Salgueiro 1968 – Dona beja, a feiticeira de araxá

Por João Gustavo Melo

Arte de Antônio Gonzaga.

Enredos sobre personagens históricos femininos não eram necessariamente uma novidade na história dos desfiles das escolas de samba. Mas poucos foram tão ousados como Dona Beja (Ana Jacintha de São José), a Feiticeira de Araxá, que o Salgueiro levou para a Avenida Presidente Vargas no Carnaval de 1968. Após contar a História da Liberdade no Brasil em 1967, a escola vermelha e branca foi ao triângulo mineiro e revelou ao público uma personagem carismática, atrevida e libertária. 

Beja era uma personalidade histórica cuja biografia era meio que impensável para o conservador período de golpe civil-militar em que o Brasil estava imerso. Tratava-se de uma jovem belíssima nascida na cidade de Formiga, no interior mineiro, filha de mãe solteira. Mais tarde, já na cidade de Araxá, Beja tornou-se um mito: era uma das mulheres mais desejadas e invejadas da região. 

Aos 13 anos, dona de uma beleza incomum, tornou-se amante do Ouvidor da Corte Joaquim Inácio Silveira da Motta. Passados alguns anos, o Ouvidor foi para o Rio de Janeiro, transferido por Dom João VI. Beja ficou em Araxá, onde montou o maior rendez-vous da região. A Chácara Jatobá era um bordel de luxo, onde recebia apenas os homens que desejava. 

Isabel Valença mais uma vez foi destaque no Salgueiro em 1968.

Claro que os atributos físicos e a “disponibilidade” de Beja despertaram a inveja das senhoras da sociedade local. Sentimentos que foram magistralmente descritos no samba de Aurinho da Ilha e Didi (embora este não assinasse o samba) que a vermelha e branca levou para a Avenida em 1968:

“Com seus encantos e sua influência

Supera as intrigas e os preconceitos sociais”

Prova das intrigas cantadas no samba – um dos mais belos da história da Academia – reside no curioso fato de que, certo dia, Beja havia recebido na Chácara de Jatobá um embrulho volumoso, muito bonito, envolto em belíssimas fitas. Ao abrir o pacote, estremeceu da cabeça aos pés ao perceber que o conteúdo da ornada caixa era nada mais, nada menos que… fezes! Pois eis que Beja devolveu à destinatária a mesma bela embalagem, só que cheia de… flores! Junto ao buquê, colocou um requintado cartão com uma caligrafia caprichada, no qual se lia: “CADA UM DÁ O QUE TEM”. 

Esse episódio, claro, não escapou à visão apurada de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, que fizeram questão de colocar a frase em um tripé no desfile. Embora a apresentação salgueirense não estivesse entre as mais brilhantes da história da agremiação – abalada por uma forte crise financeira e contando com um número bastante reduzido de componentes que desafiavam uma chuva fina e insistente – a escola encantou com um visual pontuado em flores, inspirado na encomenda que Beja enviou à desafeta.

Imagens do Salgueiro desfilando na Presidente Vargas em 1968.

“Foi o ano que o Salgueiro saiu com seiscentas e pouco, setecentas pessoas… foi incrível, como é que pode uma escola que tinha um contingente tão grande, mas ela saiu com seiscentas, setecentas pessoas. Graças ao Pamplona, o Salgueiro botou Dona Beja na rua. Porque ninguém sabe, mas o Salgueiro não tinha nada faltando um mês para o Carnaval”, revela Laíla em entrevista ao documentário “A Revolução Salgueirense”. 

A título de registro, Dona Beja havia sido enredo de duas agremiações do Grupo II das escolas de samba, ambas no ano de 1966. Naquele desfile, a Aprendizes da Gávea apresentou “A Vida em Flor de Dona Beja” e a Independente do Leblon teve como tema “Dona Beja, A Feiticeira de Araxá”, título homônimo do enredo dos Acadêmicos do Salgueiro. Ou seja, a “jovem, linda e divinal” já circulava pelas avenidas antes de se consagrar definitivamente como a musa inspiradora salgueirense de 1968. 

Dona Beja, claro, não poderia ser representada por outra pessoa que não Isabel Valença. A eterna Xica da Silva apresentou-se com um luxuoso vestido, ornado de pedras, tecidos nobres como lamê prateado sobre brocado dourado, arrematados em paetês. O valor total do traje somava 16 mil cruzeiros novos. Para se ter uma ideia do que representava esse valor, um Gordini zero quilômetro, ano 67, era vendido a seis mil cruzeiros novos. Ou seja, Isabel vestia quase três automóveis na Avenida. 

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira do Salgueiro em 1968.

A honra de conduzir o pavilhão alvirrubro ficou a cargo do estreante no Salgueiro Élcio PV e da inesquecível Estandília, que receberam nota 9 de um júri que deu notas 10 apenas para bateria e harmonia da escola, reservando as menores pontuações (duas notas cinco) para evolução e conjunto. No perde e ganha das notas, o Salgueiro conseguiu um celebrado terceiro lugar, considerado um feito e tanto para uma agremiação que até dezembro não tinha qualquer perspectiva de desfilar.

O resultado impulsionou a escola e a massa alvirrubra começou a planejar o desfile histórico com o qual iria reencontrar-se com a vitória em 1969. Título que começou a ser costurado com as graças de Dona Beja, a rainha das flores do Salgueiro, para sempre lembrada por um samba antológico, que recebeu críticas totalmente infundadas, como a do cronista Juvenal Portella, do Jornal do Brasil. Ele apontou uma duvidosa semelhança melódica com “Pau de Arara”, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, o que, naturalmente, não correspondia à realidade. Mas a resposta foi apresentada em pleno desfile na manhã chuvosa da segunda-feira gorda de 1968, presente pela frase síntese do desfile: “CADA UM DÁ O QUE TEM”. E o Salgueiro deu, com seu trejeito feiticeiro, samba no pé, arte e amor ao Carnaval.