Salgueiro 1967 – História da liberdade no brasil

Por João Vitor Silveira

Nos dias de hoje, fazer um debate sério e complexo sobre a liberdade é essencial. Entender as relações que as pessoas estabelecem com esse conceito, em todos os aspectos possíveis, é o primeiro passo para se poder construir uma sociedade verdadeiramente comprometida com a liberdade. É preciso compreender como a liberdade era pensada no contexto da nossa sociedade moderna, há anos, décadas e séculos atrás para, a partir disso, ter o entendimento de como esses mecanismos funcionam e influenciam a sociedade que temos hoje. Tudo isso para, por fim, trabalhar em prol das mudanças necessárias nessas estruturas e construir a sociedade que teremos no futuro em diálogo com o ideal de liberdade. 

Se hoje esse tema é importante, não é possível subestimar a influência, a importância e a necessidade de se falar sobre ele na década de 1960. Estamos falando do ponto de vista de um país construído com base na privação da liberdade de quase cinco milhões de negros, para além das outras formas de escravidão e cerceamento da liberdade empregados ao longo da história do Brasil. Logo, falar sobre como a liberdade foi construída no país e sobre como o acesso a ela, para a maior parte da população, só foi possível por intermédio de batalhas árduas, contínuas e, por via de regra, sangrentas, é dizer que ser livre no Brasil só foi, é e será possível por intermédio do suor e sangue proveniente da luta popular.

Indo mais além, é preciso pensar o próprio conceito de liberdade no Brasil à época da construção do enredo, baseado no livro homônimo de Viriato Corrêa. Ou seja, é inevitável a reflexão sobre como foi construir esse enredo num período em que o Brasil estava sob o regime de uma ditadura militar. De fato, as possibilidades de se exercer a própria liberdade eram reduzidas, sendo a área da cultura um dos grandes alvos desse controle. O pré-carnaval foi para lá de atípico. A vermelha e branca havia experimentado o amargor de um quinto lugar, a pior posição até então da sua trajetória. A escola não teve à frente do seu Carnaval a dupla Fernando e Arlindo, que se desentenderam com o presidente Osmar Valença. Para o lugar, seria chamado Clóvis Bornay, marcando um diálogo com o concurso do Theatro Municipal. 

Além desse retrospecto pouco favorável, o clima na quadra também não foi muito animador, já que os ensaios da Academia eram frequentemente alvo de visitas do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, mostrando a relevância do tema àquela altura e como não seria uma tarefa simplória levá-lo para a Avenida. 

Na noite dos desfiles, uma chuva torrencial castigou a Avenida Presidente Vargas, deixando suas marcas não somente no público que já se concentrava para assistir à competição, mas também na organização do cortejo, que precisou ser atrasado em quase duas horas, fazendo com que a última escola, na ocasião a Mocidade Independente de Padre Miguel, tivesse que começar seu desfile ao sol de meio-dia. Nessas condições, a Academia do Samba tomou seu lugar e foi a quarta escola a desfilar naquele domingo de Carnaval. 

A madrugada já havia chegado há algumas horas quando as mais de trinta mil pessoas presentes se levantaram para testemunhar a passagem do Salgueiro pela Avenida Presidente Vargas. O público, que se acomodava como podia se espalhando pelas arquibancadas, calçadas, árvores e nos edifícios da avenida, recepcionou de forma calorosa a escola e seu samba de enredo, composição de Aurinho da Ilha e entoado com louvor pelo quarteto Noel Rosa de Oliveira, Laíla, Nescarzinho e Manoelzinho. A obra foi uma das mais influentes do período anterior ao Carnaval, graças à adesão de um público constante nos ensaios de quadra.

Mercedes Baptista marcou presença no desfile de 1967. Foto: O Globo.

A abertura da escola apresentava o livro escrito por Viriato Corrêa, obra que havia inspirado diretamente o enredo que o Salgueiro se propôs a defender na Avenida, sendo seguida pela comissão de frente da escola, que trouxe todos os seus componentes portando bandeiras da Inconfidência Mineira, com o seu característico lema “Liberdade, ainda que tardia”. Já na sequência, em seu primeiro capítulo, vinha representada a história de Amadeu Ribeira, o homem que não quis ser rei. Seria assim que se daria início aos recortes escolhidos pela escola para apresentar todas as reviravoltas, lutas e glórias, derrotas e vitórias da liberdade no Brasil. 

