xangô do salgueiro 

Por Vitor Melo

Xangô do Salgueiro. Obra: Jorge Silveira.

Kaô Kabesilê! Licença! Reza a lenda iorubá que, assim como as rochas, as decisões de Xangô são justas e sólidas. Dessa premissa, cria-se o porquê de se associarem de forma quase que instintiva a morada do orixá da justiça às pedreiras. Nelas, são detidas a energia e o vigor provindos desse deus africano. Dessa colcha histórica, tem-se a primeira relação litúrgica entre a Academia do Samba e seu patrono espiritual, funcionando ainda como ponto de partida da nossa história de hoje. O Morro dos Trapicheiros – hoje conhecido como Morro do Salgueiro – é geograficamente localizado e encravado em uma pedreira, distanciando seu povo dos meros mortais do plano terrestre e os aproximando mais do que nenhum outro grupo de pessoas ao poderoso detentor dos raios e trovões. 

Toda essa aproximação da escola com seu padroeiro vem mesmo antes da fusão dos blocos que circulavam pelo morro e que deram origem ao Salgueiro como conhecemos hoje. Sendo naturalmente um local de encontros de diferentes povos, culturas e crenças, as ruas e vielas que sempre abraçaram a comunidade vermelha e branca denotaram-se desde cedo como fervoroso caldeirão cultural e de robusto fervor religioso. Nessas entranhas, alimentou-se a grande ligação entre a escola e a proteção do seu orixá padroeiro – Xangô. Dessa relação intimíssima, desembarcamos no desfile da Academia do Samba de 2019 em louvação ao padroeiro. O enredo dos sonhos de qualquer salgueirense passou por períodos turbulentos em seu pré-carnaval, mas chegou à avenida pujante com um belo conjunto visual e, sem dúvidas, um dos sambas mais decorados e cantados naquele ano.   

Sendo assim, conseguimos ratificar o respeito e a fortíssima ligação terreno-espiritual presente nessa relação. Fato curioso é que diferentemente de diversas escolas que possuem símbolos destacáveis e sempre presentes em seus desfiles, como o leão da Estácio, a águia da Portela e a coroa do Império Serrano, por exemplo, o Salgueiro não possui alguma “marca registrada” a ser aguardada desfile após desfile. Quando paramos para pensar na escola tijucana, entretanto, logo nos vem até à mente o justo orixá que rege o destino do Acadêmicos do Salgueiro e sua onipresença na história da agremiação. Enredando o assunto para esse lado, introduziremos, enfim, nesse papo, o principal personagem na solidificação da forte presença da construção “Salgueiro e Xangô” no imaginário popular: Júlio Expedito Machado Coelho.

Xangô do Salgueiro desfilando pela Academia em 1995. Foto: Wigder Frota.

Foi levado pela primeira vez à Academia por ninguém menos do que “Xica da Silva”, também conhecida como Isabel Valença, cujos filhos eram alunos dele. Brincadeira à parte, foi pela influência de Isabel que os caminhos do professor, como também era conhecido, se cruzaram para sempre com a escola tijucana. Foi então, em 1969, que Júlio decidiu desfilar. Por ordem do pai de santo do terreiro que frequentava, precisava vir fantasiado com roupa de santo. O estreante nos desfiles teve seu pedido acatado instantaneamente pela dupla de carnavalescos à época: o pai de todos Fernando Pamplona e seu fiel companheiro Arlindo Rodrigues. Dito e feito. Sem dificuldade alguma, o orixá escolhido foi o padroeiro – Xangô! Com tamanha excitação ocasionada pelo belíssimo desfile e pelo quarto campeonato (terceiro em carreira solo) salgueirense, Fernando Pamplona sacramentou ao final do cortejo: “Você é nosso Xangô, Xangô do Salgueiro”.

