Maria augusta rodrigues – Uma artista guiada pelos astros

Por Leonardo Antan

Maria Augusta Rodrigues. Arte: Jorge Silveira.

Nascida sob o sol em Aquário, Maria Augusta Rodrigues carrega na sua trajetória como artista popular brasileira a importância da coletividade. Para falar sobre o percurso da carnavalesca, tomarei como base seu mapa astrológico natal. Uma cartografia que representa os posicionamentos dos astros no local e hora do nascimento e que influenciam o indivíduo a partir dos planetas (astros) posicionados em signos e também em doze casas astrológicas, associadas às áreas da vida. Esse documento astral será um guia estrutural para entender uma artista completamente ligada ao esotérico e entender, inclusive, como isso se refletiu na sua atuação carnavalesca.

Já na leitura do signo de Aquário, entendemos como se deu sua atuação no grupo de artistas do Salgueiro naqueles tempos revolucionários na década de 1960. Este signo astrológico é o penúltimo do zodíaco e tem seu significado atrelado à importância do pensamento social e coletivo, do indivíduo como parte de um todo. A energia da colaboração marcou exatamente a chegada da jovem estudante da Escolas de Belas Artes ao Carnaval.

Foi em um coletivo que Augusta aprendeu a fazer Carnaval, no que hoje poderia ser chamado de “comissão de Carnaval”, modelo que rendeu muitos frutos à Beija-Flor de Nilópolis no final dos anos 1990 e nos anos 2000. No Salgueiro, a força da união de tantos artistas deu origem a um grupo participativo que tinha reuniões para o desenvolvimento do desfile, desde a escolha dos enredos e dos sambas. Não à toa, a Academia não é uma escola nem melhor, nem pior, apenas diferente. A agremiação carrega consigo a força da soma das individualidades: o todo – tal como o signo fixo do ar simbolizado pelo repositório de água.

Nos anos finais da Revolução Salgueirense, a chegada da jovem foi decisiva em mais duas vitórias retumbantes da agremiação. Maria Augusta começou no Carnaval ajudando Arlindo e Pamplona nos projetos de decorações de ruas, que não só enfeitavam a cidade do Rio de Janeiro, como era um ponto de contato da folia com a Academia de Belas Artes. Para aquele ano, Augusta integrou a equipe também liderada pela dupla de cenógrafos na ornamentação do baile carnavalesco do Copacabana Palace. Ao fim da comemoração, a artista se assustou com a equipe de limpeza que destruiu as peças decorativas. A artista ficou comovida com aquilo, diante do enorme trabalho para execução das peças. Então, recebeu de Fernando uma importante lição que serviria para toda sua atuação profissional: “Carnaval é isso aí, a gente faz para ser destruído. Se você não aguentar, não vai poder trabalhar com o Carnaval”.

Dos dois mestres, Augusta desenvolveu uma forte ligação com Arlindo, em especial. Conta a aquariana que ele não tinha paciência para colorir seus desenhos, então ela ficou responsável por pintar e misturar as tintas para preencher de cor os riscos do mestre. Foi assim que Augusta se tornou uma das maiores especialistas em cores do nosso Carnaval. Com seu talento notável, já em 1969, a estudante logo foi convidada para compor a equipe criativa do Salgueiro. Além de colorir os figurinos da agremiação, Augusta chegou a desenhar a comissão de frente para o desfile, com vestimenta tradicional de linho.

Para o desfile, a artista organizou uma ala com mais onze amigas que vieram fantasiadas de Iemanjá. Na época, ainda era um tabu tanto a representação das divindades nos desfiles, como que os componentes aceitassem usar figurinos que remetessem aos orixás. Na concentração, o grupo aprendeu com o pai de santo e ator Joaquim Motta (com quem Augusta foi iniciada nas religiões afro-brasileira) a fazer os passos característicos da dança da orixá das águas salgadas. Se Joãosinho ornamentou a famosa alegoria da entidade, Augusta foi responsável por outro carro, que trazia um bumba-meu-boi, representando o folclore nordestino, decorado por ela com o restante dos adornos usados no baile de Carnaval do Copacabana Palace.

Da beleza plástica do desfile, foi a representação de Iemanjá cercada por espelhos que se tornou uma das grandes alegorias do Carnaval carioca, se deslocando na concentração e animando os salgueirenses rumo ao título. A emoção com que Augusta sabe traduzir e narrar esse momento na concentração da Presidente Vargas revela o quanto essa alegoria simboliza um marco no aspecto visual dos desfiles.

“Iemanjá de espelhos”, de Leandro do Vale, 2021.

