Reflexões – revolução, palavra feminina

Por Luise Campos

Se, por um lado, a intensa década de 1960 no Brasil ficou marcada, poucos anos depois de seu início, pela chegada de nuvens cinzentas, sob as quais foi vivida uma duradoura interdição de direitos civis, por outra parte, ela assistiria a uma efervescente movimentação no campo da cultura. A tacanhez geralmente não consegue aprisionar ideias e a vida, em alta bandeira de resistência, seguiu pulsando em confronto direto com morte pelo silenciamento. Espíritos livres continuaram em sua missão de transformar o mundo e, em uma das maiores invenções do gênio humano, as escolas de samba – em uma, em particular – deram-se ares de revolução. 

O mundo assistia a alterações sociais de toda ordem. Para as mulheres, novos horizontes surgiam. Livros como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, eram publicados. A chegada da pílula anticoncepcional representava uma possibilidade de liberdade sexual para a mulher jamais antes pensada. Em consequência da necessidade de mão de obra causada pela ida dos homens à Segunda Guerra, abria-se espaço para elas no mercado de trabalho. Se bem que, em terras brasileiras, essa história ganha seus contornos particulares: mulheres negras ex-escravizadas e suas descendentes aprenderam desde cedo a lutar por seu sustento e, principalmente, por seu espaço. Tanto é assim que, na trajetória das agremiações carnavalescas, elas sempre estiveram lá, desde seu surgimento.

Mas foi somente por volta dos anos 1960 que as escolas de samba começavam a ganhar protagonismo entre os festejos de Momo, com seus desfiles se transformando em grandes eventos. Nesse contexto, o Salgueiro começava a ganhar notoriedade, afirmando sua vocação para a grandeza. Para isso, contribuíram administradores visionários, artistas geniais, personalidades marcantes e, conforme esse texto vem destacar, mulheres revolucionárias. Para que não se esqueça que o torrão amou e foi amado por elas, que estiveram na linha de frente desse capítulo histórico.

Jorge Silveira, Marie Louise Nery, 2020.

A primeira de que lembramos nesse texto, por capricho do destino, veio de longe para fazer história no Rio de Janeiro. Marie Louise Nery nasceu em Berna, na Suíça, no ano de 1924. Chegou ao Brasil aos 33 anos com duas paixões dentro do peito: o marido Dirceu Nery e a arte deste país. Figurinista e cenógrafa, logo começou a participar ativamente do cenário cultural brasileiro e, em 1959, apenas dois anos após sua chegada ao Brasil, já estava subindo o morro do Salgueiro para construir figurinos junto às costureiras locais. É que havia sido convidada pelo astuto Nelson de Andrade para responder, em parceria com seu companheiro Dirceu, pela criação estética do enredo do Salgueiro daquele ano, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Depois disso, ao lado de Fernando Pamplona, trabalhou também na elaboração do desfile de 1961.

Esse “casamento”, aliás, deu um fruto: Rosa Magalhães, que foi aluna dos dois, dez anos mais tarde, daria seus primeiros passos no mundo do Carnaval no Salgueiro, ao lado de um time que se compunha ainda, entre outros, por Maria Augusta e Lícia Lacerda, que representam, infelizmente, poucos dos nomes femininos que receberam o título de carnavalescas em escolas de samba. Quanto a Marie Louise, podemos imaginar o que significou uma estrangeira em diversos sentidos adentrar um mundo em que, até então, não era comum o trânsito de mulheres. Se ser mulher pode significar se sentir forasteira em determinados ambientes, não é difícil calcular os desafios que nossa personagem, brilhantemente, enfrentou. Seu legado, se fosse apenas esse, já seria enorme. Mas ainda devemos agradecê-la por abrir espaço para as outras que seguiram seus passos. 

Jorge Silveira, Revolução Isabel, 2020.

Mas voltemos para o início da década para falar daquela que, talvez, tenha se transformado na representante feminina mais simbólica da Revolução Salgueirense: Isabel Valença. Esposa do presidente Osmar Valença, fez história ao representar Xica da Silva na Avenida em 1963, com uma fantasia tão opulenta que se tornou inesquecível, transformando-a em personalidade famosa para além da quarta-feira de cinzas.

Em 1964, num passo ainda mais ousado, Isabel teve sua inscrição negada quando resolveu participar do concurso de fantasias do Theatro Municipal, lugar nunca antes reivindicado por alguém ligado à manifestação popular de sambistas negros do morro. A alegação era a de que não seriam permitidas indumentárias de escolas de samba no certame. Como não existia dita restrição no regulamento, logo se aventou se tratar de um caso discriminação racial, o que tomou grande proporção na mídia. No fim das contas, voltou-se atrás da decisão e a Rainha Rita de Vila Rica, sua personagem no desfile do Salgueiro daquele ano, não só concorreu, como saiu vencedora – e ovacionada. Esse feito, extremamente eloquente, causou tal impressão entre os moradores do morro do Salgueiro que ela se tornou símbolo de representatividade. Afinal, as portas da alta sociedade haviam sido abertas a uma mulher negra, que, além de tudo, superou as candidatas da elite. Não havia limites para o poder de Isabel e para a força de sua personalidade.