Dando prosseguimento ao desfile, o segundo capítulo apresentou a história dos brasileiros que lutaram contra os monopólios comerciais estrangeiros, ainda na época da Companhia Inglesa. Essa história seria personalizada na figura de Manuel, o Bequimão. Seria sob sua liderança que o povo lutaria por dois anos, antes que a cabeça de Bequimão fosse desejada, e a luta freada com sua morte. Já no capítulo seguinte, estaria representada a luta dos quilombolas por liberdade, exemplificadas na figura de Zumbi dos Palmares e de seu famoso quilombo. O visual voltou a apostar numa estética afro-brasileira que, apesar de ter sido marcante na apresentação de 1960, ainda não tinha se repetido no visual das escolas nos desfiles posteriores. 

Já nos quarto e quinto capítulos, estariam representados o massacre dos mascates e a luta dos emboabas. Era notório que, acompanhado pelo desfile que construía esses capítulos com maestria e bom gosto, o enredo era bem contado também muito por conta do samba-enredo de Aurinho da Ilha. Todos os capítulos narrados pelo Salgueiro são fielmente representados e, com melodia e poesia bela, ajudaram a cativar o público e gerar a conexão que faria com que o Salgueiro saísse, pela opinião de jornais da época, como um dos favoritos ao título após o término dos desfiles. 

Sambistas na apresentação de 1967. (Foto: O Globo)

Dando continuidade ao desfile, o Salgueiro trouxe como destaque Filipe dos Santos, que viria acompanhado pelas primeiras alas trazendo a representação dos inconfidentes. Logo após, haveria a representação da Revolução dos Alfaiates na Bahia, que deram destaque à imagem do menino enforcado com seus carrascos, seguidos pelas baianas da escola no Mercado Popular e mais uma ala de inconfidentes, acompanhada por uma ala de alfaiates. Logo após a conclusão do sétimo capítulo, viria a representação maciça da Inconfidência Mineira no oitavo capítulo, trazendo Bárbara Heliodora como destaque principal, desfilando pouco antes da bandeira da Inconfidência que encerraria o capítulo.

Logo após, um curto capítulo foi dedicado aos Liberais de Pernambuco, contando com apenas quatro alas e um destaque: José de Barros Lima, o Leão Coroado, cujas ações seriam o estopim para a Revolução Pernambucana. Já no setor seguinte, a escola retrataria pela sua ótica a questão da liberdade do Brasil enquanto país, representada na figura de Dom Pedro I e da Imperatriz Leopoldina, os dois destaques do capítulo dez, no qual o Dia do Fico foi exaltado como o “Fico Triunfal”, segundo os versos de Aurinho da Ilha. 

Já se encaminhando para o final de seu cortejo, a escola passou pelas figuras de Frei Caneca, Dom Pedro II e o regente Feijó, até desembocar no 13 de Maio e cantar a liberdade a partir do prisma da Princesa Isabel. Naturalmente, para o contexto da época, foi um dos momentos de maior explosão no desfile, ainda mais considerando a presença de Isabel Valença como destaque nesse capítulo, representando a princesa assinando a Lei Áurea. A destaque, que havia virado uma celebridade da época, era seguida por um séquito e apresentou um ótimo caminho para a conclusão do desfile salgueirense. 

Isabel Valença desfilou deslumbrante mais uma vez em 1967, como a princesa Isabel.

A escola daria fim aos seus setores com liberais e republicanos seguindo o Marechal Deodoro, exaltando a proclamação da República como um grande passo no caminho para a liberdade, não só dos indivíduos, mas do próprio país. A apresentação do Salgueiro foi cativante e arrebatadora, sendo considerada por mais de um dos jornais da época como uma das favoritas a alcançar o título do ano de 1967. Ainda que não tenha chegado ao título e ficado com o terceiro lugar, aquele desfile serviria também para sedimentar a história que o Salgueiro construía naquela década, estando mais uma vez nas cabeças da competição. 

Apesar de algumas escolhas discutíveis em termos narrativos, é necessário enxergar as ideias e os conceitos presentes no desfile salgueirense como uma obra de seu tempo. Provavelmente, nos dias de hoje, uma homenagem à história da liberdade no Brasil, ainda mais pelo prisma das lutas, contaria com outras homenagens e descartaria algumas das que aconteceram. Mas é preciso reconhecer o caráter pioneiro do Salgueiro no tema, além de destacar como foi um enredo corajoso em tempos difíceis. Além disso, o enredo também serviria como uma justa homenagem a Viriato Corrêa, que chegou a ser levado à quadra do Salgueiro no pré-carnaval pelo jornal Correio da Manhã. O autor viria a falecer em abril de 1967, tendo como uma de suas últimas memórias a visita ao Calça Larga, o enredo salgueirense e a reverência de Aurinho do Salgueiro.