Reflexões – Um monumento ao samba no pé 

Por Bárbara Pereira

Paula no desfile revolucionário do Salgueiro em 1960. (Revista O Cruzeiro)

Paula era um monumento, uma expressão comum para definir as mulheres do seu tempo. Sua história com o samba começou quando ela tinha 20 anos, relativamente tarde, quando comparada com a das outras dançarinas da sua época. Os anos eram 1960 e foi nessa década que surgiu mais fortemente (não há na historiografia do samba quem teria cunhado a expressão nem a data precisa) o termo passista, que marca até hoje a trajetória da dança do samba das agremiações.  E foi a própria Paula quem ajudou a consolidar a definição de quem domina o chamado samba no pé, ao se apresentar nos carnavais do Rio de Janeiro.

Paula da Silva Campos nasceu no município de Cantagalo, interior do Estado do Rio de Janeiro, onde se acostumou a ver manifestações como o Caxambu e a Folia de Reis. Ainda na infância, no entanto, se mudou com toda a família – a mãe e nove irmãos – para o município de Niterói, em razão da morte do pai. Como muitas de suas companheiras de samba daquele período, trabalhar como empregada doméstica era a única alternativa para as mulheres negras. 

De acordo com os jornais da época, a cabrocha (expressão que denominava as mulheres que dançavam o samba antes dos anos 1960) começou a se destacar na década de 1940 numa pequena escola de Niterói chamada Combinado do Amor. Uma ironia, uma vez que foi por causa de uma desilusão amorosa que Paula caiu no samba. O jornalista Leonardo Bruno conta em seu livro Explode coração – Histórias do Salgueiro (2013) que, depois de um casamento que durara pouco mais de um ano, Paula buscou no samba no pé a cura para os males do desamor. Passou a frequentar o Morro do Salgueiro e ali ganhou o sobrenome da escola pela qual se tornaria reconhecida.

Vários dos seus passos não seriam vistos hoje com bons olhos por muitos coreógrafos de alas de passistas. Paula criava movimentos que remetiam à sua musa, Carmen Miranda. O pesquisador José Carlos Rego, que mapeou mais de 160 passos relacionados ao ato de sambar, definiu os mais característicos da passista que ficaria eternamente relacionada à agremiação vermelha e branca: ziguezague, agachadinho e dizque, com fugas e contrafugas, movimentos semelhantes ao que fazia seu ícone da cultura brasileira da primeira metade do século XX, em quem também se inspirava para fazer seus figurinos.

O sucesso de Paula foi tanto que virou musa do pintor Di Cavalcanti e passou a fazer parte do balé folclórico de Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do Theatro Municipal, além de ter sido modelo para pintores e escultores na Escola Nacional de Belas Artes.

Paula viveu até o ano de 2001 e deixou inegáveis contribuições para a trajetória da arte de sambar. Uma manifestação que, ainda hoje, é cercada de estereótipos e pré-julgamentos, apesar de todo o empenho das passistas da sua geração e do legado que elas construíram. Dançar o samba é muito mais do que executar passos ou colocar um corpo em movimento. No ato de dançar, estão amalgamados ancestralidade, sociabilidade, saberes passados de geração para geração e a expressão de uma cultura eminentemente brasileira, que reúne um complexo de manifestações que envolvem o samba, especialmente o produzido na cidade do Rio de Janeiro. A chamada “dança no pé” que, como diz o Dossiê Matrizes do Samba do Rio de Janeiro (IPHAN, 2007), é muito mais do que um mero clichê, é uma expressão artística produzida por homens e mulheres, com histórias e trajetórias distintas, quase sempre desconhecidas pela sociedade.