Salgueiro 1969 – Bahia de todos os deuses 

Por Vítor Melo

Logo alternativa do desfile de 1969 por Antônio Gonzaga.

“Dezessete escolas já tentaram falar da Bahia e nenhuma delas passou do terceiro lugar”, dizia o presidente da escola à época, Nelson de Andrade, repetindo algo que era senso comum na comunidade. Se há algo a que o sambista gosta de se apegar é a uma superstição – e com os salgueirenses, em 1969, não foi diferente. Tão logo anunciado o enredo em homenagem ao estado baiano, diversos burburinhos eclodiram devido à falta de sorte que recaía sobre as escolas que versavam sobre o assunto. Além do pessimismo geral, a agremiação contava com uma forte crise financeira, propiciando o surgimento da célebre frase de Pamplona “tem que se tirar da cabeça o que não tem no bolso”. Entretanto, da Iemanjá de Arlindo ao isopor de Joãosinho, o Carnaval de 1969 foi recheado por inícios, marcos e mais uma incontestável vitória salgueirense.

Assim que Fernando Pamplona anunciou o enredo sobre a Bahia, uma onda de pessimismo e descontentamento tomou o morro do Salgueiro. Além disso, outra polêmica deu as caras no pré-carnaval daquele ano. O carnavalesco da voz de trovão seguiu um modelo mais leve de desfile, em resposta às críticas direcionadas às inovações dos anos anteriores. Deste modo, a direção da escola cortou as alas de passo marcado, diminuiu o número de destaques e inovou no quesito samba-enredo, trazendo uma composição menor e mais leve em detrimento ao modelo conhecido como “samba-lençol”. As medidas eram direcionadas a nomes fortes da crítica carnavalesca do período, como os jornalistas Sérgio Cabral e Sérgio Bittencourt, que acusavam a escola de estar “deturpando” a verdadeira essência das escolas de samba com as “novidades” trazidas – como o minueto presente no desfile campeão de 1963, “Xica da Silva”.

Fruto direto dessas modificações e uma das principais heranças deixadas pelo desfile daquele ano foi, sem dúvidas, a composição escolhida. A obra composta por Bala e Manuel foi o marco disruptivo com a tônica dos sambas entoados nos anos 1960 pela agremiação. Com a preferência por sambas mais densos e extensos até então, a agremiação optou por uma levada mais animada e descontraída, principalmente nos versos “Nega baiana/tabuleiro de quindim” até desembocar no inconfundível “zum-zum-zum-zum-zum-zum/capoeira mata um”, pioneiro na busca por refrões mais explosivos e enérgicos (oba-oba). Por se tratar de uma obra tão diferente do usual na época, o processo de decisão desse samba-enredo daria uma história à parte. Mas resumindo, foi Laíla, já grande diretor de harmonia e compositor, que argumentou que tudo que a composição possuía de diferente das outras gerava exatamente suas principais qualidades. Assim, A animada composição cumpriu papel fundamental na condução sonora do desfile e foi um dos pilares fundamentais da soberana vitória da vermelha e branca tijucana, contando ainda com a condução vocal esplendorosa da mulher do fim do mundo, Elza Soares.

Acadêmicos do Salgueiro, 1969. Foto: Eurico Dantas.

Ainda nessa fase de preparação dos desfiles, a dupla Fernando e Arlindo levaram à prática a famosa frase de Pamplona e tiraram da cabeça o que a crise financeira não deixava chegar aos bolsos. A dupla de carnavalescos, que comandava uma segunda jornada como responsáveis pela decoração do baile de Carnaval do luxuoso Copacabana Palace, não pensou duas vezes em se aproveitar da ocasião. Idealizaram aparatos nas cores da escola que puderam ser reaproveitados perfeitamente durante o desfile pela Presidente Vargas após o término dos festejos no prestigiado hotel. Já partindo para o desfile, em si, é impossível começarmos a falar sem que seja pela icônica Iemanjá de Arlindo Rodrigues. Idealizada pelo gênio barroco e materializada por “Joãosinho das Alegorias”, futuramente Trinta, a representação da dona dos Oris foi um marco para o quesito, sendo considerada a primeira alegoria a ficar marcada no imaginário dos apaixonados pela festa por tamanha beleza.

Inserindo os espelhos no universo do fazer carnavalesco, Arlindo pôde usufruir de um visual nunca antes explorado. Dessa forma, pôde se gabar de diversas cascatas de luz lindíssimas, provindas do retorno fantástico pela forma com que se materializou o reflexo dos primeiros raios do sol ao bater nos redondos pedaços de vidro, presos por fios de nylon. Reza a lenda que os aparatos fotográficos da época não eram suficientemente tecnológicos a ponto de capturar de forma fidedigna a beleza do momento, devido à explosão luminosa gerada pelo efeito visual. Se não bastasse a Iemanjá por si só, Arlindo decidiu tirá-la da posição que originalmente desfilaria – no término do desfile – e decidiu que ela viria na cabeça da escola. Com a sensação de “Moisés abrindo o Mar Vermelho”, como disse Maria Augusta, próxima personagem a entrar na história, a alegoria foi levantando os integrantes que concentravam por aproximadamente duas horas, dando a eles confiança e tesão de desfilar, pois, diante de tanta beleza, confiavam que poderiam ser campeões.

