contingente alcançado por Portela ou pelo Império Serrano, desfilando por isso de forma compacta, a exigência não assustou. Mas a ação gerou até mesmo questionamentos judiciais para sustar o regulamento.

Acadêmicos do Salgueiro, 1970. Foto: Geraldo Viola.

O enredo da Academia não se prendeu à Praça XI do samba e passeou pela fundação das escolas. De forma não cronológica, falou sobre toda a riqueza humana que se estabeleceu na área: os fugidos da Guerra de Canudos, as baianas, os judeus que reuniam ali sua colônia e a rede de apoio aos migrantes que se estabeleceram na praça. O Salgueiro falou de portugueses, malandros, pilantras, prostitutas, rufiões e todo o folclore que dava charme ao lugar.

Na confecção dos carros, a dupla Pamplona e Arlindo resolveu revolucionar. Não fariam as tradicionais alegorias moldadas em papelão ou isopor e depois revestidas – eles usaram material de demolição (azulejos, cantarias, mesas, janelas…) da então zona de prostituição ali próxima que sofria mais um processo de higienização. Assim, foram construídos cenários de casarões (com destaque à casa da Tia Ciata), bares e cabarés como a Kananga do Japão. Esses cenários eram complementados por manequins vestidos a caráter, recurso que muitos anos depois seria elevado ao nível máximo por Arlindo no famoso carro do sarau da Imperatriz em 1982 e no carro da favela, no desfile do Salgueiro em 1984. Ou seja, o cortejo em questão não foi infrutífero a ponto de ser esquecido.

A alegoria do bar, com barris e torneiras que serviam o chope, possuía na sua parte posterior um banheiro em que o manequim aparecia com uma de suas mãos apoiada na parede em posição de quem estava “tirando água do joelho”. Como o desfile passou em 1970, é evidente que a censura tinha que implicar com alguma coisa. A solução dada pelos artistas para contornar a ditadura foi apoiar a segunda mão também na parede e explicar que o boneco estava vomitando.

Acadêmicos do Salgueiro, 1970. Foto: Paulo Namorado.

 

Outra novidade daquele ano foi que, pela primeira vez, os nomes dos jurados só seriam divulgados para o público no início do desfile. Quando foram veiculados, Pamplona, que de bobo não tinha nada, cantou a bola: o Salgueiro perderia pontos em samba e alegoria. No primeiro quesito, um dos selecionados foi Sergio Bittencourt, notório desafeto da escola e que tinha como sua maior qualidade ser filho do grande Jacob do Bandolim. Quando seu nome foi anunciado, Amaury Jório, representante da Imperatriz, tentou impugná-lo, mas Portela e Império Serrano votaram contra. Em alegorias, um dos julgadores foi Flory Gama, escultor acadêmico e o visual do Salgueiro estava muito longe desse padrão.

A escola foi a sétima a entrar na Avenida e o desfile ocorreu sem contratempos. Animada, festejou o fato de o cortejo passar sem chuvas. Veio com 1800 componentes, 86 alas (inacreditável aos olhos contemporâneos, mas comum na época), três carros alegóricos e 257 ritmistas.  O enredo era dividido em quatro partes: as escolas de samba (no qual as agremiações eram homenageadas), a Praça XI de outrora (setor com destaque para a alegoria da casa de Tia Ciata), o tempo do onça (com as fantasias de época) e o Carnaval atual. A divisão do enredo era feita pelos tradicionais estandartes do Salgueiro que explicavam assim: “O branco já estava lá”, “E o negro chegou”, “E o resultado é o que se vê”…

A comissão de frente vestida de malandros foi um sucesso. O casal Élcio PV e Estandília desfilou com toda a elegância que os caracterizava. A bateria dirigida por Almir Guineto e Gavilan mais uma vez foi um grande destaque. Sua fantasia era composta de calça branca de nycron – uma modernidade para época –, camisa de renda branca e uma echarpe vermelha e branca. As baianas, grandes homenageadas no enredo, vieram com sua roupa tradicional feita com o requinte característico do Arlindo. A fantasia de Isabel Valença foi criticada por fugir do aspecto realista que a escola apresentou, deixando o luxo de sua roupa sem coesão com a figura tradicional de Tia Ciata. A grande Paula veio representando ela mesma, como a grande passista da época, totalmente inserida na ideia de mostrar a importância das escolas de samba e sua arte.  

Fez muito sucesso também a roupa da incrível ala de passistas da escola, com cinco camadas de babados brancos franzidos com uma pala de brocado vermelho e a bata de brocado vermelho e branco. Narcisa, Roxinha e companhia riscaram a pista, assim como o trio Jorge Ben, Wilson Simonal e Jairzinho – que seria tricampeão mundial e artilheiro da Copa poucos meses depois –, que também deu o que falar. Foi sentida a ausência das Irmãs Marinho, que faziam um show no exterior. 

Entre as alas que se destacaram estava a de Tereza Aragão, a grande atriz, produtora e ativista criadora do show no teatro Opinião, incluindo o espetáculo “A Fina Flor do Samba”. Tereza foi uma grande salgueirense, muito atuante na escola com sua ala “Os Requintados do Samba” e foi também uma das autoras do enredo de 1973. 

O visual da escola fez muito sucesso e a distribuição de chope em pleno carro do bar foi uma novidade bem recebida, até ser proibida pela polícia. O desfile foi encerrado com uma enorme pintura de Braz Torres, pintor popular e cenógrafo, representando os malandros. O samba de autoria de Duduca, Onildo, Silvio e Miro, como já previa mestre Laíla, funcionou e foi muito bem cantado por Noel Rosa de Oliveira e os refrãos fizeram sucesso. O Salgueiro terminou seu desfile como uma das favoritas e torcia pelo bi.

A apuração aconteceu pela primeira vez dentro do batalhão da Polícia Militar e já começou com o problema da cronometragem. Embora o Salgueiro e a Unidos do Jacarezinho tenham sido as únicas a cumprirem o tempo determinado, ninguém foi prejudicada pelo descumprimento do regulamento. As grandes favoritas eram o Salgueiro e a Portela, com o antológico Lendas e Mistérios da Amazônia. Mangueira e São Carlos corriam logo atrás. Não foi surpresa quando Sérgio Bittencourt deu nota 7 para o samba do Salgueiro. A Portela, por sua vez, obteve a maior nota no quesito: um 9, que não representou a grandeza do samba apresentado. Outras escolas foram muito canetadas: a Imperatriz, com seu maravilhoso “Oropa, França e Bahia”, ganhou um 8; a Vila Isabel, com um lindo samba do Martinho, garantiu apenas um 7; e a São Carlos, com o lindo “Terra de Caruaru”, levou um mísero 6.

No quesito Alegorias não foi diferente do esperado com o Salgueiro: a escola recebeu nota 3 de 5. Somente a Portela gabaritou o quesito e se consagrou a grande campeã em merecida vitória. O torrão amado conquistou o vice de 1970, em um ótimo prenúncio do que viria no ano seguinte.