Paula do salgueiro

Por Felipe Tinoco

Paula do Salgueiro. (Arte de Mülambo)

Se o amor é fundamento para a Revolução, no Salgueiro, ele também é elemento constituinte. Os apaixonados pela Academia do Samba por aí afora se enamoram de sua escola e exaltam o sentimento de cor vermelha, apaixonados. A personagem aqui comentada, pelos cruzamentos originários desse período salgueirense, teve no amor, vejam só, a motivação para mergulhar dentro do universo do samba… mas de uma forma peculiar.

Após terminar um casamento, Paula da Silva Santos, pelos caminhos próximos da também Silva (Telles), encontrou na plenitude e no bem à alma, externalidades do samba, a possibilidade de conforto após desencontros amorosos particulares. Coração cuidado com a nova paixão acordada, havia espaço para uma relação poligâmica quando se tratava de escola de samba. Descoberta dançando durante uma apresentação do Salgueiro por diretores da escola, em plena praça Saenz Peña, polo de encontro tijucano, foi convidada para o Salgueiro e aprumou-se de azul e branco quando pisou em território branco e encarnado pela primeira vez. A escolha dos tons teve causa e consequência; respectivamente, eram as cores da Combinado do Amor, escola de samba de Niterói que contava com a torcida da ilustre, e foram suficientes para ter implicâncias fortes de outras componentes, que quase chegaram às vias de fato. 

Paula, no entanto, foi conquistando seu espaço e já desfilou no Salgueiro em 1954, no ano em que se tem o primeiro registro de apresentação da agremiação após a junção de Unidos do Salgueiro, Azul e Branco e Depois Eu Digo. Não demorou muito para assumir papéis de destaque não apenas por seu gingado, como também para a narrativa e a comercialização dos desfiles. Em 1960, após o pálio de Maracatu, Paula desfilou em meio às baianas e foi “considerada uma das atrações dos desfiles” pelo Jornal do Brasil. No mesmo ano, também se vestiu de baiana – na estética definida pela imagem de Carmen Miranda – da Coca-Cola, quando a marca patrocinou um campeonato paralelo entre as escolas de samba. Em 1960, na quarta edição dos desfiles carnavalescos patrocinados pela marca de refrigerantes, Paula foi o rosto principal dos anúncios do evento. Em um momento em que as agremiações estavam sendo imersas no cenário cultural e midiático do Rio de Janeiro e do país, além da verticalização de alegorias e adereços e da ocupação de outras ruas do Centro para que os desfiles pudessem aumentar, também foi necessário o investimento em elementos simbólicos que representassem aquele espetáculo.

Paula em campanha para a Coca-Cola em 1960.

Dos signos fundamentais para a construção do que se conhece como escolas de sambas, o Salgueiro foi o responsável por vários despontados no período. Em todo o Carnaval, porém, poucos possuíram a potência que Paula tinha em atrair o foco da apresentação para si, em um engajamento primeiramente orgânico. A simpatia e os passos da bailarina talentosa fizeram dela o momento esperado em todos os anos, corroborando periodicamente para a construção de sua figura vinculada à construção da imagem do próprio Carnaval. A mídia, tão fundamental para a construção desses signos, apostava nas fotos de Paula para ilustração dos desfiles. Em 1964, no enredo sobre Chico Rei, ela representou as riquezas do homenageado e, no ano seguinte, desfilou de Tia Ciata. Suas representações e seu sucesso dentro e fora das avenidas fizeram Paula participar de apresentações internacionais em diferentes companhias que determinaram o rumo da dança no país. Ela participou dos expressivos grupos folclóricos de Mercedes Baptista e de Solano Trindade, além de também ter dançado no Brasiliana, coletivo comandado por Haroldo Costa. Antes do Carnaval, Paula exercia a profissão de doméstica, até que começou a fazer figuração em teatro, trabalhou como aderecista e, durante muitos anos, foi modelo vivo na Escola de Belas Artes (EBA), no Rio de Janeiro. 

Paula ganhou o Salgueiro para seu sobrenome, embora tenha perambulado por outros amores. Participou do período de fundação da Tradição, escola dissidente da Portela, durante a década de 1980. Por três anos defendeu o pavilhão da escola, ainda que sofresse com dificuldades para realizar o pagamento da fantasia. Entre a escolha de ter um teto para morar e conseguir bancar o figurino, o Carnaval foi preterido, em mais um momento de desvalorização dos artistas pretos que dedicam sua vida ao samba e às agremiações e não conseguem viver de forma plena apenas com seu ofício. Paula também foi incentivada a se aposentar devido aos cruzamentos de saúde, enquanto suas articulações sofriam de artrose. 

Antes disso, Narcisa, futura rainha do Salgueiro, teve nela inspiração e professora para o encanto por intermédio do samba, enquanto Di Cavalcanti, pintor modernista, teve nela uma musa, como lembram Bárbara Pereira em sua tese em Memória Social e José Carlos Rêgo no livro “Dança do samba, exercício de prazer”. Em 1973, a Revista Manchete projetava louros, defendendo que “Paula do Salgueiro não é destaque apenas de sua escola. Ela é mais do que isso, porque simboliza o Carnaval e em sentido mais largo o próprio espírito do povo carioca”. Transformada em ícone, Paula se confundia com o Salgueiro, com o Carnaval e com o Rio, tal qual os mais históricos salgueirenses. Para a mesma revista, “Paula e o Salgueiro, o samba e o Rio, unidos num ritmo de cor e de som, alma aberta à alegria, corpo-oferenda ao amor”.

Se a mídia possui papel fundamental para a pesquisa documental e para análise histórica dos anos que se passaram, os jornais também criam as perspectivas e selecionam os olhares dados para a cobertura das escolas de samba. No centro das atenções, Paula não demonstrava uma obviedade em sua arte. Afetando ao público e, de acordo com os relatos, exalando carisma, foi além do que se compreenderia como destaque pela incansável energia. Sua movimentação dinâmica na pista, cheia de gingado, demonstrou evidente domínio corporal e espaço de autoridade dentro da cena constituída pelos desfiles das escolas de samba. Paula não sambava, como consta nos livros e como se compreende o que são hoje os passos característicos dessa dança. Entretanto, talvez por uma elitização artística e o preconceito com o samba, nossa personagem não estaria no entendimento de bailarina para  aqueles que construíam a história da época. Outra nomenclatura era necessária para se referir à Paula, personagem decodificada de forma não óbvia.

Independente das motivações, que devem ser investigadas e assimiladas, o resultado dessa nomenclatura só engradeceu a artista e a eternizou na história das escolas de samba, manifestação artística e cultural de contribuição incalculável ao país. A princípio, chamou-se Paula de malabarista. Logo depois, um termo foi cunhado unicamente para se designar a guerreira, e nele são carregados significados e simbologias os quais perpassam sua figura. A cada momento em que uma de suas iguais risca o chão e os ares da avenida, em pernas e braços, e se entrega ao palco por meio de suas estruturas ósseas – e amorosas – movidas pelo samba, há um quê dela ali. 

Paula era… passista. Palavra cheia de orgulho, criada para uma mulher do Salgueiro.