Salgueiro 1965 – História do carnaval carioca 

Por Leonardo Antan

Arte de Thiago Santos.

Uma vitória retumbante. O gosto amargo de uma derrota. Assim tinham sido os dois últimos carnavais do Salgueiro, deixando uma sensação agridoce para os sambistas da Academia. Qual vislumbre poderia vir para o ano de 1965? 

Após um número considerado excessivo de coreografias na apresentação de 1964, a alcunha de “escola-show” tinha deixado de ser positiva para se tornar um fardo para a alvirrubra. Diversas reportagens foram taxativas na crítica ao cortejo sobre Chico Rei, alertando que a escola “se aproxima cada vez mais do show puro, fazendo não mais uma escola de samba, mas um teatro ambulante”, como publicou uma crítica do Jornal do Brasil (JB).

Seria a perda de espontaneidade do samba? Era o que apontavam as matérias, afirmando que os desfiles se transformaram em um teatro ambulante. Apesar das críticas, a reportagem do JB chancelou que “a beleza do show apresentado pelo Salgueiro precisa ser reconhecida. O bom gosto de suas fantasias também deve ser ressaltado”. Marcando uma linha tênue acerca do desenvolvimento estético e das inovações apresentadas, apesar do processo que as escolas vinham sofrendo desde 1959, as novas formas de se pensar e fazer carnaval não tinham sido até então tão questionadas de forma explícita. Os desfiles do Salgueiro e da Portela trouxeram uma nova discussão que mudaria os rumos dos processos de espetacularização e popularização das novas protagonistas da folia carioca.

Um elemento que mostra o crescimento da aproximação das agremiações com as classes médias cariocas seria, naquele ano, a presença massiva de personalidades e artistas de outras áreas desfilando nas agremiações, seja como “atração” especial ou não. Entre essa lista de nomes, chama a atenção o empresário Carlos Imperial, que comandou uma ala de estudantes da TV Excelsior, e o dançarino estadunidense Lennie Dale – quem ainda foi cotado para coreografar alas da Portela, o que acabou não se confirmado. 

Fato era que o Salgueiro não foi a única agremiação a trazer elementos considerados alheios ao samba. A Portela havia sido a grande campeã da folia em 1964 incorporando violinos em sua apresentação, em um ato apontado na mídia como o grande trunfo para conquistar o novo público que consumia as apresentações. Existia um culpado, então, por uma busca acelerada por qualquer tipo de inovação?

E por que começar a falar de uma apresentação falando tanto do ano anterior? Exatamente porque a frustração de 1964 é o que levaria o sucesso do Salgueiro no carnaval do próximo ano, e aqui cabe soltar um pequeno spoiler: o Salgueiro sairia daquele ano com mais um título. Para entender o projeto desse carnaval, são emblemáticas as matérias do JB, intituladas “Salgueiro venceu porque corrigiu erros de 1964” (06/03/1965) e “Vitória do Salgueiro começou na derrota de um ano atrás” (10/03/1965). As reportagens apontam o que consideravam os erros da apresentação de 1964 e como eles tinham sido resolvidos e/ou revistos pela direção e pela criação da agremiação.

A preocupação com 1965 era tanta que o enredo seria anunciado com bastante antecedência se comparado esse período aos dos anos anteriores. Até então, o tema do desfile só era divulgado na imprensa já em janeiro, mas foi em agosto de 1964 que o Jornal deu a exclusiva de que “História do carnaval carioca” seria a narrativa proposta por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. De retorno ao Brasil, o professor da Belas Artes voltaria também a fazer dupla com seu antigo parceiro, que tinha assinado sozinho as três apresentações anteriores.

Visão geral do cortejo do Salgueiro em 1965 na Presidente Vargas.

Naquele ano de 1965, a cidade do Rio de Janeiro comemorava 400 anos de história exatamente na segunda-feira de carnaval, sendo obrigatório que todas as agremiações versassem, nos seus cortejos, em homenagem ao marco. A cidade, que havia excluídos os pretos e pobres do seu centro urbano, usou e abusou do prestígio das escolas de sambas – manifestação oriunda dessa população – como seu principal produto turístico e artístico. 

