Texto curatorial – bloco 4

Por Leonardo Antan, Alice da Palma e Ana Elisa Lidizia

Do primeiro desfile revolucionário do Salgueiro em 1959 até a vitória da Academia em 1971, o carnaval das escolas de samba já havia mudado completamente. Deixou a Avenida Rio Branco e encontrou sua glória na Avenida Presidente Vargas, se tornou a principal e mais comentada manifestação carnavalesca, estampou jornais e revistas, ganhou até disco próprio registrando as obras musicais que desfilavam. A transformação da alvirrubra nesses doze anos não à toa representa a transformação das singelas escolas em um espetáculo cênico admirado por milhões de pessoas e produto turístico do Rio de Janeiro. A marca impressionante de cinco títulos da vermelho e branco, somente nesse período representa os desejos de transformação da massa excluída do centro urbano que fez arte para re-existir. Outrora expulsa, voltava orgulhosa a cada carnaval para se exibir na via principal para inglês e cariocas verem. 

Chegamos aos anos finais da uma revolução ainda vitoriosa, comecemos por 1969. 

Que mistério tem a Bahia? O dendê e a ginga de uma encruzilhada cultural do país influenciaram diversos imaginários. Das fantasias de Jack Vasconcelos, Alex de Souza, Leonardo Bora e Gabriel Haddad aos corpos de Ayrson Heráclito. As imagens de Ayrson falam do imaginário baiano, centrado numa religiosidade afro-brasileira. Aqui, o azeite de dendê, fruto sagrado, purifica e protege o corpo preto, lugar de memórias e conexões ancestrais. O tempero e a complexidade cultural baiana também seduziu Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues que bancaram uma homenagem ao estado mais negro do país, em 1969, com o desfile Bahia de todos os deuses, mesmo que uma homenagem ao lugar fosse vista como azarada. Subverteram a superstição e foram campeões em mais um espetáculo visual, coroado, dessa vez, pela primeira grande alegoria das escolas de samba, uma Iemanjá espalhada que guiou os salgueirenses rumo ao título. Deusa da água e símbolo africano da nossa religiosidade misturada, a lendária alegoria é reinterpretada por André Rodrigues, Theo Neves, Leandro do Vale para esse projeto, além das vezes que foi imaginada novamente no carnaval, como no caso dos desfiles salgueirenses de 2003 e 2019. Imagens somadas às outras representações da divindade são propostas por Raphaela Corsi, Osmar Filho e Lucas Abelha. 

Se a pergunta de Dorival Caymmi, eternizada na voz de Carmen Miranda, ainda ecoa até hoje, os figurinos de Rafael Gonçalves, Leonardo Bora e Gabriel Haddad tentam responder afinal “O que é que a baiana tem”? Com toda a sorte de panos da costa, turbantes e balangandãs, nos apresentam figuras que certamente frequentaram o Bonfim. De todas essas figuras naturais do estado nordestino, ninguém foi tão ilustre e importante para o samba como Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Desde a década de 1930 até os dias de hoje, as alas de baianas nos lembram da herança ancestral de mulheres negras que abrigaram em suas saias o surgimento do samba. 

O enredo de 1970, batizado de “Praça Onze, carioca da gema”, trouxe a mãe de todas as baianas como sua protagonista. No estender das baianas de São Salvador, as artistas Raphaela Corsi e Júlia Tavares traduzem a centralidade e importância de Ciata num elo entre a pequena e a grande África. Batuques, evocados nos traços de Osmar e Filho e Breno Loeser, que fizeram, naquele pedaço de Rio de Janeiro, centro cultural e de nascimento das nossas escolas de samba.

Virando a página para a vitória derradeira da Revolução, em 1971 já não eram apenas Arlindo e Pamplona a dar as cartas visuais do Salgueiro. Os cenógrafos reuniram em torno de si uma gama de pupilos que deram continuidade às suas formas e enredos. Os sambas já não eram os mesmos também, versos de Bala e Zuzuca deixaram os lençóis de lado para dar lugar a letras animadas e irresistíveis, batuta regida por Laíla. Na Avenida, formas tribais e geométricas imaginaram a inusitada visita de um rei africano em solo brasileiro, mais precisamente à corte de Maurício de Nassau no Recife, durante a dominação holandesa em Pernambuco.
Narrativa afirmativa traduzida nos versos de Bala, que não chegou a ganhar a disputa de samba-enredo, mas criou a frase síntese  “Senhor, agora eu sei que eu também tenho um rei”, versos estes que Guilherme Estevão materializa em sua obra. A nobreza do visitante negro é também muito bem traduzida por Mulambö, em sua tela “Festa para um rei negro”, batizada com o mesmo título do enredo do Salgueiro. André Vargas atualiza, em sua obra “Desfile” –  onde leva um dos estandartes do cortejo para as ruas do centro do Rio – , o icônico carnaval salgueirense: “E se fosse hoje” é pergunta que ecoa pela cidade. E se hoje um rei preto aportasse aqui, seria ele bem recebido? Como acharia seu povo? E se o rei tivesse nascido aqui, no morro? Afirmação dos corpos que sobem e descem o morro do Salgueiro, como a artista Mayara Veloso. Em “De onde se guarda, é de onde se vem”, ela articula as lembranças de carnavais passados com a prática doméstica do lavar, enxaguar e estender panos usados para fantasias, alinhando os trabalhos de preservação da memória ao do cuidado executado pelas mulheres que habitam aquele território. São Candaces, rainhas guerreiras, salgueirenses.

A estética afro-geométrica se fixa no imaginário carnavalesco de modo definitivo, através das herdeiras de Pamplona, como Rosa Magalhães e Maria Augusta, refletida aqui nas representações de Rafael Gonçalves, Alessandra Cadore, Leandro do Vale, Wagner Gonçalves e Ricardo Hessez. Herança estética que continua a ser utilizada no Salgueiro década após década, seja nos desfiles de Luiz Fernando Reis e Flávio Taves ou nos de Renato Lage. Um verdadeiro “clichê” ao se tratar dos ditos enredos “afros”, que começaram a ser forjadas pela referências visuais propostas pela Academia. 

Nos minutos finais, correndo para não estourar o tempo, saudamos Xangô através das obras de Senegambia, Raphaela Corsi, Theo Neves, Osmar Filho e Jorge Silveira. Saudamos não só o orixá padroeiro da agremiação, como também o professor Júlio Machado, conhecido como “Xangô do Salgueiro”, que materializou a ligação do justiceiro com a alvirrubra por mais de trinta carnavais. É machado que desce fazendo justiça aos heróis que construíram essa histórias que aqui recontamos, sob novos olhares. 

Mais de sessenta artistas integram as quatro galerias virtuais do Sal60, lançando seus olhares não apenas para os enredos revolucionários da Academia Salgueirense, mas também para a trajetória dos sambistas, compositores, cenógrafos, figurinistas, dançarinos e dirigentes que fizeram revolução. Artistas e intelectuais de todos os lugares que promovem o cruzo entre tantos saberes. O Salgueiro não viveu sua transformação com a chegada de artistas e profissionais das academias “eruditas”, na verdade, essa escola de samba se tornou uma própria Academia. A alvirrubra fez escola e espalhou pela folia uma série de artistas que a tiveram como berço.