Reflexões – Kaô meu padroeiro! O Oyó Tijuca e o machado de Xangô 

Por Vítor Melo

Arte: Karma Leão.

Conta a história iorubá que Xangô foi o quarto alafim de Oió – título de obá (rei) do império iorubano, hoje localizado no que se entende por Nigéria. Detentor do controle dos raios e de tempestades, era de cima da pedreira, região na qual geograficamente se estabelecia o reino criado por Odudua, avô do nosso padroeiro de hoje, que, durante curto período de sete anos, ele comandou a ascensão do maior império iorubano já visto. Embora conhecido pela tirania e pela violência, o orixá do fogo sempre fez prevalecer sua pesada mão de justiça e sabedoria entre seus súditos. Segundo a tradição oral africana, Xangô teria sido destituído do cargo de majestade e fora obrigado a se suicidar na floresta após ser causador de um grande incêndio que destruiu o reino de Oió, após testar uma de suas façanhas (o fogo). Tendo cumprido a pena, nunca foram encontrados restos mortais do antigo obá, sugerindo que os deuses haviam o transformado em orixá. Na medida em que o tempo passou, a cada relampejada ou trovão que rasgasse o céu, existia a certeza por parte do povo de lá que Xangô permanecia vivo, protegendo e zelando por eles, de cima da pedreira de onde tudo se vê.

Primeiramente conhecido como Morro dos Trapicheiros, o morro do Salgueiro herdou o nome de um cafeicultor da região, que havia construído alguns barracões para pessoas escravizadas. Domingos Alves Salgueiro deu início, de forma ainda lenta, à povoação daquele espaço. Esse movimento foi intensificado após a “abolição” da escravatura, quando recém-libertos constituíram famílias, construíram casas e contribuíram para o crescimento da comunidade do Salgueiro. Nos idos de 1940, uma nova leva de migrantes de outros estados e, notadamente, de regiões interiores da própria cidade deu a tônica do berço fértil de mistura e potência cultural que o morro já demonstrava possuir. Como o Carnaval é uma festa essencialmente de resistência, mesmo diante de todas as adversidades, o festejo de momo era religiosamente comemorado pelos moradores daquela região. À época existiam três blocos que animavam a moçada e já detinham uma relação estreitíssima com o quarto rei de Oió, fundamental pra escola que viria surgir e para o fato de ela ser abordada nessa série. Embora competissem entre si, os grupos carnavalescos Azul e Branco, Unidos do Salgueiro (a azul e rosa) e Depois Eu Digo (a verde e branco) dificilmente conseguiam boas colocações nos campeonatos locais.

Inicialmente, o Unidos do Salgueiro resistiu à junção dos outros dois grupos, mas logo depois se rendeu ao sinérgico branco e encarnado do recém-constituído Acadêmicos do Salgueiro, fundado em 05 de março de 1953. Sendo fruto de uma comunidade localizada em uma pedreira (onde reside Xangô), a escola tinha o primeiro enlace litúrgico com seu padroeiro e dava indício da relação que só foi fortificada durante os anos. Embora existam pessoas que acreditam em coincidências – o que não é o meu caso -, o Salgueiro, em sua carta de fundação, definiu suas cores como vermelho e branco. Juntas do marrom, formam as cores do orixá. A escolha dos fundadores, entretanto, era baseada na tentativa de distanciamento das combinações cromáticas já em voga nos blocos anteriores.

Se para um bom entendedor, um pingo é letra, estava mais explícita do que nunca a relação dada! Os destinos do orixá da justiça e da escola tijucana foram cruzados mesmo antes que a segunda existisse. Mas dois dos fatores que ligariam ainda mais diretamente a escola ao seu padroeiro e fixariam essa relação do patronato espiritual da Academia do Samba em nosso imaginário coletivo vieram em 1969.

“Xangô do Salgueiro”, de Theo Neves, 2021.

Entra na história a figura de Júlio Expedito Machado Coelho, mais conhecido como professor Júlio, destaque de luxo que desfilaria no Salgueiro até 2007, ano de seu falecimento. Foi em 1969, entretanto, que ele alçaria seu maior voo e herdaria uma herança que carregou até “Candaces”. No enredo “Bahia de todos os deuses”, o professor desfilou pela primeira vez com as vestes de um orixá, conforme pedido de sua mãe de santo. O escolhido obviamente foi o padroeiro da escola, Xangô, decisão rapidamente acatada pelos carnavalescos. E assim foi, com essa onipresença física (e espiritual), que o professor Júlio se transformou, sem dúvidas, em um dos responsáveis pela aproximação da relação Xangô-Salgueiro do imaginário coletivo e pela manutenção da figura do patrono como um dos principais símbolos da agremiação.

