Reflexões – Os enredos negros no carnaval carioca

Por Mauro Cordeiro

Na década de 1960, algumas novidades marcariam o Carnaval carioca. Algumas das principais mudanças foram a construção das arquibancadas, a cobrança de ingressos, a transferência dos desfiles para a Avenida Presidente Vargas, a transmissão televisiva e a gravação dos sambas de enredo em disco. Estas ações denotam a importância da década na consolidação dos desfiles de escolas de samba como este grande espetáculo cultural e midiático em que ele, de fato, se transformou.

Além disso, a década também marca uma transformação estrutural definitiva na visualidade das escolas. A chamada revolução do Salgueiro, justamente celebrada por este nobre projeto, envolve uma série de personagens, debates, processos e questões. Tão amplos quanto controversos. Tão ricos quanto produtivos para compreensão de um fenômeno crucial para o desenvolvimento da festa. Seus sentidos ainda estão em disputa, tal qual o papel de alguns dos seus protagonistas. Já a importância histórica desse conjunto de desfiles é inquestionável.

Logicamente um conjunto de intervenções que passa a ser considerada uma revolução produz efeitos, consequências. Uma revolução transforma. Mas uma revolução também é obra de classificações, de construções e ideias sobre seus feitos, seu caráter e sua relevância. Na verdade, dizer que houve uma revolução não é apenas a constatação pura e simples de um processo histórico; conferir a um determinado processo o status de revolução é uma construção qualitativa acerca de determinados fatos, eventos e personagens e a atribuição de um sentido a eles. Quando se trata desta revolução duas características emergem no debate como sendo suas marcas em matéria de inovações: uma transformação estética e cenográfica no cortejo e a produção de narrativas negras ou de protagonismo negro. É sobre esta segunda “marca” que irei me deter nesta breve reflexão cujo objetivo é instigar o debate e provocar questionamentos.

No Carnaval de 2015, a São Clemente prestou uma homenagem a Fernando Pamplona, figura central do processo desencadeado pelo Salgueiro nos anos 1960. Um dos versos do samba dizia “exaltando o negro para o mundo inteiro cantar”, em um exemplo claro do quanto se associou ao carnavalesco e aos desfiles da escola naquela década o que seria uma novidade: a exaltação do negro.

Se é verdade que se consagrou na bibliografia o papel de primazia do Salgueiro e do seu conjunto de intervenções na estética da festa, também é verdade que se construiu, em paralelo, a concepção de que foi a partir dos enredos da escola na década de 1960 que o protagonismo negro chegaria à festa, ou seja, de que além de uma revolução estética, esta seria também uma revolução narrativa. 

Quando se afirma que, antes do Salgueiro, as escolas não produziam narrativas negras ou de protagonismo negro existem dois problemas repetidos, reafirmados e reproduzidos desde 1960: o primeiro é compreender o que é uma narrativa e quem pode narrar; o segundo, consequência deste primeiro, é o debate do que seria protagonismo negro.

Considero a ideia de que somente a partir de Pamplona, Arlindo, Nilton, Marie Louise e Dirceu, as escolas passam a construir narrativas negras é um equívoco brutal de concepção do que é uma narrativa. Pensar que a questão negra foi tematizada no Carnaval somente a partir da ação de sujeitos externos ao universo do samba e das escolas de samba, brancos e de classe média, legitimados pelos seus diplomas e saberes institucionalizados, é uma forma de negar aos sujeitos negros, majoritariamente pobres das escolas, a capacidade de construção de entendimentos e conhecimentos através da sua ação. É negar a capacidade de narrar.

Vejamos: se uma escola de samba constrói um enredo, produz um samba, se fantasia e desfila na Avenida, isto é uma narrativa, construída e encenada, produzida e realizada por negros e negras das escolas que se apropriam seja da história, seja da memória para construir discursos. E estes discursos, produzidos por sujeitos negros, são discursos negros. Narrativas negras, afrocentradas ou não. E as escolas de samba já produziam suas narrativas desde a década de 1930 através dos enredos que desenvolviam.

Gosto de pensar no Carnaval de 1948. Sessenta anos após a abolição, a temática racial deu o tom nos desfiles, talvez de forma ainda mais presente do que no Carnaval do centenário em 1988. Enquanto a Portela e a Cada Ano Sai Melhor prestaram homenagens a princesa com os enredos Exaltação à Redentora e Exaltação à Princesa Isabel, respectivamente, a Unidos da Tijuca com o seu Assinatura da Lei Áurea e a Unidos da Capela com Treze de Maio tematizaram a abolição em outros termos. 