Isabel Valença encarnou ainda diversas outras mulheres poderosas na Avenida. Num fenômeno quase espiritual, ela parecia se vestir da essência das personagens que representava, potencializando sua própria luz e poder. Se foi assim com Xica, com quem viveu em verdadeira simbiose, aconteceu o mesmo com a ousada Ana Jacintha de São José, no enredo Dona Beija, a feiticeira de Araxá, que citamos como exemplo para ressaltar um fato interessante. Além de ter, como as aqui elencadas, mulheres fortes em sua trajetória, o Salgueiro as levou também para suas narrativas. Foram muitos os enredos que contaram a história de personagens femininas. Para mencionar mais um, basta lembrar de “Eneida, amor e fantasia”, de 1973, em homenagem à fundamental jornalista apaixonada pelo Carnaval, falecida poucos anos antes. Se as escolas de samba têm a prerrogativa de trazer à tona e eternizar aquilo que escolhem a cada ano para contar, nada mais justo do que assinalar que, em suas páginas, vidas de mulheres ganharam espaço fundamental. Não se esperaria menos de uma escola diferente.

Mercedes Baptista no desfile do Salgueiro em 1964.

A vocação para a inovação também se mostrou por meio da dança. Foi na Academia do Samba que a primeira bailarina negra do Theatro Municipal, Mercedes Baptista, fez história com uma proposta que tanto encantou o público quanto escandalizou a crítica que assistia ao desfile do ano de 1963. Mas tudo isso aconteceu sem que ela abaixasse a cabeça ou se intimidasse. Como é típico das que vieram para deixar seu legado, tinha sempre uma resposta. “Acho isso um absurdo. Sempre fiz um trabalho sério no Salgueiro. Faço folclore mesmo. Na época de Xica da Silva, quando adaptei um minueto ao ritmo do samba, fizeram a maior onda. Mas nós ganhamos o Carnaval”, declara Mercedes, que não só ganhou o Carnaval, como ganhou as páginas de jornais vida afora, como nessa reportagem sobre ela do Correio da Manhã de 7 de janeiro de 1970, quando já havia deixado seu legado na agremiação, após uma trajetória de 8 anos como coreógrafa. Ganhou também o mundo, em turnês internacionais; com seu balé, ganhou fama em teatro e televisão.

Porém, esse sucesso teve a triste companhia do preconceito: não raro ela era despejada dos lugares onde dava aulas. “Uma vez chamaram até a polícia, dizendo que eu estava fazendo sessão de macumba”. Olhando para os dias atuais, são inúmeras as coreógrafas que têm seu espaço garantido nas mais distintas agremiações do Carnaval do Brasil inteiro, inventando seus números e lançando mão, inclusive e quase sempre, do que convencionou se chamar de dança afro. No Salgueiro, tiveram brilhantes passagens Beth Bejani, Renata Monnier e tantas mais, singularizando esse espetáculo que sempre se renova. Renovação que nunca conseguiu descaracterizar os passos do samba, uma das preocupações dos críticos de antigamente. 

Paula no desfile revolucionário do Salgueiro em 1960. (Revista O Cruzeiro)

E, na arte de sambar, ficou o legado de Paula do Salgueiro, passista que cunhou o termo e que se tornou verdadeira celebridade da época. Mulher que conquistou seu lugar no mundo por meio da dança, tinha sua presença anunciada em notas de jornais e revistas que noticiavam os ensaios da vermelha e branca na mídia, escola da moda nos anos 1960. Vitória da moça humilde, que deixou de ser empregada doméstica para brilhar nas páginas da história salgueirense. Nelas também há espaço para as Irmãs Marinho, três excepcionais dançarinas que desfilaram pela agremiação pela primeira vez em 1959, causando grande impacto. Permaneceram na escola por quase duas décadas e também ajudaram a moldar o que conhecemos hoje como a dança de uma passista, além de projetarem os festejos carnavalescos. E também para Narcisa, que começou a desfilar pelo Salgueiro aos 4 anos de idade e não parou até hoje. Já foi mascote da bateria, passista, ritmista, destaque, baiana… Mas fez história mesmo ao samba descalça com ao afasto quente o sol a pino no inesquecível “Bahia de todos os deuses”, de 1969. Quando jovem, ganhou destaque em páginas de revista com o jargão “sou muito mais eu”. E quem não é?

Assim, o Salgueiro seguiu sua trajetória de glórias para sempre marcado pela presença delas, inclusive em postos de liderança. Elisabete Nunes e Regina Celi são exemplos das que chegaram ao comando maior da agremiação, a presidência. E a trajetória de cada uma que aqui teve seu nome lembrado vem honrar a passagem daquelas das quais não se tem registro. Sabemos que são muitas e a cada uma eu, particularmente, agradeço por nos legar um mundo em que uma humilíssima representante pode ter sua voz ouvida para ecoar a de vocês. Ao enumerá-las, vemos o quão estavam presentes, cada qual em sua frente de batalha, navegando pelo curso do tempo sem saber que lhe mudava os rumos. Uma mulher sozinha é uma história de luta. Várias mulheres juntas são uma revolução. Nesse caso, salgueirense.