Geraldo babão

Por Felipe Tinoco

Geraldo Babão (Arte de Mülambo)

Das variadas formas de se “tirar” uma melodia dentre os bambas das composições de samba, poucas são as soluções tão originais e memoráveis ao ponto de ajudar a nomear um grande músico. Vários artistas que marcaram a revolução encarnada iniciada há 60 anos ganharam diferentes sobrenomes. Xangô, Paula e Anescar viraram do Salgueiro – e era só colocar a designação da escola para que ninguém tivesse dúvida da pessoa referida. No caso de Geraldo, foi justamente um efeito da particularidade do método de encontrar a música de seus sambas que fez o nome tão comum ser diferenciado. Por intermédio da flauta, o compositor criava suas melodias, ao tempo que fazia escorrer a saliva originada pelo sopro. Pronto: virou o Babão.

Sem dominar os instrumentos de corda, a técnica alternativa ainda contava, por vezes, com uma tática também singular e conveniente para que chegasse até a precisão dos sons. O músico tocava em volta da criançada e percebia a reação à música, que poderia ser recebida com simpatia e animação genuínas dos erês ou apenas desdenhada. No primeiro caso, o prodígio das melodias logo procurava um parceiro para pôr letra e finalizar a composição. Babão compreendia e investia com mais vigor no universo das músicas das canções, possivelmente mais sensorial e inteligível do que o das letras. Sua habilidade com os dispositivos de sopro fomentou esse foco em melodia dentro das criações colaborativas.

O personagem nasceu em 1926 na famosa localização do Morro do Salgueiro intitulada Terreiro Grande. Quando criança, iniciou sua relação com a flauta com um instrumento feito de bambu, até que, ainda muito jovem, começou a trabalhar e comprou uma constituída de metal. Dentro do cenário de desigualdade social imposto à população periférica e à população negra – e ressignificado pelos brilhantes sambistas da Academia, por exemplo –, foi a renda conquistada pelo trabalho que em tese permitiu uma criança ter acesso ao que seria o principal recurso de suas criações artísticas. No entanto, foi também por conta de seu emprego, em um acidente de trabalho, que sua tirada de melodia pelo sopro acabou impossibilitada. Na fábrica de uma cervejaria em que exerceu o papel de maquinista, uma garrafa explodiu na sua mão e o fez largar a leal flauta. Paradoxalmente, é pelo trabalho que Babão começa e deixa de dar sua contribuição artística com o instrumento de sopro. 

Antes disso, porém, muitas glórias e responsabilidades importantes são associadas ao compositor. No Salgueiro, junto com Binha e Djalma Sabiá, assinou o histórico samba de Chico Rei, em 1964. Sozinho, fez “O Descobrimento do Brasil”, de 1962, e “Eneida, amor e fantasia”, de 73. Em 65, no “História do Carnaval Carioca”, enredo inspirado em uma também Eneida, com Valdelino Rosa, compôs a obra que daria o terceiro título salgueirense. A última música assinada por ele que ecoou enquanto se girava o pavilhão branco e encarnado foi em 77, “Do Cauim ao Efó”, com Renato de Verdade, totalizando cinco sambas no G.R.E.S. Salgueiro. 

Anteriormente, como cria do morro então dividido entre três diferentes agremiações que se fundiriam para gerar o Acadêmicos, foi autor, em 1940, do samba “Terra Amada”, o qual guiou a apresentação da Unidos do Salgueiro na Praça XI. Treze anos depois, no prenúncio de junção das escolas Azul e Branco, Depois Eu Digo e a que trouxe o nome da árvore, para a qual Babão já havia composto, foi ele um dos pioneiros a corroborar com a ideia da união das três diferentes instituições para que juntas fossem mais fortes e pudessem disputar com as agremiações mais bem-sucedidas da época. Depois do carnaval de 53 – o último, de fato, sem o Acadêmicos do Salgueiro –, quando Portela, Império Serrano e Mangueira levaram os três primeiros lugares do concurso oficial, Babão lançou entre os cruzamentos do morro a seguinte canção:

Vamos balançar a roseira
Dar um susto na Portela
No Império e na Mangueira
Se houver opinião
O Salgueiro apresenta
Uma só união
Vamos apresentar um ritmo de bateria
Pro povo nos classificar em bacharel
Bacharel em harmonia
Na roda da gente bamba 
Frequentadores do samba
Vão conhecer o Salgueiro
Como primeiro em melodia
A cidade exclamará em voz alta
Chegou, chegou a Academia

Dizem relatos que, a partir dessa movimentação de cantoria e de composição do ilustre, os componentes das escolas desceram até a Praça Saens Peña, em uma apresentação local decorrente do descontentamento com os resultados dos desfiles daquele ano, e conclamaram o fim da desunião. A Unidos do Salgueiro teve mais resistência pela integração, personificada na figura de Casemiro Calça Larga. Desapontados, alguns importantes nomes deixaram a escola. O personagem aqui biografado chegou a migrar para a Vila Isabel e compôs na agremiação do bairro de outro Noel Rosa o samba-enredo de 1960, “Poeta dos escravos”, quando a azul e branca foi campeã do terceiro grupo. Ao retornar para sua origem, quando já existia a união convocada por ele, fez o que fez e ajudou, fundamentalmente, o Salgueiro a dar um susto nas coirmãs. Ainda mais, de flauta e de talento, fez os versos serem proféticos, idealizando que conheceriam o Salgueiro “como primeiro em melodia”. Melodia de Babão.