Manoel Laurindo da Conceição, o “Neca da Baiana”

Por Beatriz Freire

Neca da Baiana. (Arte de Mülambo)

Manoel, Maneco, Neca. Durante o ano, dividia-se entre a função de carregador de gelo da Brahma e a de dono de uma das tantas tendas que preenchiam os caminhos do morro do Salgueiro. Lá, Neca da Baiana era conhecido não só pelos seus aproximados dois metros de altura – que não o deixavam passar despercebido -, mas pela presença como figura central dos debates cotidianos e irradiadores de saberes que circulavam pelo morro. Quando o assunto era samba, então, não tinha como dissociá-lo dos grandes frutos daquele chão. Isso porque o que não faltava a ele era conhecimento, tim-tim por tim-tim, sobre a liturgia própria de uma escola de samba, ainda mais quando ela carregava o nome de “Academia”. Se o alunado se formou, foi porque os professores manjavam do negócio como poucos.

Foi aí que Neca, um dos grandes partideiros daquela pedreira (valendo-nos da grande referência de João Gustavo Melo), tornou-se figura fundamental do cotidiano da favela e da escola que sintetizou tudo o que coexistia naquele lugar em branco e encarnado. O típico talento orgânico dos artistas que carregam em algum lugar da (in)consciência a fórmula perfeita do fazer – muitas vezes impossível de aprender com tanta precisão – já o colocava naturalmente em um cargo de respeito dentro dos batuques. Mas não era só.

Neca da Baiana vestido como Chico Rei, no desfile de 1964.

No jogo de influências que envolviam posições e cargos, Neca era sempre o homem de confiança – e uma espécie de liderança, por que não? – dentro dos núcleos que se formavam. Quando Osmar Valença chegou à escola com aplicação de grana, lá estava ele, como aliado do patrono-presidente, para ajudar a organizar as finanças. Ainda no mundo burocrático, ocupou importante cargo de membro do Conselho Fiscal da antiga Confederação Brasileira das Escolas de Samba. 

Mas era em meio ao baticum exportado do morro para toda a cidade que Neca exercia sua essência. Quando o Salgueiro entrou na Avenida para fazer história com o Quilombo dos Palmares, ele foi Zambi, o líder. No lendário desfile de Chico Rei, ele foi o próprio homenageado que foi trazido como escravizado do Congo para as Minas Gerais. Ao lado da esposa, Rainha Rita, interpretada por Isabel Valença, ele ganhou de Arlindo as vestes mais luxuosas do Salgueiro naquele ano de 1964, acompanhado de um séquito com mais de oitenta figuras. Anos mais tarde, quando o Salgueiro organizou a verdadeira “Festa para um rei negro”, Neca foi o Rei Manicongo, sentando sobre um trono ao lado de príncipes negros, mais uma vez servindo ao seu papel de majestade que ainda reina no quilombo vermelho e branco do Salgueiro.