Rosa magalhães 

Por  Leonardo Antan

Rosa Magalhães. Obra: Jorge Silveira.

1971. O barracão no qual foi realizada parte dos adereços e das fantasias do Salgueiro para aquele ano foi em um quintal em Botafogo, mais precisamente na rua Guilhermina Guinle. Lá moravam Jordano Sodré e sua companheira Regina. O time ali reunido naquela propriedade guardava grandes nomes da história do carnaval, como Joãosinho Trinta, Lícia Lacerda, Maria Augusta e, ela, Rosa Magalhães. Além deles, toda a equipe de produção incluía apenas mais duas pessoas: um aderecista e uma costureira. 

Nesse quintal em Botafogo, uma das maiores artistas da nossa história criou um elo definitivo com a folia carioca, a qual já lhe acompanhava de alguma maneira, visto que seu pai, o acadêmico Raimundo Magalhães, foi jurado do primeiro desfile de escola de samba, realizado pelo jornal Mundo Sportivo, em 1932. Essa ligação tão particular a acompanha até hoje, mesmo cinquenta anos depois daquele carnaval e mais de trinta e seis desfiles desenvolvidos pela artista na folia, em uma trajetória ainda em desenvolvimento. 

O pequeno perímetro da casa de Jordano e Regina ajudou a transformar a filha de dois escritores e intelectuais em uma artista reconhecida internacionalmente por conta de sua arte carnavalesca. E se hoje Rosa já elaborou mais de trintas versões diferentes de uma porta-bandeira, quando começou a riscar – junto com Maria Augusta Rodrigues – os figurinos que iriam compor o desfile de 71, não fazia ideia de quais signos eram apropriados à nobre função das defensoras de um pavilhão. “É igual uma dama antiga?”, indagou.

Se depois daquele barracão improvisado Rosa se tornaria uma das grandes campeãs da festa, com sete títulos espalhados em quatro décadas diferentes, a jovem criada em Copacabana jamais tinha visto uma escola de samba desfilar na Avenida. Foi sem saber direito como fantasias e alegorias cruzavam a pista da Presidente Vargas que ela tomou gosto pelo mundo de tecidos, paetês e ziriguidum. A chegada ao universo carnavalesco ocorreu entre uma aula e outra da Escola de Belas Artes (EBA), localizada na Cinelândia, quando Pamplona recrutou mais duas alunas para ajudá-lo no Salgueiro, assim como já havia feito com Maria Augusta. Dessa maneira, Rosa e Lícia chegaram, e formaram uma dupla pra lá de dinâmica, inseparável até os anos 1980.

Bastidores do barracão do Salgueiro em 1971, na imagem estão Rosa Magalhães e Lícia Lacerda. Foto: Revista O Cruzeiro.

Do cotidiano desse barracão bem frequentado, Rosa guarda histórias que só ela sabe contar com seu tom prosaico e faceiro. Uma das mais divertidas é a técnica que ela desenvolveu para que conseguisse perfurar bolinhas de isopor com um pedaço de arame. O adereço imaginado por Joãosinho Trinta iria compor o colar de um rei africano. Enquanto o maranhense cumpria a atividade da perfuração de bolinhas com rara destreza, não era tão fácil para a carioca. A solução encontrada por Rosa foi ir até a cozinha, esquentar o fio de metal no fogão e espetá-lo no isopor, conseguindo realizar a tarefa com mais agilidade. Depois de diversas bolas furadas, Jordano Sodré, o dono da residência, flagrou a jovem e lhe deu uma bronca por usar o eletrodoméstico. Saindo de fininho, mas sem perder a esperteza, Rosa ainda conseguiu auxílio no aquecedor do banheiro da área de serviço e assim finalmente finalizou tal tarefa. Das peripécias lá vividas, ainda estão na lista uma mancha de spray dourada na porta da garagem da residência e a perda de um dedal da dona da casa, que Rosa tratou de substituir por um parecido de sua mãe.  

Depois do expediente na zona Sul, a equipe seguiu para o Pavilhão de São Cristóvão, no qual tratou de terminar os carros alegóricos. Peças prontas, Rosa rumou para a Avenida com a equipe. De lá, guarda na lembrança a comissão de frente “maquiada de branco e segurando enormes escudos de alumínio recobertos com couro de vaca”. Não quis desfilar, foi para a arquibancada, querendo assistir aquilo que havia ocupado tanta gente, durante tanto tempo. Em 1971, na Presidente Vargas, Rosa enfim assistiu ao seu primeiro desfile de escola de samba, que também tinha um pouco dela mesmo. 

Do time de artistas oriundos do Salgueiro e das barbas de Fernando Pamplona, Rosa Magalhães é uma das poucas ainda em atividade da festa, além de ter desenvolvido a trajetória mais longeva e gloriosa. Foi no saber iniciado pelo mestre e por Arlindo que a artista seguiu um caminho já riscado, levando adiante o legado dos que vieram antes. A partir das bases de um desfile estabelecido pelos mestres, deu prosseguimento às marcas de seu trabalho, como o enredo bem pesquisado e os figurinos históricos.

O rótulo de “barroca”, atribuído à artista ao longo de sua trajetória, é muitas vezes repetido sem reflexão. A noção de barroco no carnaval tem menos inspiração com o movimento artístico e mais com uma ideia própria que tomou significado particular dentro do universo das escolas de samba. O barroco do carnaval é uma espécie de estilo padrão, traduzido como um desfile luxuoso e volumoso, traços definitivos que carregam a assinatura de Arlindo Rodrigues e João Trinta. Os dois artistas ajudaram a criar um imaginário carnavalesco da festa com arabescos, sobreposição de elementos e o acúmulo do todo. Preceitos que podem até ser encontrados no movimento europeu, mas foram reinterpretados entre fantasias, placas de acetato, metalóides e alegorias.