Na hora de decidir o que o Salgueiro levaria para a Avenida Presidente Vargas, nada de vultos e efemérides; a inovação em contar a história do carnaval carioca partiu da vivência de Eneida de Moraes, intelectual que havia registrado essa trajetória na primeira publicação sobre os festejos, em 1958. Pamplona definiu o ato como uma sacada shakespeariana, pois falaria do carnaval dentro do carnaval, num exercício de metalinguagem parecido com o que fez o escritor inglês ao abordar o próprio teatro em suas peças.  

O clima de tensão não deixou a escola até o momento derradeiro da apresentação. Na concentração, a bagunça parecia generalizada. O principal atropelo foi que o abre-alas da Academia ficou enguiçado no barracão. Corriam boatos de que as vaias seriam puxadas quando a escola entrasse na Avenida por conta da dificuldade. Desesperado, Pamplona foi atrás de Nelson de Andrade, que aprontava o desfile da Portela. A ideia era que o ex-dirigente do Salgueiro emprestasse um caminhão para que pudessem transportar o abre-alas da Academia até o desfile. 

A tentativa acabou não sendo necessária, e outra aposta para resolver a possível antipatia e a falta da alegoria de abertura foi providenciada. Jorge Calça-Larga, ademais, vestiu uma fantasia de Rei Momo, dando sequência à dinastia carnavalesca iniciada por seu pai, Casemiro. Para tentar animar ainda mais a plateia, as famosas Irmãs Marinho fariam companhia, encarnando os clássicos pierrô, arlequim e colombina.

As famosas burrinhas que abriram o cortejo de 1965.

Um grupo de foliões embalando burrinhas de vime deu o tom do que seria aquele cortejo. Os belos adereços, realizados por um certo Joãozinho das Alegorias, tornaram-se uma das grandes imagens do desfile. As burrinhas representavam o que o enredo considerava o primeiro carnaval da cidade, em 1641, quando o povo saiu às ruas para aclamar D. João IV. Na ocasião, garbosos cavalos abriam o desfile, seguidos por populares e civis. Os cavalos viraram as belas burrinhas de vimes, e o grupo fazia parte dos dançarinos de Mercedes Baptista, mas desta vez estavam livres para sambar. O excesso de coreografia parecia realmente ter traumatizado a agremiação com a repercussão do ano anterior. A reverberação negativa e toda a discussão gerada pela apresentação de 1964 faria o Salgueiro se repensar para aquele carnaval. Também em matéria do JB (10/03/1964), destacou-se que Casemiro Calça Larga e Osmar Valença “sentiram a necessidade de fazer mudanças radicais, inclusive cortando o mais possível as alas coreografadas com marcação de ballet.” 

Ainda dentro da primeira parte do desfile, batizada de “Origens do carnaval”, as alas reproduziam quadros de Rugendas e Debret. Depois disso, a narrativa seguia ao século XIX, em que a ala de passistas trazia máscaras em suas fantasias, lembrando os cordões. Os ranchos foram a próxima manifestação da folia a ser lembrada. Uma grande comitiva de um bloco chamado Jará lembrava os blocos de sujos, mas com fantasias riquíssimas. Na sequência, o corso invadia a pista. Passaram três carros abertos em carretas, já que não era permitido a presença de automóveis. Rapazes e moças fantasiados de frajolas e melindrosas jogavam confetes e serpentinas.  

O uso de pompons foi uma inovação do cortejo.

No ultimo carro do corso, vinha a cronista Eneida, vestida de pierrô. Entre arlequins e pierrôs, havia ainda morcegos, diabinhos, dominós e mortes. Um enorme bonde sobre uma carreta encerrava a segunda parte do desfile, e o meio de transporte que começava a desaparecer com as mudanças da cidade surgia repleto de foliões com direito a condutor e torneiro. 

Os bailes abriam a parte final da narrativa, das famosas festas mascaradas de Veneza à folia de gala do Municipal, com foliões a rigor e trajes de luxo. Tudo era representado sem coreografia, apenas a espontaneidade dos sambistas e desfilantes que vibravam junto com a plateia. Para encerrar em grande estilo, só faltava chegar nos desfiles das escolas de sambas. Foi aí que surgiram malandros, passistas e baianas. Uma ala de encerramento trazia doze casais de mestres-salas e porta-bandeiras, representando o congraçamento entre as principais agremiações. 