Chegamos, então, ao segundo elemento relacionado ao desfile que deu ao morro salgueirense o seu quarto título: o furioso ritmo da bateria tijucana. Embasada pelos contos dos mais experientes salgueirenses, diz a lenda que, em 1969, se ouviu pela primeira vez o emular do alujá, toque para Xangô, bem na cabeça do samba, após a volta do refrão principal. É justamente a passagem em que evoca a Bahia, um dos principais berços da ancestralidade que percorre esse solo tupiniquim.

Embora a bateria salgueirense se inspire primordialmente na levada de partido-alto das bandas dos bambas da Estácio de Sá, foi nos tambores vermelhos e brancos que o batuque sincopado recebeu a codificação para Xangô. A necessidade do flerte rítmico com o padroeiro é coisa séria e caracteriza os ritmistas do Salgueiro até hoje. A Furiosa, como é conhecida pelo Carnaval afora, recebeu esse apelido exatamente pela ferocidade com que tocava (e toca), diferenciando-a das outras baterias, tendo base no alujá para o orixá padroeiro.

Partindo para outro segmento… Em uma conversa com a Profa. Dra. Helena Theodoro, conhecedora dos caminhos do sagrado e ativista defensora das causas étnicas-raciais, além de salgueirense e curadora de “Resistência”, enredo do Torrão Amado para o próximo Carnaval, pude mergulhar um pouco mais profundamente pela simbologia que as representações das mães africanas carregam e pela representação das baianas salgueirenses, assim como perceber minúcias cotidianas que muito nos dizem, independentemente de nossos olhos não enxergarem. As grandes mães ancestrais das escolas de samba carregam em seus conhecimentos a responsabilidade de serem símbolos das cabeças brancas coroadas pela experiência, pela carga ancestral e, principalmente, pelo poder da sabedoria.

No Salgueiro, portanto, são elas as únicas responsáveis (e capazes) de perpetuar a manutenção dos fazeres ancestrais, de repassar o conhecimento que adquiriram até hoje e de guiar os rituais e as obrigações necessárias quando a escola aborda divindades africanas em seus enredos, como no próprio “Xangô”, em 2019. Helena também afirmou que as baianas carregam em suas vestimentas o poder de criar, transformar e perpetuar ensinamentos que são carregados em seus tabuleiros pelos saberes e sabores, refletidos inclusive nas comidas vendidas em torno da quadra. São diferentes os conteúdos das barraquinhas antes de ensaios, disputas e demais eventos de coirmãs apadrinhadas por Ogum ou Oxóssi, por exemplo. Carregadas dessa liturgia entre escola e padroeiro, é comum achar na Silva Teles a comercialização de alimentos que também são comumente oferecidos a Xangô, como pratos com camarões, azeite de dendê e muitas velas nas cores de seu pavilhão. Essa energia e esse poder vital que os orixás e os guias espirituais carregam também funcionam dessa forma, trazendo para perto de si, em locais que seu culto esteja presente, símbolos e mensageiros de sua falange.

Para além dos mitos afro-brasileiros, a ligação com o orixá está presente na expressão católica do morro da Tijuca. O cruzo do sincretismo, como evoca Luiz Antonio Simas, é importante para conceber uma forma de se entender uma interseção entre energias, lendas e crenças de diferentes religiões e dogmas. Não existem meios de se contar histórias, fermentadas em terras brasileiras, que bebem do poço da fertilidade de nossa cultura e raízes, sem falar dessa mistura.

Com a Academia do Samba não é diferente. Haroldo Costa destrincha em seu livro Salgueiro: Academia do Samba que a procissão a São Sebastião, perpetuada até os dias de hoje no morro, é herança do legado desse sarapatel religioso do processo de ocupação do local. Essa amálgama é ainda mais reverberada na propagação dos saberes culinários, durante as festividades religiosas e na disseminação de danças e ritmos como jongo, caxambu, folia de reis, etc.

