Texto curatorial – bloco 3

Por Leonardo Antan, Alice da Palma e Ana Elisa Lidizia

Depois de um período glorioso, como seguiria a Revolução Salgueirense na segunda metade da década de 1960?

Após resgatar personagens até então não-oficiais da nossa história, a vermelho e branco seguiu inovando e movimentando o carnaval. O período de 1965 a 1968 marcou a volta de Fernando Pamplona à escola, que apostou num visual mais singelo e, assim, conquistou mais um título na folia. A aposta do primeiro ano foi em um ano temático sobre os 400 anos do Rio de Janeiro com um enredo metalinguístico que homenageou a História do Carnaval Carioca, baseado no livro seminal lançado por Eneida de Moraes. Mais do que simples autora da obra, Eneida é personagem importante dessa Revolução Salgueirense, assim, sua figura aparece ressignificada pelo olhar de Jorge Silveira e Lucas Milato, além do enredo sobre a escritora realizado por Edu Gonçalves no Paraíso do Tuiuti em 2010. Eneida ficou conhecida como o “Pierrô”, e esses personagens tão característicos do carnaval são reinterpretados não só na sua figura, mas nos traços de Rafael Gonçalves que funde esses personagens à decoração de rua num interessante jogo de abstração.

O olhar autobiográfico do Salgueiro sobre sua história traça, nesta mostra, um segundo eixo metalinguístico, através de imagens do desfile da Alvirrubra de 2003, quando ela comemorou seus cinquenta anos. De fora das agremiações, somam-se aqui os olhares de Carlos Vergara e Herbert de Paz, reunindo blocos, cucumbis e procissões que dialogam com as manifestações definidas por Eneida em sua pesquisa, apresentada pelo Salgueiro em 1965.

Após um ano de hiato, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues retornam ao carnaval. Em 1967, narram a luta do povo brasileiro pela liberdade, em suas mais diversas formas: liberdade do jugo colonial, liberdade do sistema escravocrata; trazendo para o cortejo as revoltas e rebeliões que marcaram nossa História. Liberdade que, à época do desfile, estava escassa no país, que vivia sob um regime militar ditatorial. O enredo nos lembra dos mascastes, emboabas e alfaiates que se rebelaram, dos homens e mulheres escravizados que fugiram dos grilhões e criaram a nação Palmares, do inconfidente Tiradentes, do Fico e das margens do Ipiranga, da lei Áurea e da República. Nesse sentido, o artista Yhuri Cruz nos lembra de Anastácia, mulher preta escravizada que ousou dizer não ao senhor branco, que ousou rebelar-se contra a violência de seu corpo. Seu castigo foi a Máscara de Flandres que a amordaçou (com ferro e cadeado), impedindo todo e qualquer acesso à boca e, assim, à fala. Aqui, no Monumento à voz de Anastácia (Anastácia Livre) de Yhuri, a ela é devolvida sua boca e sua liberdade. Face às grandes revoltas narradas no enredo, a história de Anastácia representa as milhares de insurreições individuais presentes nos pequenos e corajosos gestos – como o “não” dito por Anastácia – , o microcosmo da História, tão frequentemente esquecido e apagado. Rogai por nós, Santa Anastácia Livre, que fala e intercede por “quem luta por dignidade”.

E a luta por liberdade e dignidade não acabou. O que esse enredo diz sobre o carnaval do nosso tempo?

Em dois desfiles recentes e de grande repercussão na festa, a Paraíso do Tuiuti – no cortejo concebido por Jack Vasconcelos em 2018 – e Estação Primeira de Mangueira – na criação de Leandro Vieira em 2019 – fizeram ecoar essas histórias esquecidas da História com “h” maiúsculo. Narrativas potentes de liberdades não esquecidas e reivindicadas até hoje. A visão crítica da assinatura da Lei Áurea proposta pela azul e amarela traz uma leitura decolonial a um enredo (o do Salgueiro) que ainda dialogava com uma visão oficial. Revisão historiográfica que é exatamente o motor da apresentação campeã da verde e rosa, que traz nos versos de seu samba “o sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado”. O enredo de Leandro é uma síntese máxima do que as narrativas salgueirenses fizeram por mais de uma década, recuperando personagens (negros, indígenas e mulheres) e visões das histórias menos canônicas. Cruzamentos que mostram tanto a atualidade daquelas narrativas, quanto seus anacronismos aos olhos contemporâneos.

É esse contato entre essas propostas carnavalescas, separadas por mais de cinquenta anos, que movem este núcleo expositivo. Um olhar do próprio carnaval para aquelas narrativas. Assim, somam-se croquis e protótipos das fantasias dos enredos a propostas de Clebson Prates (Revolta Malê) e Roberto Monteiro (Entitas 3), além do olhar sensível do fotógrafo Wigder Frota sobre essas apresentações.

Os dois desfile recentes se colocam ainda na linha crítica proposta por Hal Wildson, na série República da Desigualdade – Meritocracia seja Louvada, que faz ecoar as rachaduras de um sistema em que a emancipação não chegou para todos, e que ainda traz em si os reflexos do colonialismo, reproduzindo uma lógica perversa de desigualdade justificada numa meritocracia ilusória. Lógica que questiona a todo tempo e põe em xeque os direitos e a vida de quem é visto como subalterno. Daí hoje – a exemplo do que acontecia também quando o enredo salgueirense cruzou a avenida – constatarmos os constantes ataques aos direitos dos povos indígenas, às leis trabalhistas, aos avanços sociais do movimento preto e do movimento feminista.

No ano de 1968, a escola decide contar a vida de Ana Jacinta de São José, mais conhecida por Dona Beja, personalidade do interior de Minas Gerais do século XIX que ficou famosa por sua beleza e por seu bordel, a Chácara do Jatobá. Ana, jovem de grande formosura, é raptada pelo ouvidor do Rei, que a força a se tornar sua amante. Dois anos depois, ele é convocado à capital, deixando-a. Ela, então, retorna à sua Araxá, onde é vista pela sociedade conservadora da cidade não como vítima, mas como mulher sedutora e perigosa. Decide abrir, com o dinheiro acumulado nos dois anos com o ouvidor, seu bordel, onde dormia apenas com os homens que queria. Sua história vai muito além de seus encantos pessoais, fala da condição da mulher e da violência a que corpos femininos estão sujeitos; mas fala também da possibilidade de sobrevivência e tomada de poder, uma virada de mesa, ainda que no âmbito individual: aquela que, raptada, não teve escolha, é agora quem decide e traça seu destino. A potência dessa história tem sua releitura nos traços de Alexia Barbosa (@colagemnegra) e Isadora Daurízio (@colagemruim). No carnaval, a história de Ana Jacinta foi recontada pela Beija-Flor em 1999, que homenageava a cidade de Araxá – aqui, no registro de Wigder Frota -; e ganha nova visão pelo olhar da folia no projeto alegórico de Ricardo Hessez.