Reflexões – 1978, O TRISTE CAPÍTULO FINAL DA REVOLUÇÃO

Por Leonardo Bruno*

Quando falamos da chamada “Revolução Salgueirense” – o período de vitórias da vermelha e branca tendo como líder o carnavalesco Fernando Pamplona – pensamos nos carnavais entre 1960 e 1972. De fato, foi nesse intervalo que a escola deu contribuições temáticas e estéticas inestimáveis ao desfile das escolas de samba. Mas não estaremos sendo fiéis à história se não contarmos que essa revolução ainda teve outros capítulos a posteriori, talvez esquecidos por já agregarem novos elementos à receita alvirrubra. O passo seguinte foi apoteótico, com o florescer de Joãosinho Trinta, que acompanhado por Maria Augusta fez três desfiles memoráveis entre 1973 e 1975, numa sequência que manteve o Salgueiro como a grande potência da época. Mas o que nos interessa nesse artigo é o que vem em seguida: o epílogo, o fechar das cortinas, a “season finale”, o último capítulo dessa epopeia. E aqui (alerta spoiler!) é preciso preparar os corações vermelhos para fortes emoções, porque este final não foi nada feliz.

Fernando Pamplona deixou o Salgueiro depois do Carnaval de 1972, que foi desastroso, em meio a ameaças de morte, brigas com a diretoria e um clima insustentável. As desavenças eram de naturezas várias, mas personificadas na figura do presidente Osmar Valença – que, verdade seja dita, brigou com todos os carnavalescos que passaram pelo Salgueiro (Osmar dizia: “Fazer carnaval no Salgueiro é um honra pra qualquer um, eu ainda tenho que pagar o carnavalesco?”). Seria impensável uma volta de Pamplona à escola com Osmar. Mas como o presidente saiu depois do desfile de 1976, abriu-se caminho para um retorno. O novo manda-chuva, China Cabeça Branca, conseguiu convencer o carnavalesco prometendo boas condições de trabalho. E realmente China parecia estar levando o Salgueiro para um novo rumo, tendo construído, por exemplo, a sede da Rua Silva Teles, onde a escola está até hoje. Mas, um mês depois da inauguração, o bicheiro foi assassinado, por (veja só!) ter denunciado fraudes no jogo do bicho e ter defendido sua legalização.

Pamplona seguiu na escola, mas sem o amparo financeiro que era esperado. A vermelha e branca não tinha mais Osmar Valença, mas continuava na pindaíba e, pior, numa crise política causada pela morte de Cabeça Branca. O carnavalesco manteve sua proposta de formar comissões para desenvolver os desfiles. Dessa vez, sem o “time dos sonhos” do passado (Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Maria Augusta, Lícia Lacerda e Rosa Magalhães), trabalhou com outros três jovens talentos: Renato Lage, Stöessel Cândido e Maria Carmen de Souza. E resolveu tomar um caminho narrativo diferente, desenvolvendo em 1977 “Do cauim ao efó, com moça branca, branquinha”, um enredo “gastronômico”, bem distante da proposta carregada de africanidade dos anos da Revolução. O desfile não encantou os salgueirenses, mas a escola ficou a apenas um ponto da campeã, terminando na quarta colocação depois dos critérios de desempate. Diante das circunstâncias, estava de bom tamanho.

Para 1978, os jornais anunciaram que Pamplona havia escolhido um enredo sobre comunicação: “Quem não se comunica se trumbica”. Logo em seguida, Joãosinho Trinta divulgou o tema com que tentaria conquistar o tricampeonato pela Beija-Flor: “A criação do mundo na tradição nagô”. Era a primeira vez desde a separação de Pamplona que Joãosinho apostaria num desfile “afro”. O mestre parece ter sentido o golpe. Logo em seguida, anunciou que mudara o enredo salgueirense: faria “Do Yorubá à luz, a aurora dos deuses”, mostrando a origem do universo a partir da cosmogonia iorubá-nagô, exatamente a mesma temática da Beija-Flor.

