max lopes

Por Marcelo Pires

Max Lopes (Arte de Jorge Silveira)

Quando comecei a pensar em um texto para essa breve biografia, não me saiu da cabeça que a maioria das pessoas de cara falaria: “o que o Max está fazendo em um trabalho sobre a revolução salgueirense se ele não foi carnavalesco da escola?”. Evidente que a resposta mais simples é falar que o Max é um grande torcedor da Academia e que participou daquela fase mágica salgueirense, mas sua representatividade é muito maior. Ainda que não tenha desfilado como carnavalesco do Salgueiro, aliás, Max foi carnavalesco da escola, com enredo escolhido, desenhado, projetado e arrumado pra sair, além de ocupar diferentes funções e segmentos. 

Nascido em Minas Gerais, Max veio ainda garoto para o Rio, sendo matriculado no Colégio Militar. Já interessado por samba, subia escondido o morro do Salgueiro para frequentar os ensaios da escola.  Em seu envolvimento com a dança, passou a desfilar na mítica ala do Ballet de Mercedes Batista ainda nos anos 1960. Max também se tornou um passista de destaque fazendo dupla com passistas como Roxinha, riscando as avenidas carnavalescas. Ele também desfilou em diversos anos como destaque do Salgueiro, notadamente no período entre 1968-1975.

Sempre muito interessado na folia e cada vez mais integrado à escola, criou uma das alas mais famosas do Salgueiro: a Ala Da Vovó, que é assim nomeada em homenagem às baianas da agremiação. Abro aqui uma observação: essa vivência profunda dentro dos processos dessas organizações desenvolve nele um respeito às parcelas fundamentais de uma Escola de Samba (baianas, bateria, velha guarda, mestre-sala e porta-bandeira…). A admiração de Max vai se refletir em seu trabalho, enquanto há uma preocupação destinada a vestir muito bem seus componentes ilustres e seus segmentos em todos os enredos. Pelas baianas que fez, foi premiado variadas vezes.

Sempre curioso e interessado, passou a frequentar o barracão da escola e a trabalhar como aderecista. O personagem, então, começou a se envolver com a turma que fazia Salgueiro na década de 1970, enquanto perambulavam Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Maria Augusta e outras estrelas. Em 76, ano que o Salgueiro perdeu toda essa turma que vai irrigar o carnaval carioca, ele é convidado a fazer seu primeiro trabalho como carnavalesco, pela Unidos de Lucas, com o enredo “Mar baiano em noite de gala”. Logo depois segue à Imperatriz, por onde fica por dois anos, até que tem seu sonho realizado. Visando os desfiles de 1980, foi chamado para fazer sua escola de coração. Nessa época, o Salgueiro passava por um dos seus momentos mais difíceis, com o desinteresse do presidente Osmar Valença, que, já sentindo seu ocaso, afasta-se da escola. Uma comissão de carnaval foi criada e então Max é convidado para realizar o carnaval. 

O carnavalesco propõe que o enredo seja sobre Lamartine Babo. “Lamartiníadas, Folia e Paixão” foi aceito pela escola de forma entusiasmada e logo se começa a trabalhar. Um grande evento foi feito na famosa casa noturna Sambão e Sinhá de propriedade de Oswaldo Sargentelli, sobrinho do compositor. Ao apresentar seus figurinos, Max conquistou de vez a escola. Todo o primeiro setor era em preto e branco, representando a infância de Lamartine. A sofisticação do desenho agradou em cheio. Até hoje se há memória acerca da comissão de frente que viria em bicicletas antigas com os componentes vestidos com roupas da Bela Época, dos destaques incríveis desenhados e da forma didática que o enredo seria apresentado. As composições foram apresentadas e o concurso de samba seguiu ate que restassem 4 concorrentes. 

