NOS ANAIS DA NOSSA ESCOLA… ZUZUCA VAMOS RELEMBRAR!

Por Thomas Reis

Zuzuca. Arte: Jorge Silveira.

É impossível discorrer sobre Adil de Paula sem cair em seus inesquecíveis versos e sem ter o corpo tomado por sambas-enredo que marcaram a história da Academia do Samba e, quiçá, do Carnaval. Ao longo de sua trajetória, o quase desconhecido Adil de Paula de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, abre os caminhos para o singular compositor Zuzuca do Salgueiro brilhar na Cidade Maravilhosa e assim entrar para os anais do Carnaval carioca. 

Frequentador assíduo das rodas de samba dos arredores salgueirenses, Zuzuca, chegou a fundar um bloco carnavalesco chamado “Independentes da Silva Teles” – rua de acesso ao Morro do Salgueiro e onde hoje está localizada a quadra da vermelha e branca.  Foi então, em 1960, que passou a integrar a Ala dos Compositores do Salgueiro e logo em breve viria despontar como um nome promissor dentro da escola. O compositor já estava galgando seu espaço no mundo do samba compondo com Noel Rosa de Oliveira e tendo suas canções gravadas por nomes como Jair Rodrigues e Elizeth Cardoso. 

O primeiro triunfo em solo salgueirense foi em 1966 quando, ao lado de Bala e Nilo, compuseram para o enredo “Os amores célebres do Brasil” o samba cantado por Jorge Goulart que embalou a escola na Avenida. No final das contas, um quinto lugar para o cortejo encabeçado pela criação artística de Clóvis Bornay, mas, para Zuzuca, um momento inesquecível: o capixaba marcava ali seu nome na história da agremiação.

“Cheio de encantos

Irradiantes de esplendor

Os olhos da Marquesa dos Santos

E o coração do nobre imperador

Em consonância com sua trajetória no Salgueiro, o sambista deu sequência à sua carreira musical e para além de compor, Zuzuca ingressou a um grupo de samba em 1968. O conjunto denominado “Os Cinco Só” era formado por figuras carimbadas do Carnaval carioca: Jair do Cavaquinho, Darcy da Mangueira, Pelado da Mangueira, Anescarzinho do Salgueiro, Velha da Portela, Zito (Baianinho), Wilson Oliveira (Wilson Moreira) e Gracia do Salgueiro. 

Os anos de 1970 estavam começando e Zuzuca, que havia deixado o emprego de mecânico para se dedicar à música, não andava muito bem financeiramente. Com algumas contas atrasadas e empréstimos negados, o compositor decidiu apostar o que tinha na disputa de samba-enredo para o Carnaval de 1971 que se aproximava. Como tradicionalmente ocorre, foi ao encontro com o carnavalesco para o bate-papo sobre o enredo. Pamplona gostava de se reunir com os compositores em uma mesa de bar para conversar e tirar as dúvidas sobre suas ideias para o cortejo. 

Em um primeiro momento, Zuzuca encontrou muitas dificuldades para dar forma à sua obra sobre o enredo “Festa para um rei negro”. O processo todo levou muitas noites de sono do poeta até que, em um lapso criativo enquanto voltava de mais uma noite no centro da cidade, cantarolou os seguintes versos: 

“O-lê-lê, ô-lá-lá,

Pega no ganzê

pega no ganzá!

Pronto! O grande acontecimento de Zuzuca na vermelha e branca estava prestes a se desenrolar ali no início de 1971, naquela que é considerada por amantes do Carnaval e estudiosos da folia como a grande disputa de samba-enredo da história do Salgueiro. O altíssimo nível de dois sambas fez com que os dirigentes da escola adotassem a estratégia de definir o samba que iria para o desfile somente quinze dias antes do Carnaval. Com isso, estava travada a disputa: Zuzuca versus Bala. A escolha salgueirense tomou tamanha proporção que acabou envolvendo toda a capital carioca, fazendo com que os dois sambas se popularizassem e caíssem na boca do povo. Cantos de torcidas organizadas e diversas paródias embalavam o páreo entre os tradicionais compositores que, cinco anos antes, haviam dividido a composição do samba vencedor. 

O tradicional espírito supersticioso que ronda o Morro do Salgueiro foi a tônica da disputa: relatos contam que tanto Bala quanto Zuzuca apelaram para todas as crendices possíveis. Foi um tal de invocação de lá, benzedeira de cá, com direito a velas no palco e até cinto bento de um padre enrolado no pescoço de Zuzuca. A dupla estava mesmo disposta a tudo para ter seus sambas cantados pelo Salgueiro na Avenida.

Desfile do Salgueiro em 1971.