Desfile do Salgueiro em 1978, o último assinado por Fernando Pamplona na escola.

Nunca ficou claro exatamente o que fez Pamplona trocar seu enredo para contar história idêntica à anunciada por Joãosinho. Mas o clima esquisito que se configurou naquele pré-carnaval deu a entender que o mestre queria mesmo fincar pé num terreno que era o seu, o das narrativas ligadas à africanidade. Era como se Pamplona avisasse: “Nessa seara aqui eu sou ‘o cara’”. Os jornais perguntavam ao mestre se ele estava copiando o enredo do discípulo. A resposta era reveladora: “Não queremos imitar ninguém. Joãosinho aprendeu o que sabe de samba no Salgueiro”, alfinetava Pamplona, relembrando que o professor ali era ele.

O aluno, que àquela altura já estava consagrado com os quatro títulos em sequência, não afinou: “Pamplona quis esse ano me desafiar, escolhendo um tema igual ao meu. Sua aposta é que o vermelho telúrico do Salgueiro se presta melhor do que o meu azul para exprimir a terra africana. Só que o tempo de Aiê (terra) já passou pela Avenida em 1971, com o ‘Pega no ganzê’. Agora é o momento de Orum (o Sol, o infinito). Pamplona vai se estrepar: meu desfile vai se passar no céu e meu céu é semelhante ao de Iemanjá”, disse Joãosinho, sem economizar palavras.

A “guerra” estava armada para aquele que seria o primeiro desfile na Rua Marquês de Sapucaí, ainda com o sentido invertido, do cemitério para o Mangue. Mas, na pista, os enredos foram contados de formas diferentes. Enquanto João se ateve à história da criação do mundo, Pamplona abordou também a evolução do candomblé no Brasil, com referências ao terreiro Axé-Opô-Afonjá, e fez uma homenagem às mulheres negras no último setor.

Os dois sambas-enredo eram belíssimos. O da Beija-Flor é considerado o melhor da história da escola: ele foi uma junção de dois sambas, sendo a maior parte da obra de Mazinho e Gilson Dr., e o refrão principal (“Iererê, ierê, ierê”) de Neguinho da Beija-Flor. Já o do Salgueiro, composto por Renato de Verdade e cantado pelo estreante Rico Medeiros, rendeu o primeiro Estandarte de Ouro de Samba-Enredo para a vermelha e branca, que só voltaria a receber o prêmio mais de 35 anos depois.

Desfile do Salgueiro em 1978, o último assinado por Fernando Pamplona na escola.

Além do bom samba, o Salgueiro também apresentou um visual agradável, com alas muito bem vestidas, numa estética que lembrava o desfile campeão de 1971. Mas, apesar dessas qualidades, o desfile foi um desastre, com sabotagens internas, alegorias quebradas, confusão na pista. Logo na entrada, um problema quase incontornável: o mestre de bateria, Arengueiro, discutiu com um ritmista, bêbado, que não estava com a fantasia completa. Arengueiro o ameaçou com um revólver e foi preso. O Salgueiro disse que não desfilaria sem seu mestre de bateria. Até que se chegou a um acordo: a polícia o deixaria comandar os ritmistas, mas prenderia Arengueiro no fim do desfile – e assim foi feito. Esse foi apenas o prenúncio do caos que foi a apresentação salgueirense. Para se ter uma ideia, Isabel Valença desfilou chorando.

Já a Beija-Flor provou na Avenida que era uma escola muito mais preparada do que um Salgueiro em frangalhos. Embora o trabalho de Pamplona tivesse qualidade, Joãosinho levou o Carnaval carioca para outro patamar, encantando o público com seu abre-alas em movimento, com 20 mulheres negras seminuas girando sobre a alegoria. Aquele era um aperitivo da super-escola-de-samba, enquanto o Salgueiro trazia seus estandartes de ráfia, bambu e corda, numa estética que remetia à década anterior. Não havia comparação entre os desfiles. E Nilópolis se sagrou tricampeã da folia.