O que poucos sabem é que, em paralelo ao Carnaval do Salgueiro, Maria Augusta deu expediente para o Império da Tijuca naquele mesmo ano no grupo de acesso. Em 1968, Fernando Pamplona indicou a estudante da Escola de Belas Artes, junto as suas companheiras de Alaíde Reis e Cláudia Miranda, para desenvolver o Carnaval da verde e branca, cujo enredo era “O negro na civilização brasileira”. Augusta desenvolveu os figurinos que se referiam aos orixás. Seria uma das primeiras vezes que fantasias iriam representar as divindades afro-brasileiras, já que até então os terreiros não permitiam. Infelizmente, o desfile do grupo de Acesso daquele ano não ocorreu, por causa da falta de luz na Avenida Rio Branco. O destaque principal do cortejo seria o babalorixá Joãosinho da Gomeia, com quem Augusta se introduziu ao universo do candomblé e fez a pesquisa para realizar o desfile. Misticismos e energias que guiam fortemente a trajetória da artista.

Em 1971, Augusta participou da produção de outro carnaval marcante no Salgueiro, do qual Augusta teve atuação fundamental. A artista estava viajando na Europa quando recebeu uma ligação de Pamplona para ajudar a equipe no desenvolvimento dos figurinos para o carnaval daquele ano. O enredo já estava batizado “Festa para um rei negro”, mas a ideia original de Arlindo Rodrigues deu lugar a uma pesquisa Maria Augusta vinha desenvolvendo sobre a visita de soberanos africanos na corte holandesa de Maurício de Nassau, em Pernambuco. Foi o primeiro enredo desenvolvido pela artista para a festa, materializado em figurinos de Augusta e Rosa Magalhães e com adereços de Joãosinho Trinta. Era uma simbólica passagem de bastão dos mestres Pamplona e Arlindo para os novos artistas que se consolidariam na festa.

Se o sol em Aquário de Augusta nos ajuda a entender a potência da coletividade na sua trajetória, o posicionamento do astro de simbologia oposta fala sobre sua potência criativa. Na astrologia, a Lua é a regente das nossas emoções e afetividades, falando de memória, sentimentos e da nossa família. No mapa astral de Augusta, a sua lua natal está no signo de Áries, considerado intenso e explosivo, o que mostra a sua capacidade emotiva. Essas emoções influenciam diretamente a sua quinta casa, responsável pela capacidade criativa e expressão artística. Analisando esse aspecto, não fica difícil entender como essas características movem os trabalhos que Maria Augusta desenvolveu ao longo de sua trajetória.

Em entrevista, a carnavalesca chegou a traduzir esse aspecto na máxima “sou movida a emoção”, em um ótimo exemplo da junção da forma de ação do signo de Áries e da emotividade ligada à Lua. Se essa posição astrológica acentua a sensibilidade poética, ela também está associada às marcas do passado e às lembranças familiares, outro assunto que Augusta constantemente cita em seus relatos. São referências emocionais que servem como matéria-prima da construção da sua obra.

Simbolicamente, na astrologia, a Lua também representa a figura materna. No caso do percurso de Augusta, ela narra frequentemente a sua relação com a sua mãe – Anna Augusta Rodrigues, folclorista – como definitiva. A infância da artista aconteceu na Usina Barcelos, no município de São João da Barra, no norte fluminense, onde viveu cercada com o folclore, a cultura popular, os folguedos e brincadeiras típicas do lugar. As atividades de festas e saberes coletivos despertaram na carnavalesca um legado que a acompanha até hoje. Esse contato direto foi fundante no seu fazer artístico (a casa 5) com a experiência familiar e afetiva (a Lua).

Desfile do Salgueiro em 1973, que marcou a estreia de Augusta como carnavalesca ao lado de Joãosinho Trinta. Foto: André Wanderley

Foi a partir desse repertório simbólico que Maria Augusta criou o enredo que é sua grande contribuição artística ao Carnaval e ponto definitivo na trajetória de uma agremiação: “Domingo”. O tema marcou sua simbiose criativa com a União da Ilha do Governador. Antes de falar desse encontro, vale retomar o tempo para não perdermos o fio da meada. Em 1973, no Salgueiro, a carnavalesca dividiu com Joãosinho Trinta a criação do desfile “Eneida, amor e fantasia”, enredo proposto por Tereza Aragão, marcando uma passada de bastão definitiva dos mestres Arlindo e Pamplona para seus pupilos. A aquariana colaborou ainda nos carnavais seguintes da Academia, mas que tiveram assinatura solo de Joãosinho, bicampeão com o Salgueiro entre 1974 e 1975.
Em 1976, Augusta retornou, então, à União da Ilha do Governador, quando a escola já frequentava o grupo principal de desfiles. Mas não se tratava do primeiro envolvimento da artista na agremiação, pois, quatro anos antes, ela desenvolvera o enredo “A Cavalhada” para a tricolor, ainda no grupo de acesso. O convite partiu do compositor Aurinho da Ilha, que se dividia entre a tricolor e a alvirrubra da Tijuca.

Analisando outro aspecto importante de como estava o céu no nascimento de Augusta, destacamos agora o planeta Netuno. A casa 10, chamada também de Meio do Céu, é entendida como a casa ligada à carreira e à missão de vida pessoal. Já o planeta que levou o nome do deus dos mares fala sobre nossos sonhos, intuições e sensibilidades. Assim, a força da imaginação e do sonho foram vitais em seus trabalhos. Para quem nasce sob essa influência, acreditar nos próprios sonhos é condição imprescindível no que constrói artisticamente. Não é por acaso, portanto, a escolha por profissões que exijam sensibilidade, inspiração e habilidade de “fabricar fantasia”. Esse forte aspecto intuitivo e emocional guiou a obra de Augusta, que criou uma nova possibilidade ao brilho e luxo que estava se desenhando para as escolas de samba.

