Reflexões – A Contemporaneidade de Eneida 

Por Felipe Ferreira*

O pierrô está de volta! Arte de Lucas Milato.

 

Não tenho a pretensão de apresentar, neste livro, uma história completa do carnaval carioca;  para realizá-la seria necessário o trabalho não apenas de uma pessoa, mas de toda uma equipe que, dividindo tarefas, estudasse as várias facetas, os mais diversos elementos que se reuniram para tornar nosso carnaval o mais alegre e vibrante do mundo de hoje. (Eneida)

É com essas palavras que Eneida de Moraes, ou simplesmente Eneida, inicia sua História do carnaval carioca, primeiro livro abordando exclusivamente o tema carnavalesco publicado no Brasil, em 1958, e, não por acaso, dedicado à folia do Rio de Janeiro, cidade adotada pela jornalista e escritora paraense aos 26 anos de idade. Produto de onze meses de pesquisa, a obra, por seu pioneirismo e abrangência, tornar-se-ia uma referência incontornável não só pelo grande valor de seu conteúdo, mas também pelo inegável talento de sua autora ao lidar com a palavra escrita sendo, com toda justiça, louvada e citada inúmeras vezes a partir de seu lançamento. Menos de dez anos após a aparição do livro, a texto serviria de base para o enredo que o Salgueiro apresentou no Carnaval de 1965, na ocasião do quarto centenário do Rio de Janeiro, sob a batuta de Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, provando sua importância e repercutindo a pesquisa da autora para um público ainda maior.

É possível imaginar-se que, prevendo o grande sucesso da publicação e consciente de que boa parte dele seria decorrente de seu ineditismo, Eneida tenha decidido que suas primeiras palavras fossem uma espécie de advertência à posteridade. Com elas, a jornalista procurava deixar claro que o livro, como toda obra seminal, deveria ser abordado como um primeiro passo, uma perspectiva inicial sobre o tema. Boa jornalista que era, Eneida havia recolhido histórias, relatos, depoimentos e reportagens provenientes de diferentes fontes e reunido todas as informações num texto capaz de atrair a atenção e o desejo dos leitores para futuros aprofundamentos das diferentes narrativas por ela propostas.

Por ser uma intelectual atenta aos conceitos em voga na sua época, Eneida construiu uma história que dialogava com a ideia de preservação da cultura popular frente aquilo que se apresentava, então, nos anos 1950, como uma espécie de invasão incontrolável das forças da globalização. Para evitar a descaracterização de uma cultura “surgida nas camadas populares” – considerada, na época, como algo frágil e puro – parecia, então, necessário estabelecer, entre outras atitudes, uma espécie de sequência histórica que ancorasse cada criação “do povo” numa linha evolutiva independente, estabelecendo narrativas que buscassem as origens e as individualizações de cada uma das manifestações carnavalescas. Ranchos, blocos e cordões, por exemplo, eram vistos isoladamente, como resultados de histórias próprias, que não dialogavam entre si.

Obedecendo a essa lógica, o livro estabelece uma sequência temporal evolutiva e linear para a festa, destacando sua origem remota, ou seja, um lugar e um tempo de onde teria partido a “semente” da qual “germinaram” as manifestações carnavalescas, tais como galhos brotando a partir de um tronco inicial. No caso do Carnaval brasileiro, este ponto de origem teria sido o chamado entrudo, descrito como uma festa herdeira dos ritos greco-romanos e criticado, no século XIX, como “porco e brutal” em sua manifestação nacional. A partir desse ponto, vão se sucedendo os capítulos, em ordem cronológica, sugerindo a “chegada” ou o “surgimento” das diferentes brincadeiras carnavalescas com destaque para os bailes, o zé pereira, as sociedades, as máscaras e fantasias, o Carnaval de rua, os cordões, os ranchos, os blocos e o corso. Cada uma dessas manifestações é abordada em sua inteireza, como uma unidade isolada, com origens e histórias particulares e únicas, sendo dado grande destaque para as sociedades, descritas com profusão de detalhes. A partir desse ponto, os capítulos do livro tratam de temas diversos e curiosos, ao estilo jornalístico dominado com maestria pela autora, abordando casos, dados e fatos variados ligados às músicas carnavalescas, aos amigos e inimigos do Carnaval (a imprensa e o comércio no primeiro caso e a chuva, a polícia e os saudosistas no segundo), à linguagem, aos anúncios, à licenciosidade e às artes relacionados à festa carnavalesca. Esse caráter evolucionista é refletido no desenvolvimento do enredo desenvolvido por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues para o Salgueiro em 1965, ao seguir uma linha do tempo que busca dar coerência e sequência às manifestações populares apresentadas no desfile.

É importante destacar, entretanto, que a estrutura narrativa do livro, aparentemente simples e natural, é produto de uma forma particular de pensar o mundo e de compreender a cultura popular. Ela estabelece uma espécie de evolução, de caminho “natural” para frente e para cima, das brincadeiras carnavalescas, sugerindo, primeiramente, que cada uma dessas “etapas” é causa da etapa seguinte e consequência da anterior, replicando o pensamento evolucionista ainda dominante. Outra consequência dessa estrutura discursiva é a ideia de que a cultura popular, aí incluídas as brincadeiras de Carnaval, seria formada de manifestações isoladas umas das outras, não dialogando entre si e nem com as múltiplas influências externas à narrativa carnavalesca. Ignoram-se, ou minimizam-se, desse modo, questões ligadas à política, às tensões sociais, à economia, ao turismo e à psicologia, entre tantas outras. Muitas dessas questões, além de desprezadas, eram consideradas fatores de desagregação que precisavam ser alienados das manifestações “do povo”. Estas deveriam “resistir” às “más influências” para se manterem vivas, imaculadas, puras e verdadeiramente populares.