Um parêntese: como se não bastasse a opulência do trabalho de Joãosinho Trinta, o desfile da Beija-Flor ainda serviu de cenário para as filmagens do filme “007 contra o foguete da morte”, com direito a James Bond (Roger Moore) correndo entre as alegorias. Era a cereja do bolo para um Carnaval que já nasceu cinematográfico, inspirando ainda o documentário “O samba da criação do mundo”, de Vera de Figueiredo, que está disponível no Youtube.

Apesar de ter entrado para a história que Fernando Pamplona perdeu a batalha com seu ex-pupilo, é preciso registrar que o Salgueiro teve melhores notas em enredo do que a Beija-Flor. Os jurados eram o escritor Bráulio Pedroso (autor da novela “Beto Rockfeller”) e o cineasta Paulo César Saraceni (um dos cabeças do Cinema Novo). Pamplona recebeu notas 10 e 9, levando a melhor sobre Joãosinho, que ficou com 10 e 8. Na apuração, o Salgueiro se deu mal mesmo em quesitos como Bateria, Harmonia e Evolução. Mas, no Estandarte de Ouro, o mestre viu seus discípulos brilharem: o prêmio de Melhor Enredo foi para Arlindo Rodrigues, com “Brasiliana”, da Mocidade; enquanto o troféu de Melhor Escola foi para a Beija-Flor de Joãosinho.

Logo depois do Carnaval, Osmar Valença voltou ao Salgueiro com uma proposta ambiciosa: reunir novamente o “time dos sonhos” dos carnavalescos, com Pamplona, Arlindo, Augusta e Joãosinho. Mais um factoide do presidente falastrão, já que nenhum deles queria vê-lo nem pintado de ouro. A promessa não se cumpriu e o Salgueiro entrou numa fase dificílima: os anos 1980 trouxeram uma enxurrada de derrotas. Na pista, o que se via era uma escola que não conseguiu se reconciliar com seus enredos negros, apresentando temas como Getúlio Vargas e histórias infantis. Nem no centenário da Abolição da Escravatura, em 1988, o Salgueiro exibiu sua negritude.

O fato é que a saída de Pamplona foi traumática para os dois lados. O mestre deixou a Avenida jurando que nunca mais seria carnavalesco na vida. E cumpriu a promessa. Depois de 1978, não assinou mais nenhum Carnaval. O máximo que fez foi sugerir enredos, como o “Bumbum paticumbum prugurundum” que deu o título ao Império Serrano em 1982. Outro tema sugerido à Serrinha, em 1987, foi  “Quem não se comunica se trumbica”, justamente a ideia inicial para o Salgueiro de 1978, deixada de lado para o duelo com Joãosinho. Já a vermelha e branca teve naquele Carnaval o pior resultado de sua história até então, um sexto lugar. Ironia do destino: Pamplona, que estreou campeão em 1960, se despediu com uma lembrança amarga.

Em 1986, quando o Salgueiro quis fazer um desfile em sua homenagem, Fernando Pamplona recusou. Disse que, se preciso, entraria na Justiça para impedir o uso de seu nome. O enredo acabou saindo, mas sem citá-lo. O carnavalesco passou o pré-carnaval bastante incomodado com o tributo e só se emocionou mesmo ao ver a comissão de frente formada por Maria Augusta, Haroldo Costa, Lan, Jordano Sodré, Albino Pinheiro, Lygia Santos, Ricardo Cravo Albin, Thereza Aragão e outros amigos. Ali voltaram as memórias dos momentos felizes vividos em terras salgueirenses – que nenhum epílogo ruim há de apagar.

*Leonardo Bruno é autor do livro “Explode, coração – Histórias do Salgueiro”