Rosa Magalhães, desenho de figurino para o desfile da São Clemente em 2015.

Esse visual “clássico” do carnaval é reinterpretado por Rosa constantemente nos seus desfiles. Entre candelabros, anjinhos e arabescos e formas arredondadas, se temos camadas de relação e repetição mais visíveis em muitas das alegorias que ela concebeu, o barroquismo da artista está muito presente também na forma como ela conta uma história. Rosa é uma das maiores narradoras do carnaval. Sabe dar voltas e sobrepor referências como ninguém. Para além do rótulo de “barroca”, redefiniu as células-bases da linguagem carnavalesca, palco de encontros e celebrações das artes. Em seus enredos, revelou histórias transbordadas de Brasis em delirantes confusões fabulísticas, que misturam povos e tempos, frutos de profundas e profícuas pesquisas.

Da herança do barracão em Botafogo, Rosa aprendeu a importância da coletividade para o carnaval. Reuniu em torno de si profissionais incríveis e inventivos, como o talentoso figurinista Mauro Leite, que há mais de três décadas trabalhou com a professora. Além dele, projetistas, arquitetos, cenógrafos, aderecistas, maquiadores, peruqueiras… Nomes que reforçam o caráter colaborativo da festa e revelam tanto o poder de liderança da carnavalesca quanto a sua missão, como professora, de passar saberes adiante. Foi em dupla com umas das herdeiras do Salgueiro que ela conquistou seu primeiro título na festa, no Império Serrano, em 1982. Na época, desenvolveu um enredo em celebração aos 50 anos dos desfiles das escolas de samba, em um tema proposto por Pamplona.

Após florescer seu estilo na Estácio de Sá no final da década de 1980, ainda reencontrou o Salgueiro em ótimas apresentações – com destaque pro carnaval sobre a Rua do Ouvidor – até chegar na Imperatriz Leopoldinense. Lá, fez ainda mais história, congraçando os aprendizados da Academia do Samba e das demais academias da vida. 

Com a sua singular construção de imaginário, Rosa Magalhães, no auge das transmissões televisivas das escolas de samba na década de 1990, ensinou histórias entranhadas de Brasil e reorganizou elementos da linguagem carnavalesca espetacular, construindo um imaginário de Brasil apaixonante, que se desdobrou em capas de CDs e cartazes, enquanto Rosa acumulou prêmios e campeonatos, formando gerações apaixonadas e engajadas na folia das agremiações. Mais de cinco vezes o “É campeão!” na Leopoldina ecoou e fez de Rosa a maior vencedora da Era Sambódromo. Entre 1992 e 2009, construiu com a verde e branco o casamento mais longo entre um profissional do carnaval e uma agremiação, formando uma geração inteira de apaixonados pela dita escola técnica, a Certinha de Ramos.

Além dos louros no carnaval, Rosa é um dos nomes da festa que mais circulou nos espaços institucionais de artes, chegando até a Bienal de Veneza e até a Quadrienal de Praga. O sucesso a consolidou como grande diretora de grandiosos festejos de eventos esportivos. Em 2007, reinventou a perspectiva de Brasil na abertura dos Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro, trabalho que lhe premiou com um Emmy Internacional, raridade em terras tupiniquins. Quase uma década depois, voltou ao palco do Maracanã e deu um show de brasilidade ao encerrar as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, exaltando o samba e o carnaval para o mundo.

Desfile da São Clemente em 2015 em homenagem a Fernando Pamplona.

A professora é um dos raros nomes femininos a sobreviver nos cargos de liderança das escolas ao tempo de um universo cotidiano machista, como são os barracões de uma agremiação. Em 2015, quando alguns já questionavam a presença de uma mulher com uma carreira tão longeva no carnaval e podiam acreditar que a carreira de Rosa estaria em seus passos finais, a artista soube mais uma vez se reinventar e mostrar sua vitalidade e renovação, marcas que sempre a acompanharam. Seu futuro na festa se oxigenou olhado para seu passado. 

Naquele ano, a carnavalesca prestou um emocionante tributo ao seu mentor Fernando Pamplona, na São Clemente. Uma forma de agradecer não só ao mestre com carinho, mas como falar de sua própria história e do grupo de herdeiros que representava. Como só ela sabe fazer, desconstruiu o herói da voz de trovão em uma fábula carnavalesca, revelando-o por intermédio dos medos da sua infância no Acre. Rosa soube reinterpretar a herança que desfila ano a ano nas Avenidas. Foi um emocionante passeio por carnavais marcantes do Salgueiro e pela personalidade do cenógrafo.

Esse olhar sempre nostálgico de Rosa para o passado segue para a próxima folia, tão logo os desfiles possam ser realizados. A artista retorna à corte da sua Imperatriz. Para coroar esse retorno, volta-se mais uma vez seu olhar para a herança e aos grandes artistas do carnaval. Escolheu como enredo uma bela homenagem ao gênio Arlindo Rodrigues, que sedimentou as primeiras vitórias da verde e branco de Ramos após fazer história – tão detalhada nesta exposição – pelo Salgueiro. Ciclos que se fecham para se eternizarem.

É sabendo de onde veio, enquanto louva seus mestres, que Rosa Magalhães é não só uma das maiores artistas do carnaval brasileiro, mas das figuras mais importantes em atividade da nossa arte como um todo. É parte da nossa gente, da história do Brasil e do mundo, a qual sabe contar tão bem na Avenida ano a ano. E fazem dela a nossa Deusa, uma lenda viva e mais uma filha de uma revolução alvirrubra da Academia Tijucana. Amém, Rosa.