Já em posse do novo epíteto que carregou de “Bahia de todos os deuses” (1969) até “Candaces” (2007), o destaque estava predestinado a sempre desfilar travestido com as vestes em menção ao rei de Oió. Com o viés temático trazido pela dupla de carnavalescos e o ofício explicitamente intrínseco de homenagear histórias afro-brasileiras na vocação salgueirense, não parecia difícil inserir a obrigatoriedade iorubana de Júlio. A história, entretanto, não correu exatamente dessa forma e gerou bons bocados para o desfilante e para aqueles que comandavam a trupe criativa. Se no primeiro ano o enredo, em si, até favoreceu o aparecimento do orixá, já no ano seguinte a missão não foi das mais fáceis. 

Logo em 1970, quando o Salgueiro versaria sobre a Praça Onze, o destaque foi posto exatamente ao lado de tia Ciata. O porquê disso? Durante a pesquisa do tema, os carnavalescos descobriram que o padroeiro da escola era também o orixá regente da grande matriarca do samba. Claro que não existem coincidências nesse meio e lá foi o professor Júlio representando Xangô ao lado dela no carro alegórico. Alguns anos após, em 1997, o ajuste já foi mais arrojado. Com o enredo “De poeta, carnavalesco e louco, todo mundo tem um pouco”, assinado por Mario Borrielo, Júlio passou pela Avenida ao lado de Dona Maria (a Louca). Sendo batizada em terras africanas antes de desembocar em terras tupiniquins, é claro que foi abençoada também pelo detentor dos raios e trovões, que fez questão de acompanhá-la ainda durante todo o desfile. Loucura ou não, o que importava, de fato, era a presença de Xangô (do Salgueiro) nos cortejos da escola e isso sempre ocorreu. Ambos os casos foram registrados com maestria no livro “Explode, coração: Salgueiro”, da série Cadernos de Samba, assinada pelo jornalista e sambista Leonardo Bruno.

“Xangô do Salgueiro”, de Senegambia, 2021.

Além do expediente como um dos principais destaques da história do Carnaval carioca, Júlio Expedito foi durante anos membro hors concours do concurso de fantasias do Hotel Glória. Com tamanha vultuosidade, não conseguia dar conta sozinho da confecção de suas indumentárias e também de cuidar de todo aparato necessário para esbanjar suas criações nos concursos e desfiles. Com uma equipe de aproximadamente 15 membros, Júlio contava com um staff robusto de 10 pessoas na criação das roupas; outras quatro o auxiliavam na colocação das fantasias e também no posicionamento dele nas alegorias. E havia vaga até para um ortopedista. Também pudera: haja tornozelo e joelho para aguentar até 100 quilos por fantasia durante as dezenas de minutos de um desfile e todo o período de concentração e dispersão. 

Com todo esse histórico e por toda sua devoção à Academia do Samba, Xangô do Salgueiro foi imponderavelmente peça primordial na construção de um imaginário popular sólido ao se relacionar a agremiação e o orixá. Até mesmo por isso, o destaque não poderia deixar de estar presente no desfile de 2019 da escola. Com citações desde a sinopse, até trechos do samba em sua alusão (“Bahia, meus olhos ainda estão brilhando/Hoje marejados de saudade/Incorporados de felicidade”), a representação mor veio no quarto carro daquele ano. A alegoria em menção ao desfile de 1969 era predominantemente branca e levava em seu centro o destaque Maurício Pina, fantasiado em homenagem ao professor Júlio, com fantasia nomeada de forma simbólica: “Xangô do Salgueiro”. De importância irrefutável e legado latente ainda nos dias de hoje, Xangô do Salgueiro foi imprescindível personagem da história salgueirense e continuará sendo a cada rufar do furioso tambor na levada do alujá.

“Naquela manhã de 1969, o saudoso professor, na escola tijucana, se incorporou pela primeira vez, ao se trajar como o orixá. E daí à eternidade, consagrado como o Xangô do Salgueiro”,  escreveu Alex de Souza na sinopse do Torrão Amado para o Carnaval de 2019.