É claro que nada disso fez parte do projeto de Eneida ao escrever seu livro que, repito, reflete o pensamento intelectual da época em que foi produzido e editado. Esta aderência a sua contemporaneidade é, inclusive, um dos grandes valores da obra que, como toda produção intelectual de qualidade, incorpora as questões de seu tempo. O que procuramos questionar, na presente discussão, não é a obra da jornalista, mas a forma como ela é lida atualmente.

Durante algumas décadas, o livro História do carnaval carioca foi a única fonte de informações sobre o Carnaval, tornando-se uma verdadeira “bíblia” para todo pesquisador ou leitor amante da festa. Com isso, a perspectiva da pesquisa proposta por Eneida deixava de ser uma primeira abordagem do tema, como queria a autora, para se estabelecer como uma espécie de palavra final e incontestável da “verdade” carnavalesca. Aquilo que era uma visão pessoal da jornalista fixou-se, a partir da difusão do livro, como o paradigma das narrativas sobre a folia carioca (e brasileira!), fato que excluía e tornava desnecessário qualquer tipo de atualização do tema; com uma única exceção, a inclusão de um capítulo sobre as escolas de samba na reedição da obra, em 1987, escrito por Haroldo Costa. Destaque-se que, apesar das escolas já terem atingido um considerado grau de reconhecimento em finais da década de 1950, quando a obra original foi escrita, estas não ocuparam mais do que oito páginas da primeira edição, detalhe que reforça o caráter pessoal na organização dos capítulos do livro em sua primeira versão.

O fato é que os escritos de Eneida se tornaram a fonte principal de praticamente tudo que se publicou sobre o Carnaval carioca durante a quase totalidade do século XX, servindo não só de inspiração, mas também de justificativa para a estruturação de um pensamento carnavalesco que se recusava (e ainda se recusa em alguns casos) a incorporar uma visão mais contemporânea da cultura popular. Citações de trechos e capítulos inteiros da obra de Eneida e reafirmações acríticas da estrutura evolucionista do livro deram respaldo a argumentações “definitivas” sobre o caráter monolítico das manifestações carnavalescas do passado, criando, para a festa brasileira, uma história imóvel e impermeável a questionamentos. Em suma, repetir o que Eneida sugeriu em seu trabalho tornava-se garantia de concordância e acolhimento dentro das regras constantemente reafirmadas para os estudos sobre Carnaval.

A tendência começou a ser revertida na última década do século XX, com a ampliação do interesse acadêmico pelo tema carnavalesco, movimento marcado pela publicação de textos oriundos de pesquisas realizadas em centros universitários de excelência como UFRGS, USP, Unicamp, UFRJ, UFF e UERJ, com destaque para as áreas de Antropologia, História Social, Letras, Comunicação, Geografia Cultural, Artes, História da Arte e Memória Social. O Carnaval ampliava suas perspectivas a partir, sem dúvida, da inestimável contribuição de Eneida, incorporando, entretanto, novas bases teóricas que enriqueceriam a importância da festa carnavalesca para a discussão do Brasil e de sua complexidade cultural. É esta abertura para novos horizontes epistemológicos que explica a explosão de monografias, dissertações, teses e publicações abordando o tema carnavalesco e suas consequências nas redes digitais e na própria produção visual e narrativa para escolas de samba.

Nunca é pouco reafirmar a importância de Eneida para os estudos do Carnaval no Brasil. Sua perspicácia, seu investimento na pesquisa, sua capacidade de organizar as informações numa narrativa clara dentro de uma perspectiva teórica que refletia as questões que lhe eram contemporâneas, são contribuições inestimáveis para quem quer que se interesse por abordar nossa grande festa popular. Honrar o trabalho e a herança da autora, entretanto, não é simplesmente reproduzir acriticamente seu pensamento, mas impregnar-se de sua obra para, a partir dela, elaborar novos olhares sobre o Carnaval que ela tanto amou e respeitou. Eneida sempre soube disso e esta é a razão pela qual ela fez questão de iniciar seu livro com a citação que abre o presente artigo. Pela mesma razão, deixo para Eneida as palavras que concluem nosso texto e que constituem o parágrafo final do prefácio de seu livro. Elas mostram, com extrema clareza, a contemporaneidade da escritora ao reconhecer, em seu trabalho, uma porta aberta para as futuras gerações de pesquisadores de Carnaval:

Não tenho a pretensão de apresentar uma história completa do carnaval carioca; tão rica ela é de  acontecimentos, tão bela, tão fabulosa que este livro quer ser apenas o primeiro, o mais modesto, o mais simples na certeza de que depois dele outros virão, mais belos, mais completos. (Eneida)

*Felipe Ferreira é Professor dos Programas de Pós-graduação em Artes e em História da Arte (PPGARTES/PPGHA) do Instituto de Artes da Uerj, Doutor em Geografia (PPGG/UFRJ), com Pós-doutorado em Letras (Paris III-Sorbonne Nouvelle), Mestre em Artes (PPGAV-UFRJ) e Bacharel em Artes Cênicas (Eba/UFRJ), criador do Centro de Referência do Carnaval-Uerj e Líder do Laboratório da Arte Carnavalesca-CNPq, membro do corpo de jurados do prêmio Estandarte de Ouro e autor de diversos livros sobre o tema carnavalesco, entre eles O livro de ouro do carnaval e Inventando carnavais.