Reflexões – Da Revolução à resistência Salgueirense 

Por Helena Teodoro

“Festa para um rei negro”, pintura de Mulambö.

A tradição negro-africana de educar através de histórias cantadas impregnou todo o modo de ser das escolas de samba do Rio de Janeiro. Através de seus enredos muitos saberes e acontecimentos foram transmitidos para a população, criando um verdadeiro elo entre nossa realidade de hoje com as vivências de ontem do povo brasileiro.

O GRES Acadêmicos do Salgueiro, em especial, possibilitou um encontro do Brasil com seu povo preto, realizando uma verdadeira descoberta de histórias nunca dantes reveladas, além de evidenciar a liderança, o heroísmo e a arte de personagens totalmente desconhecidos de nossa sociedade e que nunca tinham sido estudados nas escolas. 

Comentar sobre o Salgueiro nos anos 1960 é situar todo um processo de descobrimento do Brasil por seu próprio povo. É tratar do processo civilizatório africano que reúne sua gente no território que ocupa, mudando o foco dos valores da cultura européia, que era de acumulação de bens, para as da cultura africana, que valoriza a acumulação de gente. Tal processo se baseia  em considerar fundamental o aqui e o agora, numa lógica que se pauta na ALEGRIA, num criar asas, buscando estar numa harmonia perfeita com seus pares, cantando e contando histórias, dançando a céu aberto, deixando o corpo ser levado pelo toque dos tambores, num encontro  pleno com o outro, com a natureza e com as energias cósmicas. 

Isabel Valença incorpora sua Xica da Silva e seu extravagante figurino.

Pensar no desfile de Xica da Silva em 1963 é sentir um transbordar de emoções. É ver a valorização de uma mulher negra, Francisca da Silva de Oliveira, num país profundamente racista, que, em pleno século XVIII, revoluciona Diamantina, Minas Gerais. Sua força é tão grande que sua história é cantada-contada nos séculos XX e XXI, dando o primeiro lugar ao Salgueiro no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, além de inspirar a criação de filme, novela para a televisão, poemas e livros. O Salgueiro ainda mostra nesse desfile, para o Brasil e o mundo, a arte de uma bailarina negra, Mercedes Baptista, que fez a coreografia de 12 pares de nobres dançando uma polca em ritmo de samba dentro do desfile de uma escola de samba.

Podemos constatar, ainda, que pela vez primeira uma mulher negra chamada Isabel Valença participa do desfile de fantasias de luxo do Teatro Municipal da cidade, com a fantasia de Xica da Silva, feita por Arlindo Rodrigues para um desfile do povo e que ganha o primeiro prêmio de fantasia de luxo, proposto para a elite.

Mas o Salgueiro não começou sua revolução cultural negro-africana com Xica da Silva em 1963. Em 1960, Fernando Pamplona se torna carnavalesco da escola e, junto com Arlindo Rodrigues, apresenta o enredo Quilombo dos Palmares sobre Zumbi, herói muito pouco conhecido no país. Assim, muitos foram os heróis e heroínas louvados pela escola, com histórias ligadas à cultura dos descendentes de escravizados no universo do samba. 

As demais escolas, que sempre preservaram sua ancestralidade, começam a valorizar suas tradições negras. Pamplona e seu grupo de professores da Faculdade de Belas Artes da UFRJ contam no Salgueiro a estratégia de Chico Rei para libertar seu grupo, trazem toda a arte de Aleijadinho, sem falar na própria história do Carnaval. Muitos foram os temas negros desenvolvidos no mundo do samba, revelando a importância da comunidade preta na construção do país e da identidade nacional, transformando o Rio de Janeiro na principal referência de Carnaval do mundo.

Fernando Pamplona traz para o universo do samba artistas plásticos como Arlindo Rodrigues, Maria Augusta, Rosa Magalhães, Renato Lage, Joãozinho Trinta e muitos outros, além de lidar com novos materiais em sua arte em função das dificuldades econômicas, usando a famosa frase: Temos que tirar da cabeça aquilo que não se tem no bolso. 

Todas as escolas de samba começaram, a partir do exemplo do Salgueiro, a demonstrar cada vez mais o seu papel de elemento preservador da memória e da cultura de sua comunidade, de nossas raízes africanas e indígenas, além de utilizar materiais do cotidiano em sua arte.

O enredo do Salgueiro para 2022 é a culminância de uma luta muito antiga, que vem de longe, numa luta contra as desigualdades no Brasil e no mundo.  A ideia de que vidas negras importam está presente em grande parte dos enredos salgueirenses, que fazem coro com a luta contra o racismo em todos os lugares.

