Narcisa do salgueiro

Por Felipe Tinoco

Narcisa do Salgueiro. Arte: Jorge Silveira.

Considerando o samba como um caldeirão cultural de saberes diversos, dentro dele há espaço para um elemento fundamental à sua constituição: o ritmo musical. As canções e os batuques em forma de samba proporcionam um peculiar movimento de corpos que também são uma demonstração artística desse universo. Nas escolas de samba, o samba no pé é fundamento para a compreensão dos conhecimentos carnavalescos. O corpo livre, sem controle ou engessamento e entregue ao riscado do chão, dá sentido e notoriedade ao que é o samba.

As pessoas artistas que participam das escolas de samba cruzando os territórios sambando, então, devem ser sempre recordadas e exaltadas. No Salgueiro, diversas dançarinas brilharam ao longo de sua história. Se Viviane Araújo pode ser considerada a rainha das rainhas da última década, antes dela Paula do Salgueiro fez nascer a demanda de um nome específico aos artistas bailarinos desse gênero: passista. Entre as duas salgueirenses ilustres, uma terceira foi inspiração para a primeira e inspirada pela segunda. Narcisa – quem também possui do Salgueiro no nome – é mais uma personalidade da alvirrubra a fazer sua trajetória por meio dos pés. 

Indo ao encontro do sentido matriarcal que também tangencia fortemente o samba, Narcisa frequenta o Salgueiro desde criança. Ou mais precisamente desde seus 4 anos de idade, quando sua mãe vendia amendoim nos ensaios das escolas do morro que formariam, em 1953, o torrão amado. Nasceu na quadra, como gosta de dizer metaforicamente. Quase longe da figura de linguagem e versando com a literalidade, ela por pouco também não deu à luz no universo carnavalesco. Em 1973, quando não pôde estar na pista pelos finalmentes da gravidez, na arquibancada assistindo ao marido desfilar, Narcisa percebeu que os finalmentes já estavam finais. O resultado daquele desfile, além do terceiro lugar da Academia cantando Eneida, foi um bebê paparicado pela primeira vez por um pai fantasiado, como conta Leonardo Bruno na biografia da escola. Na outra ponta ao nascimento, sua mãe também faleceu em época foliã, às vésperas do Salgueiro, já unificado, descer o morro para a disputa das escolas. 

Do universo carnavalesco que perpassa tanto a chegada de seu filho ao mundo quanto de sua própria infância, o imaginário da folia está presente de formas múltiplas para Narcisa. Em 1993, no famoso Explode Coração, desfilou como destaque de luxo com complicações na sua fantasia. Enquanto a Sapucaí e os presentes deliravam com a apoteótica apresentação, Narcisa se via em um momento de tensão com o costeiro caído sobre suas costas, acompanhada de baixo pelos bombeiros, que felizmente não precisaram intervir. Além de destaque, já desfilou por sua escola como integrante da bateria, baiana e hoje compõe a velha guarda da agremiação. Foi como passista, no entanto, que brilhou. Em 1954, no primeiro desfile da comunidade oficialmente como Acadêmicos do Salgueiro, dos quatro para os cinco anos, Narcisa foi solta no chão após se movimentar inquieta no colo de sua mãe. A partir daí, ganhou o palco: começou a sambar e foi aplaudida pelo entorno, na primeira fagulha artística que causa o desejo da recorrência. 

Narcisa do Salgueiro desfilando pela vermelho e branco em 1968.

Com os primeiros passos dados no próprio chão da agremiação, aprendeu sozinha a sambar. A autodidata logo conquistou todo o público e passou a desfilar como mascote da bateria. Ao crescer, desenvolveu suas habilidades de comunicação com a dança e, apaixonada pelo morro e pelo barraco em que vivia, continuou frequentando sua escola de coração como passista de maior destaque. Cruzando as avenidas do Centro que marcaram os desfiles das escolas de samba pré-Sambódromo, ostentou graciosidade ao compor os espetáculos salgueirenses. Com a dança, deu vida às melodias de Geraldo Babão ou às letras de Anerscarzinho. Com seu destaque no chão de estrelas da Academia, ajudou a construir os embalos salgueirenses que tanto marcaram os desfiles das escolas de samba na década de 1960. 

Em 1969, o Salgueiro foi campeão em outra situação de tensão vivida por Narcisa. No sol de verão da oitava agremiação a desfilar já com a luz raiada, a artista teve seu sapato de salto alto arrebentado. Sentindo a comoção do desfile, não deixou se abater e cruzou a pista de pés descalços, sangrando, até que outra passista da madrinha Mangueira, Annik Malvil, oferecesse seus próprios pares para a colega da coirmã. Os emprestados, porém, ficaram sem sola, e a ajuda, embora reveladora da fraterna integração dos membros das agremiações, acabou não sendo efetiva. O Salgueiro saiu desse Carnaval direto para as páginas da história e Narcisa, direto para o Hospital Municipal Souza Aguiar, na Praça da República. 

Se a Bahia era de todos os deuses, Narcisa era de todos os sentimentos de coragem, diante das situações e circunstâncias em que ofereceu sua intensa dedicação ao território amado.