Quando uma escola apresenta um enredo sobre a abolição da escravatura, ainda que louve a princesa Isabel, isto é uma narrativa negra; uma perspectiva, uma forma de entendimento. Mesmo que seja reproduzindo a historiografia oficial ao invés de valorizar as lutas de resistência, esta é uma narrativa produzida por sujeitos negros sobre a sua realidade, visto que a abolição é um evento central na história do negro brasileiro. 

Ainda no Carnaval de 1948, a Unidos de Vila Isabel, que acabaria não desfilando, propôs o enredo Tia Ciata, mãe do samba, no qual a figura desta mulher negra fundamental para afirmação do samba teria protagonismo. A Unidos do Santo Amaro, por sua vez, trouxe o enredo O negro e o samba, uma narrativa racializada sobre este sistema cultural e gênero musical que se converteu em símbolo de brasilidade.

O fato é que esses enredos, produzidos por esses sujeitos, na verdade, sequer eram entendidos como narrativas, visto que a esta comunidade negra e pobre não era concedido o direito de fala, o reconhecimento do seu poder discursivo e da sua capacidade de construção de conhecimento.

O desfile de escola de samba passa a ser entendido como produtor de um discurso, de conhecimento e entendimento, ou seja, como produtor de uma narrativa, a partir da presença material e simbólica de mediadores. É quando acadêmicos passam a construir a narrativa que as escolas de samba passam a ser entendidas como produtoras de discursos. Portanto, não é à toa que se atribui a presença de Pamplona no Salgueiro este ponto de virada em relação à temática negra no Carnaval. A verdade é que só a partir dele se analisaram os enredos das escolas como temas relevantes a serem compreendidos como narrativas. O que Pamplona e o Salgueiro dos anos 1960 de fato efetivaram foi a ideia de autoria no Carnaval. A partir da ação e da figura de Pamplona, desenvolveu-se a compreensão que um desfile de escola de samba é na realidade a execução de um projeto concebido e desenvolvido por um artista, único, em sua genialidade. Um autor, com voz própria e capacidade de narrar. 

O segundo ponto é que a ideia de protagonismo negro precisa ser entendida e debatida à exaustão. Consolidou-se uma visão de que só é narrativa de protagonismo negro no Carnaval aquelas que valorizam o negro como ator do processo de abolição em oposição à figura de Isabel redentora, por exemplo. Esta visão, que está em conexão e sintonia fina com os movimentos negros institucionalizados, é uma forma de entendimento de protagonismo negro. E dentro dela, faz sentido perceber porque “Palmares”, como desfile, seria um marco para construção desta ideia de revolução discursiva.

Agora, o erro de fundo dessas concepções é não entender que escola de samba é também movimento negro. O que existem são movimentos negros, no plural, e eles são distintos em forma e conteúdo. Quando falamos da história de protagonismo negro no Brasil, nós temos várias maneiras possíveis de abordagem. Podemos, evidentemente, pensar nos quilombos, na importância de Zumbi, esse líder inconteste. Mas nós também podemos – na verdade, precisamos – pensar no samba. O samba como uma forma de protagonismo negro, como uma forma de luta dos negros e negras no Brasil. E as escolas de samba, desde que surgiram, estão cantando e contando a história do samba porque ela é uma história de protagonismo negro do qual elas não apenas sabem, mas fazem e são parte. 

O próprio Salgueiro, em 1955, ao ter como enredo “Epopeia do Samba”, estava produzindo uma narrativa negra e de protagonismo negro visto que o samba é um sistema cultural afrodiaspórico, parte fundamental da manutenção e da afirmação de valores, saberes e práticas negras no Brasil. A história do samba é uma história de protagonismo negro e são inúmeros os enredos, desde a oficialização dos desfiles, que tematizaram esta história neles. 

É evidente que os enredos salgueirenses da década de 1960 foram fundamentais para a consolidação e legitimação da temática negra na festa, sobretudo pelo seu sucesso. As vitórias, os títulos e a repercussão consolidaram as produções salgueirenses. Ao cantar as histórias de Xica e de Chico, ao cantar a Bahia e exaltar que os negros também tinham Rei, a escola atuou de forma determinante para o alargamento dos discursos e temas possíveis a serem apresentados naquele palco iluminado e foi exitosa.

O grande ponto é: enredos negros e de protagonismo negro já faziam parte da festa desde que ela surgiu. Ao se construir a ideia de que foi a partir do Salgueiro, nos anos 1960, que o negro passou a ser protagonista de sua própria história nos desfiles, o que há é uma negação da capacidade narrativas dos sujeitos negros que já produziam discursos no Carnaval desde a década de 1930 e, ao mesmo tempo, uma ideia exclusiva do que é protagonismo negro, negando ao próprio samba seu papel de importância na história de resistência afro-brasileira.