Maria Augusta, importante carnavalesca da história do Carnaval carioca, foi inserida por Pamplona naquele ano à sua equipe no Salgueiro. E deixo com ela a missão de narrar a sensação do reposicionamento do carro alegórico pela concentração da escola. “Essa coisa da Iemanjá foi assim um marco no Carnaval do Rio de Janeiro. Para mim, na minha vida e pro Carnaval, porque foi um carro alegórico que quando entrou na Avenida foi um espanto. Ele estava lá no fundo e veio. A escola foi abrindo e se encantando, se levantando… Ele (Pamplona) tirou o carro do final e, à medida que ele vinha passando entre os componentes, eles diziam assim: “Nós temos que ganhar o Carnaval”, “Nós vamos ganhar o Carnaval”, disse a carnavalesca em entrevista realizada por Guilherme José Motta, em 2010.

A artista, recém-incluída na trupe salgueirense, teve ainda outra missão relacionada à alegoria. Como a escola não conseguia captar material humano disposto a cruzar a avenida com as fantasias de Iemanjá, com os rostos cobertos, coube à Augusta convidar uma dúzia de amigas da Zona Sul para comporem o contingente. Era uma das primeiras ocasiões em que orixás eram representados na Avenida, já que os terreiros e seguidores das religiões afro-brasileiras não permitiam esse intercruzamento. Augusta produziu todas as roupas da ala em sua casa mesmo e, no dia do desfile, vieram circundando a alegoria principal do dia. A catarse foi tamanha que até hoje a carnavalesca guarda a fantasia em sua residência após 52 anos. Como fator de curiosidade, dizem os relatos da época que Arlindo, “pai babão” que só, desfilou por praticamente todo o percurso ao lado de sua criação. Não era pra menos!

Chegando ao último personagem, que inseriu alguma novidade à realidade das escolas à época, temos Joãosinho Trinta. Artigos jornalísticos do período relatam que um dos principais pontos que chamaram atenção do júri foram os diversos tabuleiros de doces que as baianas traziam. As iguarias pareciam tão reais que chegavam a dar água na boca. Era mais uma inovação do brilhante J30, que estava inserindo no universo carnavalesco objetos moldados no isopor.

Acadêmicos do Salgueiro, 1969. Revista Manchete.

Tantos elementos contribuíram para uma apresentação inesquecível, que cruzou a Presidente Vargas quando já passava das dez da manhã. O branco predominou a paleta cromática da escola, com poucos detalhes em vermelho. A cor já estava presente na Comissão de Frente, trajando ternos de linhos. Depois, as Irmãs Marinho esquentaram o público que logo foi ao êxtase com a chegada de Paula e Isabel, as duas trajavam roupas de baianas, com rendas brancas. Na sequência, Mercedes Baptista, com o candomblé e uma gira completa. Um time de passistas também ajudou a animar o cortejo, nos quais se destacou uma jovem morena e que sambava animada, mesmo que o sapato já estivesse sem sola. Era Narcisa, que escreveria a partir de então seu nome na linhagem de grandes dançarinas salgueirenses.

Os adereços e pequenas alegorias seguiram lembrando pontos famosos da capital baiana, como o Mercado Modelo e o Elevador Lacerda. Surgiram uma sequência de alas que trouxe vendedores de flores, bichos, frutas, gaiolas, cestas, cerâmicas e peixes. Mais desfilantes lembraram ainda os famosos quitutes, acarajés, mungunzá, vatapá, efó, tapioca, beiju e sarapatel. Encerrando o desfile, uma homenagem a grandes baianos, como Jorge Amado, Mário Cravo e Genaro. Tudo deu tão certo que serviram para dar o gostinho doce final à primazia visual apresentada pelo Acadêmicos do Salgueiro, repleto de novas propostas visuais, requinte e bom gosto.

Acadêmicos do Salgueiro, 1969. Revista Manchete.

Com tantos fatores propícios ao título salgueirense, a apuração chegou com ótimas energias pro lado do Morro do Salgueiro. Engana-se, porém, quem pensa que a apuração foi das mais tranquilas. Com a não cessão do Maracanãzinho para a leitura das notas como era esperado, o Tijuca Tênis Clube foi sugerido pelo secretariado de turismo da cidade. O veto por conta das outras agremiações foi unânime, devido ao quadro de membros do clube possuir mais de 15.000 salgueirenses. Não queriam que ganhássemos dentro de casa… A solução, portanto, foi fazer a leitura das notas no IPEG – Instituto de Previdência do Estado da Guanabara – com capacidade para 150 pessoas. A confusão estava instaurada. Uma multidão vermelha e branca lotou a Presidente Vargas a fim de ouvir os décimos perdidos nos alto-falantes da Avenida. No auge da repressão, a polícia não foi nada simpática àquele movimento. Desceu o cassetete num bocado, prendeu outros e a apuração só foi acabar lá pra depois da meia-noite. No fim, deu o esperado: o caneco veio pra casa e o Carnaval carioca foi tingido de vermelho.

Consolidando a vitória, o Salgueiro alcançou um importante marco à época, chegando ao seu quarto título. Mostra-se definitivamente a importância do “Bahia de todos os deuses” na solidificação da Academia do Samba como uma das principais potências do Carnaval carioca e marca sua posição no panteão das grandes matriarcas. Não só desmistificando a ideia da Bahia trazer falta de sorte, o preto velho de Bala e Manuel sempre disse que a felicidade também morava lá. Salve, Bahia, de todos os deuses!