Às vésperas do Carnaval, chegou o dia tão esperado do anúncio de qual seria o samba que o Salgueiro levaria para seu desfile. Era dia 3 de fevereiro de 1971 e, por volta das 21 horas, a quadra da escola começou a encher. De um lado Zuzuca tinha um samba muito popular que estava sendo cantado Rio de Janeiro afora, mas, apesar de integrar a ala dos compositores, seu apoio era muito mais externo do que interno. Do outro lado, o samba de Bala era o escolhido pelo morro, o querido da comunidade, e tinha o apoio de peso do então diretor de harmonia da escola, Laíla. 

Zuzuca, que estava em um outro concurso de samba que acontecia no Maracanãzinho, chegou em cima da hora e correu direto para o palco para apresentar seu samba. Quando começou a cantar a quadra veio abaixo – aquele samba realmente tinha uma força incomum. A apresentação de Bala também sacudiu os componentes e manteve o alto nível da disputa. Agora só dependiam do parecer da comissão julgadora, composta por Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Haroldo Costa. Os dois carnavalescos estavam inclinados a escolher a obra de Bala, quando Haroldo chamou Pamplona para conversar e reverteu o resultado. O escritor contou ao carnavalesco que estava também no Maracanãzinho e, quando Zuzuca puxou o samba por lá, houve uma explosão, com mais de 10 mil pessoas cantando o contagiante refrão. 

O resultado cindiu a escola ao meio: de um lado a comemoração, doutro a revolta. A paz só foi firmada dias depois quando Pamplona chamou Bala e Laíla para explicar os motivos da escolha e pediu o apoio da dupla que comprou a ideia e subiu ao palco para cantar o samba no dia da gravação. O sucesso era inegável. O samba de Zuzuca rompeu as barreiras do Carnaval e as fronteiras do Brasil, é conhecido mundialmente e cantado por grandes torcidas de futebol na Espanha, França, Argentina e, é claro, por aqui também: “O-lê-lê, ô-lá-lá, [nome do time] vem aí e o bicho vai pegar!”. Na Avenida, o samba de um só compositor foi um sucesso. Levou os componentes da alvirrubra ao delírio e resultou em mais um título da escola, o último de Fernando Pamplona como carnavalesco do Salgueiro. 

A receita deu tão certo que, no Carnaval seguinte, Zuzuca emplacou mais uma vez o samba no Salgueiro. Com o enredo “Mangueira, madrinha querida”, a agremiação da Tijuca homenageou a coirmã e madrinha Mangueira. O samba de fácil acepção e – como é dito popularmente nos dias de hoje – “chiclete”, bem ao estilo do compositor, caiu nas graças dos salgueirenses, principalmente pelo refrão que passeava pelas localidades do morro de Mangueira, ideia que surgiu em conversa com Pelado, amigo e compositor mangueirense. Assim nasceu: 

Tengo-Tengo

Santo Antônio, Chalé,

Minha gente,

É muito samba no pé!

O samba não foi bem na Avenida e a escola, que também não apresentou o mesmo ânimo do ano anterior, terminou o Carnaval na quinta colocação. Mas, por outro lado, mais uma vez, Zuzuca dava vida a um sucesso nacional, dessa vez por conta de uma gravação que Jair Rodrigues fez de seu samba. “Tengo Tengo” acabou se tornando um dos maiores sucessos da carreira de Jair, que também chegou a gravar os dois sambas do ano anterior, tanto o de Zuzuca como o de Bala. O cantor paulista, que se dizia um aficcionado pelo Salgueiro, chegou a gravar um álbum entitulado “Festa para um rei negro”. 

Já Zuzuca embalou o ritmo salgueirense por dois anos seguidos, compondo duas obras que extrapolaram o universo carnavalesco e se popularizaram na cultura brasileira – ou como diríamos hoje, “furaram a bolha”.  Só voltou a vencer na Academia do Samba em 1980, em parceria com Edinho, Haydée, Moacir Arantes, Pompeu e Zé Di. O samba, que conduziu o enredo “O bailar dos ventos, relampejou mas não choveu”, dos carnavalescos Ney Ayan e Jorge Nascimento, ganhou vida na voz do imortal Rico Medeiros, rendendo a terceira colocação para a escola naquele ano. 

Oxum vaidosa,

Querendo Odé conquistar

Veste riqueza

E consegue se casar

O compositor não voltou a vencer mais as disputas em sua escola de coração, mas o que fez até então, o coloca em nobre posição dentro do rol salgueirense. Sua caneta riscou um dos maiores sambas-enredo da história da Academia e, talvez, um dos mais populares da história do Carnaval. A sutileza poética do compositor, que conseguiu compreender os passos necessários para se criar obras que não ficassem retidas simplesmente ao universo carnavalesco, merece as mais sublimes honrarias. Zuzuca é figura mais do que importante nos anais da história do Carnaval!