Toda essa relação e toda essa devoção se dá até hoje pela manutenção de uma capela para o santo no alto do morro, como vestígio das décadas que precederam o ano da fundação do Salgueiro. As comemorações do dia 20 de janeiro são fortemente preconizadas anualmente pela comunidade. A decoração do campo o qual abriga o principal festejo sé dá por muitas velas, bandeirinhas, barracas e tudo mais que compõe o visual de um verdadeiro arraiá em louvação ao padroeiro católico da agremiação. A cereja do bolo dessa relação íntima se dá por uma personagem verde e rosa, a querida Alcione. O clássico “Academia do Samba”, imortalizado na voz da nossa Marrom, sintetiza e confirma o “apadrinhamento” de forma poética logo de cara, com os assertivos e belos primeiros versos: “Salgueiro, ô, salgueiro/Teu padroeiro é o próprio São Sebastião/Estende o manto sobre o Rio de Janeiro”.

Desfile do Salgueiro em 2019 em homenagem a Xangô. Foto: Wigder Frota.

Em 2019, ocorreu o enredo mais aguardado da vida de cada salgueirense: a homenagem ao padroeiro finalmente aconteceu. Em um cenário pra lá de conturbado politicamente, diga-se de passagem, mas aconteceu. Corre em boca nem tão miúda assim que a escolha do tema sobre Xangô foi uma das últimas táticas tentadas por Regina Celi, ex-presidente salgueirense, para criar certa capilaridade e gerar uma adesão da comunidade da escola com ela. O imbróglio foi parar na justiça, estendeu-se por quase 6 meses e, nitidamente, afetou o cronograma do desfile da escola até quando a nova gestão, encabeçada pelo presidente André Vaz, assumiu.

O Salgueiro recebeu uma safra à altura de seu padroeiro, gerando um dos sambas mais ouvidos e repercutidos do pré-carnaval, com refrão forte e melodia potente. O momento da escolha, em especial, foi bastante emocionante. A quadra pulsava, os segmentos salgueirenses se abraçavam visivelmente emocionados e o ambiente contagiava até o menos satisfeito com a composição escolhida. O desfile foi empolgante e emocionante, embora apresentasse algumas irregularidades no conjunto visual e alguns senões na narrativa escolhida, como o pouco destaque dado a Oiá, Oxum e Iansã, mulheres de Xangô citadas no samba. A garra do chão salgueirense e a emoção do componente da vermelha e branca tijucana em homenagear aquele que os protege foram suficientes para driblar os pontos negativos, gerando um ambiente simbólico e competitivo. O Salgueiro ficou na quinta posição, o que bastou para voltar ao Sábado das Campeãs pelo décimo primeiro ano consecutivo.

Antes de a gira acabar, ainda há um último elemento querendo entrar nesse balaio que sacramenta a ligação entre o orixá e a escola de samba. Todo ano, no aniversário da fundação da alvirrubra, geralmente, ocorre uma missa na quadra, ministrada pelo padre Wagner Toledo, ilustre torcedor salgueirense e personificação da representação sacro-profana, sendo amante das escolas de samba e torcedor apaixonado e desfilante assíduo da Academia. Durante a cerimônia, há a comum presença de muitos componentes devotos de São Sebastião, além de toda a simbologia contida no olhar mais atento da grande imagem do santo que a escola mantém em sua quadra. Esse elemento, associado com a figura do detentor do Oxé que também se coloca presente no terreiro salgueirense, vigia os ensaios e protege o bom prosseguimento da vida e do dia a dia dos becos, vielas e frechas do Oió tijucano. Suas presenças encantam e muito contam sobre o misticismo e magia do cotidiano carioca, sobre o pertencimento dos saberes e caminhos ancestrais, preservando por meio desses signos a memória e a história do Acadêmicos do Salgueiro, uma matriarca e grande protagonista dessa cachaça que nos move chamada Carnaval. Saravá!

Agradecimentos: à interminável fonte de conhecimento conhecida por Helena Theodoro, pela ligação de quase 1h sem prévio aviso e toda a sabedoria compartilhada generosamente comigo; ao jornalista e escritor Leonardo Bruno, autor do primeiro livro que obtive sobre a história do Torrão Amado, por também ter me doado parte do seu tempo para conversarmos um pouco; e a Eduardo Pinto, um dos atuais diretores do eminente departamento cultural da Academia do Samba, pelo contato propriamente estabelecido e também todo o tempo e a atenção dispensados.