Reflexões – A incrível história do homem que foi pai de todo mundo, mas que num dia de janeiro mágico foi meu filhinho

Por Fábio Fabato

Há criaturas que nasceram, indelevelmente, para a paternidade. Talvez, seja este o maior legado de Fernando Pamplona. Muitos atribuem a ele a, digamos, “arte-final” dos desfiles de escola de samba, quando a figura do carnavalesco entrou para o centro da roda-viva de todo fevereiro-março. Nem todo, corrijo-me, já que a pandemia nos impossibilitou as quimeras da vez. Sim, há gente boa pra caramba no meio do caminho (não podemos nos esquecer), mas Pampa e seus inigualáveis um-metro-e-oitenta-e-sete-centímetros (para um sujeito nascido em 1926) ganharam uma espécie de protagonismo bem ali nos procedimentos de decolagem dos anos 1960. Creio que o motivo está na tal vocação acima descrita – a de ser paizão para uma penca formidável de guris de olhinhos piscantes com quem se deparou em suas veredas e avenidas.

Homem das cruzas e encruzas, das esquinas, das quebradas, do bar, do morro, do asfalto, das Belas-Artes, do Municipal, do palco da rua, do café pequeno e do grande almoço, do Rio, do Acre. Por onde bateu as pernas, Pamplona se especializou na arte de pavimentar terrenos para os voos dos seus. E assim criou estilo na cultura do Brasil, especificamente, na brincadeira insana de colocar quatro mil gentes para desfilarem as fantasias que emanam e fazem efervescer uma escola de samba.

Autêntico rei a fazer jus a uma espécie de autoridade, mas não por riqueza material ou armas e bravura de guerreiro. A senha foi a capacidade de acolhimento e de transmissão generosa de sabedoria. Criou de tal modo – superlativo absoluto, sintético ou não, grandessíssimo do caminhar de passos largos às ações, hiperbólico, alegórico, monumental – uma porção de filhas e filhos. 

Rosinhas, Renatinhos, Joãosinhos. Assim mesmo, no diminutivo afetuoso do abraço apertado, jeitão maroto que encontrou para atravessar o século XX ignorando semáforos vermelhos, tendo distribuído algumas das principais cartas do pensamento popular desta terra riquíssima, porém, também ainda tão cega para sua pujança imaterial. 

Ele foi um pouco papai meu, assumo, mesmo sem ter dado um puto qualquer para o colégio. Brincadeiras à parte, representou a figura mítica a me conceder a grande-angular com que passei a mirar aquela festa especial, acompanhada de longe nos primeiros tempos. Diante do homi, eu – que nunca pude bater no peito para dizer que sou muito alto – sentia-me um guri ainda menor. Filhinho também, pois. O mesmo magricela que esperava, mirando a antiga Philco de válvula e imagem levemente esverdeada, suas falas assertivas e diretas ao final de cada desfile de escola de samba.

Mas a vida apronta das suas e, certo dia, virei seu pai. Por breve instante eterno aqui no peito. Inesquecível por algumas encarnações, com o perdão do exagero enredístico. Quando editei e lancei sua autobiografia, conheci um Fernando Pamplona diferente da imagem consagrada, com notas de timidez e receio, e até mesmo indefeso. “Você não acha este meu livro uma merda, Fabinho? Melhor não lançar, não quero passar vergonha”. O diminutivo clássico já me inseria no rol de filhos de modo inquebrável. “Que delícia”, pensei.

Mas àquela altura, a função paternal eu mataria no peito, fazendo rolar a pelota com a obrigatoriedade do abraço firme e seguro. “Fernandinho, Fernandinho (sim, ousei rumar ao citado diminutivo, que ele tão fartamente jorrava por aí…), o povo clama por suas letras, sua memória. Não tema. Confie em mim”.

O gigante titubeou… Até que consentiu, balançando a cabeça positivamente. Rumamos, então, com sua Zeninha, Eneida e Consuelo para a emoção de uma data mágica – 29 de janeiro de 2013. Possivelmente, a mais plena e bela noite já ocorrida no lendário Bar Ernesto, de tantos causos, festejos, encontros e desencontros – bem ali nas franjas da Lapa – profunda, obra aberta, frasco de éter aberto. Como ele.

Não faltaram irmãozinhos e irmãzinhas de uma vida quase centenária. Os filhinhos e filhinhas, obviamente, também se acotovelavam na fila por um abraço. Rosinha, Renatinho e até um sopro espiritual do bailarino maranhense pequenino e também do arlequim melhor amigo do Municipal… Não houve quem não batesse ponto no maior evento da Via Láctea em todos os tempos naquela semana. 

Teve o Ziraldo, o Cabrazão, a Adele, a Conceição e o Salsa inteiro, o Haroldo, o Paulo Stein. E as mocinhas e mocinhos da TVE e da Manchete. Teve o seu Salgueiro, tão encarnado e branco, local sagrado e profano forjado na sapiência preta de homens como Sabiá, e onde toda a brincadeira de paternidade no asfalto começou. Um homem no ato sublime da celebração da glória de sua fecundidade. Haja axé, meus camaradas!

Se um dia ele foi Zambi, Rei de Palmares, naquele janeiro pronto para escorrer ano adentro… Eu fui seu pai!

Que orgulho e amor, meu filho Fernando. Ou melhor, Fernandinho.

E quantas saudades.

Selo com um beijo, nada mais.

Fábio Fabato é jornalista, escritor e pesquisador de cultura popular.