Nada de fantasias luxuosas demais, muito menos coreografias. Pamplona tinha supervisionado Arlindo e, juntos, apostaram em algo muito mais singelo, mas sem perder o requinte. Uma importante inovação do visual foi o uso de pompom nas fantasias e adereços, o que depois se tornaria um lugar-comum para falar de carnaval nos desfiles nesse processo de metalinguagem.  

O retorno de Fernando Pamplona marcaria um “passo atrás” no processo de transformações vigentes nas escolas de samba cariocas ao longo dos últimos seis anos. O desfile realizado na comemoração do quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro voltaria a apostar em elementos que dialogavam com o singelo e o popular, apesar de não perder a ideia de fantasias requintadas e bem desenhadas. O desfile teria menos coreografias, deixando de lado os bailados e as personagens suntuosas, apostando em imagens que apresentavam beleza e singeleza.

Apesar dessas qualidades, o luxo apareceu num momento pontual da apresentação que rendeu uma homenagem ao próprio Salgueiro. A narrativa chegava à contemporaneidade e falava das escolas de samba. Para isso, a imagem mais marcante das agremiações, até então, voltou a incorporar-se naquela Avenida. 

Após dois anos de sucesso, Isabel Valença não poderia ficar de fora do cortejo. E a fantasia ápice era nada menos que Xica da Silva. Sim, de novo. Em um figurino ainda mais requintado e trabalhado. Ainda mais imponente, mais deslumbrante, mais luxuosa. No intervalo de apenas dois anos, Isabel Valença foi elevada pelos artistas salgueirenses à condição de história viva do carnaval. 

Isabel Valença voltou a viver Xica da Silva. (Revista Manchete)

Em entrevista ao JB (13/08/1964) sobre os preparativos do desfile, Fernando Pamplona afirmou que “Chica da Silva era personagem que o Salgueiro fez se identificar com o samba”, justificando a sua presença no enredo sobre a História do Carnaval Carioca da seguinte maneira: “A verdade é que Chica da Silva deixou de ser um detalhe de um episódio para ser um tipo do carnaval, conhecido mundialmente. Por isso, promovemos a sua volta”. Valorizando a própria história do Salgueiro, a opção foi colocar Xica da Silva como um dos personagens principais da história do Carnaval carioca que a própria agremiação contava na Avenida. 

O Jornal do Brasil estampou, no Caderno B da edição de 4 de março de 1965, o retorno de Isabel com sua nova fantasia para interpretar a famosa negra do arraial do Tijuco. “Isabel Valença voltou a ser o maior destaque da escola, apresentando uma nova fantasia de Chica da Silva, como sempre muito rica e sempre muito aplaudida”. Tinha sido um deslumbre, em mais uma repercussão imensurável. 

Ao comentar a apresentação da vermelho e branco naquele ano, o mesmo jornal, em 28/06/1965, também afirmou que se tratava de um “grande tema, embora difícil de ser executado”, e destacou as fantasias luxuosas e alegorias espetaculares e do maior bom gosto, com destaque para mensagens que serão impressas e jogadas para o público. Afirmava ainda que “as burrinhas causaram grande impacto e Isabel voltou a ser o grande destaque”. A bateria era um ponto de incógnita na análise do periódico, que destacou a Mangueira e o Império Serrano como as melhores escolas. 

Conquistando o título daquele ano com uma apresentação elogiada, o Salgueiro consolidou definitivamente sua atuação como escola transformadora da década e revolucionária na transformação das agremiações carnavalescas em um processo de massificação e espetacularização. Com isso, laureou-se Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues como dois dos nomes mais importantes no processo de mudança das escolas de samba e da concepção da linguagem visual e da estética vigentes até hoje, além de valorizar a atuação de dançarinos e músicos que também tiveram sua contribuição para tantas inovações. O Salgueiro não só contava como também escrevia a História do Carnaval Carioca.