Tudo corria ordenadamente até que a escola que é diferente faz jus ao seu lema. Osmar Valença resolveu reassumir a agremiação, trocando de enredo e de carnavalesco. De uma hora para outra, o Salgueiro muda tudo e apresenta o enredo “No bailar do vento relampejou mas não choveu”. O tempo foi tão escasso que o samba foi composto às pressas pela ala dos compositores, e o resultado foi uma ducha de água fria. Para piorar, no ano seguinte, a Imperatriz, com o mesmo tema, dessa vez desenvolvido por Arlindo Rodrigues, ganharia o bicampeonato. Cabe uma observação: o tempo de preparo do carnaval de então era muito menor que o de hoje. Em 1982, totalmente sem dinheiro e ameaçado de não desfilar, o Salgueiro aprontou suas alegorias em 1 semana.

Max, evidentemente, ficou muito chateado e pensou em deixar o carnaval, mas quis o destino que em 1982 ele fosse chamado para fazer a Ilha do Governador que vinha perdendo suas características tão bem definidas por Maria Augusta. Ao propor o enredo “É Hoje”, conseguiu outro grande sucesso. Na transmissão da TV educativa da época, Arlindo Rodrigues elogiou o desfile e fala abertamente que o requinte e a beleza tinham muito do Salgueiro. A competência do requinte e do domínio das cores, alinhado a enredos sempre desenvolvidos pela cartilha narrativa salgueirense – início, meio e fim – marcam a carreira de Max Lopes.

Max se tornou um carnavalesco vitorioso e premiado, seu trabalho tem a grande virtude de respeitar as características das escolas em que trabalha, mas sempre colocando sua assinatura. Transformou a visualidade da Mangueira já em sua estreia em 1983, no período em que a escola também não vinha bem. No ano seguinte, com seu antológico Braguinha, fatura o supercampeonato da inauguração do Sambódromo e devolve o título para a Mangueira depois de 10 anos, em uma quebra de jejum inédita. Ele também redefiniria o visual da Vila Isabel, dando uma musculatura que a fez disputar títulos. 

Em 1989, após desfiles sem tanto sucesso da Imperatriz após a perda de Arlindo em 87, Max realiza “Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós”. Quem tem dúvidas acerca do desfile, há uma solução fácil: assista a apresentação transmitida pela Rede Manchete. Se no início Pamplona faz algumas restrições ao enfoque do enredo, no final Max é consagrado como o legítimo herdeiro de Arlindo Rodrigues. Nesse desfile, o carnavalesco utilizou todo o repertório que aprendeu no Salgueiro: belas fantasias, adereços, estandartes e, principalmente, uma história bem contada.

Outra escola que Max, morador de Niterói, definiria a visualidade é a Viradouro. Foram campeões do Acesso em 1990 e subiram de grupo com a agremiação. Em 1991, debaixo de um dilúvio e abrindo o carnaval, debuta no Especial com a homenagem a Dercy Gonçalves. Com todos os percalços o desfile foi um sucesso, mas ninguém faria ideia do que ele aprontaria no ano seguinte. “A Magia da Sorte Chegou”, de 1992, é um dos mais belos desfiles de escola de samba de todos os tempos. O requinte, a profundidade e a criatividade apresentados são um pouco esquecidos pelo fatídico incêndio até hoje não muito bem explicado. 

Max ainda faria Vila, Imperatriz, Grande Rio… Mas é na Mangueira nos anos 2000 que ele apresenta sua maior sequência de trabalhos, quase todos disputando o campeonato, tendo ganho 2002 com o maravilhoso “Brazil com ‘Z’ é pra Cabra da Peste, Brasil com ‘S’ é a Nação do Nordeste”. As apresentações subsequentes não ficaram aquém e outros carnavais assinados por ele marcaram a Mangueira dos anos 2000 e sua identidade como escola de samba. 

É importante ressaltar que em todos esses trabalhos Max nunca esquece a ligação com a academia alvirrubra que lhe deu origem. Prova disso é a bela homenagem que fez aos 60 anos da agremiação em 2013, na Viradouro. Seja o requinte do Arlindo, o desenvolvimento de enredo linear, a utilização de elementos tradicionais valorizados por Pamplona ou a criatividade mágica de João, a Academia está presente e perambula sua obra. Singelos mas importantes detalhes como trazer estandartes de apresentação da escola, utilização magistral das cores, respeito às alas… Isso tudo constitui um artista.