Laíla – cria lá do morro do salgueiro

Por João Gustavo Melo

Laíla. Arte: Jorge Silveira.

Cria lá do morro do Salgueiro, Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, é uma das personalidades mais importantes da história da Academia do Samba. Nos anos 1950, viu com os próprios olhos a polícia botar abaixo a sede da escola de samba Depois Eu Digo, uma das bandeiras que se uniram à fusão das escolas do morro para formar os Acadêmicos do Salgueiro. 

Morador da Ladeira, um dos recantos do morro incrustado na pedreira da Floresta da Tijuca, Laíla organizou uma escola de samba formada pela garotada do morro, a Independentes da Ladeira. Bateria de lata, fantasias de papel crepom, a pequena escola teve como desfilantes, por exemplo, a notável Narcisa, personagem emblemática da vitória do Salgueiro em 1969. 

Com o surgimento dos Acadêmicos do Salgueiro, a jovem escola alvirrubra absorveu integrantes das outras agremiações que formaram a Academia. De personalidade forte e com uma aptidão musical talhada nas ladeiras do morro, Laíla, a partir de 1960, tornou-se compositor da agremiação e chegou a perder oito sambas de enredo consecutivos que disputou, conforme lamenta no depoimento aos jornalistas Anderson Baltar e Fred Soares e ao historiador Luiz Antônio Simas para o canal Rádio Arquibancada.  Era um tempo em que os bons diretores de harmonia eram oriundos das alas de compositores, nas quais se aprendia a tirar melodias e sintetizar os enredos em imagens poéticas. Com essa trajetória, o menino Laíla formou-se líder de uma massa vermelha e branca a quem defendeu com todo afinco durante vários carnavais. 

Em uma época em que a sonorização dos desfiles era um sério dilema quase que insolúvel, a função da harmonia era fazer com que a escola entoasse em coro o samba, sem atravessamentos ou vazios de canto. Laíla rasgava a Avenida de uma ponta a outra contagiando os componentes e mantendo o canto uniforme em toda a pista. E, assim, ajudou a fazer do Salgueiro uma potência harmônica, num período em que a agremiação se apresentava compacta, com menor contingente que as demais, mas com um volume impressionante de desfile. Vinha como um bloco, evoluindo com a agilidade, deixando a Avenida com gosto de quero mais. 

Laíla foi testemunha e ator de momentos históricos salgueirenses. Entre eles, a passagem da Iemanjá prateada do Carnaval campeão de 1969, Bahia de Todos os Deuses. Após o Carnaval, ele e uma pequena equipe salgueirense devolveram a rainha ao seu mar. Foram ao Posto 6, em Copacabana, onde morava Fernando Pamplona, e viram a escultura se perder no horizonte.  Já ao longe, ela se virou em direção aos salgueirenses na praia e afundou. Estava ali escrita mais uma página mística dos desfiles.

Fez produção musical e foi a voz das primeiras gravações dos LPs de sambas de enredo. Em 1974 e 1975, cantou o samba do Salgueiro “Rei de França na Ilha d’Assombração” e “O Segredo das Minas do Rei Salomão”. Anos mais tarde, depois de alguns desentendimentos com a direção salgueirense, Laíla foi para a Beija-Flor acompanhar Joãosinho Trinta, dando sugestões de Carnaval ao jovem artista e assumindo, nos anos seguintes, a direção de Carnaval da agremiação.  Depois, seguiu para a Unidos da Tijuca, em dobradinha com Paulo César Cardoso. Lá, emplacaram dois carnavais marcantes, tendo Renato Lage como carnavalesco: “Delmiro Gouveia”, campeão do Carnaval de 1980, e “Macobeba, o que Dá pra Rir Dá pra Chorar”, de 1981. Em 1984, voltou ao Salgueiro, mas a vermelha e branca não conseguiu reviver os tempos de glória e revolução da década anterior. Com Arlindo Rodrigues no comando artístico, Laíla mais uma vez liderou a massa salgueirense em desfile. Em uma apresentação aquém das tradições alvirrubras, Laíla mais uma vez deixou a agremiação.

Ao longo dos anos de 1980, Laíla deu consultoria de Carnaval a escolas de fora do Rio de Janeiro, em cidades como Belém e São Paulo. Em 1988, retornou à Beija-flor e no ano seguinte tornou-se um dos nomes marcantes do antológico “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”. 

Nos anos de 1990, Laíla fez seu reinado na Baixada Fluminense. Após outro desentendimento na Beija-Flor, foi para o Acadêmicos do Grande Rio. Na escola de Duque de Caxias, conquistou mais um título do grupo de acesso com o enredo “Águas Claras para um Rei Negro”. No ano seguinte, como diretor de Carnaval, fez a agremiação tricolor de Duque de Caxias se firmar entre as grandes escolas com o marcante “No Mundo da Lua”.

De volta à Beija-Flor, com a escola sob o comando artístico de Milton Cunha, Laíla participou de desfiles importantes para a agremiação, como “Bidu Sayão e o Canto de Cristal”, de 1995, e “A Aurora do Povo Brasileiro”, de 1996. Em 1998, montou uma comissão de Carnaval, passando a liderar também a concepção artística dos desfiles. Foram anos gloriosos para a escola nilopolitana, que conquistou, sob o seu comando, nada menos do que nove títulos. 

Filho da Revolução Salgueirense, Laíla é um dos grandes nomes da história do Carnaval. Polêmico, enérgico, curioso, líder, genial. Impactou definitivamente a maneira de evoluir das escolas de samba ao compactar os desfiles e deslocar a massa de componentes com unidade rítmica, harmônica e de forma pulsante. A voz grave que participou de momentos inesquecíveis do Carnaval faz ecoar as diretrizes de um modelo de apresentação em cortejo único no mundo: o desfile das escolas de samba. Foi assim que Laíla fez-se rei no reinado dos grandes desfiles.