Foi a partir da sua experiência pessoal que resolveu homenagear um dia de alegria e afeto: o domingo. Aos dez anos, a filha de Anna passou a frequentar um internato, no qual tinha apenas os domingos de folga. Esse ideal alegre, afetuoso e leve pautou a criação do desfile da União da Ilha em 1977. A agremiação, por sua vez, soube perfeitamente incorporar esses princípios da artista, marcando um encontro de energias que transformou a festa ao fomentar um discurso que se fixou como o “bom, bonito e barato”.

A narrativa se desenvolveu para contar o que os habitantes cariocas faziam em seu dia de folga. Augusta trazia para o sacralizado desfile das escolas de samba o mais banal e ordinário cotidiano, dotado de singeleza. A transformação desse cotidiano em Carnaval também pode encontrar um forte significado ao analisar os aspectos astrológicos da artista. Para os saberes astrais, a casa 6 é a referente aos assuntos cotidianos e à rotina. Não à toa, esta é a área do mapa da artista que possui três planetas a influenciando. Os astros Saturno, Urano e Júpiter falam da potência criativa e transformadora com que Augusta encara o dia a dia.

Foi da sua sensibilidade e emoção, mais uma vez, que surgiu outro enredo influenciado por toda essa cartografia astral que acompanha sua vida. “O amanhã” soube traduzir brilhantemente a curiosidade humana sobre o futuro, novamente apropriando-se de símbolos cotidianos em um diálogo direto com o público, sem o tom historicista que possuíam a maioria dos enredos. Os sambas-enredo da agremiação ajudaram no processo, com letras fáceis e populares, mas sem perder o lirismo. Eles se fixaram na memória foliã por gerações. Assim, nasceu um imaginário que acompanha até hoje a União da Ilha do Governador. Foi na tricolor insulana que Augusta conseguiu tanto unir fortemente suas qualidades, quanto criar de modo tão afetivo e emotivo (Lua na casa 5), com uma comunidade unida (Sol em Aquário), traduzindo seus sonhos em fantasias e alegorias (Netuno na casa 10).

Esses aspectos guiaram os enredos criados por Augusta em seus trabalhos seguintes. Entre 1980 e 1983, ela assinou narrativas sobre a sorte, o amor e a alegria para o Paraíso do Tuiuti. Enredos que parecem abstratos, mas que só poderiam ser materializados por alguém com tamanha sensibilidade. A coletividade guiou sua trajetória mais uma vez quando integrou mais uma comissão de Carnaval, dessa vez nos anos iniciais da escola de samba Tradição.

Maria Augusta desfilando na Beija-Flor em 1993. Foto: Wigder Frota.

Em 1993, após anos afastada do barracão, Augusta voltou a assinar um Carnaval. O enredo “Uni-duni-tê, a Beija-Flor escolheu: é você” se comunicou mais uma vez com a infância e o cosmos. Em seu único desfile assinado no Sambódromo, destacaram-se mais uma vez seu trabalho cromático e visual, com rara habilidade em uma narrativa afetiva e astral, materializada em fantasias e alegorias fora do padrão do Carnaval da época. A apresentação, entretanto, não foi tão bem recebida pela agremiação por vir logo após uma marcante parceria entre a Beija-Flor e Joãosinho Trinta, que faturaram cinco títulos juntos.

Um aspecto final que pode ser decorrido nessa análise astrológica, mas que também reflete a atuação de Maria Augusta no Carnaval é sua forte capacidade de comunicação. A artista tem dois planetas pessoais e importantes ligados ao fazer artístico, que são Vênus e Mercúrio, exatamente na casa 3, associada às linguagens. Essa competência foi não só uma das grandes qualidades dos seus desfiles, mas fundamental para quando a aquariana migrou para a televisão e se tornou uma das grandes comentaristas do Carnaval. A experiência de barracão e sua intuição guiaram comentários que se fixaram no imaginário folião, formando uma geração que cresceu assistindo Carnaval em frente à telinha.

Não à toa, ela não só se emocionou muitas vezes nos desfiles, como transmitiu esse sentimento a todos. Inclusive para esse astrólogo e historiador da arte que vos escreve. A voz de Augusta se fixou no meu inconsciente. A voz de uma artista que se dedicou com verdadeiro sacerdócio à folia, em barracões, quadras ou estúdios de televisão. Seriedade e emoção fazem de Maria Augusta Rodrigues uma das grandes artistas brasileiras, herdeira de um Salgueiro revolucionário. Guiada não só pelos astros do sistema solar e seus saberes, como pelos conhecimentos de astros do Carnaval, seus mestres Arlindo e Pamplona.