“Festa para um rei negro”, de Leandro do Vale, 2021.

O Salgueiro vem lutando  contra o racismo institucional através de esforços diplomáticos e de alianças para atingir os objetivos de manter a continuidade de seus valores civilizatórios, que promovem coesão grupal, propiciam identidade e afirmação existencial. Seus enredos Zumbi, Xica da Silva, Chico Rei, Aleijadinho, Festa para um Rei Negro, Valongo, Do Iorubá à Luz: a Aurora dos Deuses, Templo Negro em Tempo de Consciência Negra, Candaces, Tambor, A Ópera dos Malandros, Senhoras do Ventre do Mundo, Xangô, revelam a participação num processo de resistência cultural numa luta que já dura cinco séculos. 

         

Lugares de  resistência e insurgência       

É importante lembrar que muitos são os espaços de resistência e insurgência negra, além das escolas de samba. Assim, em nosso enredo Resistência para 2022, revemos o Quilombo dos Palmares, local de refúgio dos escravizados em plena floresta, com estrutura africana politica, econômica e social.  Falamos dos quilombos de hoje: o de Camorim, em Jacarepaguá, do Sacopã, em Botafogo, de Maria Conga, em Magé e do Leblon, na Lagoa.

Os quilombos foram criados pela Rainha Ginga, ou Nzinga Mbandi Ngola Kiluanji, rainha do Ndongo em 1623. Ela lutou contra os portugueses e fez um tratado de paz com o papa, erguendo uma catedral para Santa Ana, com seus atabaques no adro da igreja, fazendo uma complexa aliança católico-africana, que caracterizou a congada e as irmandades religiosas negras. Essas irmandades faziam filantropia por justiça social,  comprando alforrias, formando correntes de libertação junto à sociedade e abrigando crianças negras. Além disso, compravam propriedades, possibilitando a criação do primeiro terreiro de candomblé no país, A Casa Branca, em Salvador.

O enredo não pode deixar de situar a Pequena África e a Pedra do Sal, que se destacam por conta das tias baianas festeiras da Praça XI, como Tia Ciata, que formou  o espaço sociocultural do samba, entendido como extensão dos terreiros de candomblé. Assim como não se pode deixar de falar da grande influência do escritor, sambista e compositor Tancredo da Silva Pinto (Tata Tancredo) no mundo do samba. O Tata é considerado o organizador do culto omolokô no Brasil. Criou as federações umbandistas,  que defendiam os direitos de se cultuar uma religião afro-brasileira. Autor do samba General da Banda, sucesso do cantor Blecaute, foi o idealizador da Festa de Iemanjá nas praias cariocas, com muito samba e alegria, além de criar uma bancada política  com representantes do cultos de umbanda. Tata Tancredo foi um dos maiores defensores do Carnaval e do samba carioca.

“Tia Ciata e a Praça Onze”, de Raphaela Corsi, 2021.

Tia Ciata é representada na fantasia e no rodopio que as baianas exibem. Esta é  hoje uma forma de celebrar esta baiana, cozinheira, mãe de santo e muito hospitaleira. Assim nasceu uma das alas mais tradicionais dos desfiles das escolas de samba, que mostram o princípio feminino na tradição religiosa nagô, sendo suas saias amplas e arredondadas a representação de útero fecundado. A atuação das tias baianas é a da mulher secreta, que gera e transforma, da mulher política, que concilia resolvendo os problemas do cotidiano sem guerra e da mulher sagrada, que faz do seu corpo um verdadeiro altar vivo por se comunicar com o espaço cósmico, com seus movimentos em sintonia com os movimentos da Terra, ao ritmo da percussão, que promove o encontro do corpo de todos os componentes da escola com sua ancestralidade e sua história de vida.

Festejar é resistir                 

Muitas são as festas que revelam nossa maneira peculiar de ser como comunidades pretas cariocas. Temos a Festa da Penha, passando pelo Afoxé Filhos de Gandhi, pelos Blocos Afro Agbara Dudu e Orumilá, além do Jongo da Serrinha e o Caxambu de seu Oswaldo até o Bloco Cacique de Ramos, somados à Feira das Iabás e ao Baile Charme de Madureira,  chegando por fim às escolas de samba. Temos formas de festejo que se comprometem com a cultura da diáspora, ligadas à roda, no sentido de pertencer a um grupo e a um determinado lugar.

Os desfiles do Acadêmicos do Salgueiro dos anos 1960 e seguintes provam que as escolas desfilam porque existem e fazem sucesso porque falam desse seu existir, de sua história, de sua maneira muito própria de construir e viver com os seus, num dado território, com alegria, muita fé e capacidade de criar o seu próprio universo.