Eneida, amor, luta e fantasia

Por Leonardo Antan

Eneida de Moraes (Arte de Jorge Silveira)

Assumir a missão de recontar a história da Revolução Salgueirense é levantar uma série de personagens esquecidos da cultura nacional. Se parece óbvio e urgente registrar trajetórias de sambistas e foliões que emprestaram seu corpo e sua arte para fazer do Salgueiro uma escola campeã, o grande trunfo da agremiação foi seu diálogo com personagens tanto do morro como do asfalto. E na importante lista de intelectuais que não eram do samba, mas que estreitaram seus laços com a Academia, está Eneida de Morais. Pouco lembrada como importante nome da folia brasileira e também da nossa literatura, resgatar o legado dessa cronista é falar de uma figura feminina forte e ativa na cena artística nacional.

Eneida é uma das poucas personalidades que já viu tanto sua obra quanto sua vida serem transformados em enredo de uma escola de samba – e não só por uma agremiação. No Rio, o Salgueiro já versou dois enredos com relação a escritora, em 1965 e 1973, assim como o Paraíso do Tuiuti, que a homenageou em 1990 e depois reeditou o samba-enredo vinte anos depois. Já no Pará, o Império do Samba Quem São Eles também rendeu tributo à escritora. 

Sendo a vida de Eneida um enredo pronto, a abertura desse cortejo se dá evidentemente em sua terra natal: a deslumbrante Belém do Pará. A terra do Círio, do açaí e do Ver-o-Peso deu para aquela menina toda a magia que a região amazônica pode oferecer. Foi nos rios caudalosos que moldam a região que ela viu seu pai comandar navios e se apaixonou pela magia daquele chão. Esse imaginário caboclo inspirou sua paixão pela escrita e seu primeiro livro, batizado de “Terra Verde”. As palavras começaram a ser constantes na sua vida, fazendo com que ela logo começasse a colaborar em jornais como o Estado do Pará, Para Todos (RJ) e nas revistas Guajarina, A Semana e Belém Nova. 

Pegando um ita no Norte, como cantou o Salgueiro em 1993, Eneida veio para o Rio de Janeiro em 1930, data em que os desfiles de escolas de samba ainda nem existiam. Na capital, começou a circular nos eventos literários e jornalísticos. Esse universo levou-a a mudar sua consciência política, fazendo iniciar suas leituras sobre a filosofia marxista. Logo, se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

A principal biógrafa de Eneida, a professora Eunice Ferreira dos Santos, deixa claro os pilares que enxerga na vida da homenageada no título do seu livro “Memória e militância política”. Contar a vida de Eneida, portanto, se torna impossível sem falar de seu envolvimento com a política, já que ela foi presa algumas vezes por seu posicionamento. A primeira vez foi em janeiro de 1936, ficando no Pavilhão dos Primários durante um ano e cinco meses, experiência que relatou no seu livro Aruanda. Na Sala 4, encontrou outras parceiras como Maria Werneck de Castro e Olga Benário e, com seu conhecimento, serviu de tradutora para a famosa alemã que se relacionou com Luiz Carlos Prestes. O período acabou sendo retratado ainda na obra de Graciliano Ramos, no seu clássico “Memórias do Cárcere”.

Mesmo que tenha sido absolvida uma primeira vez pelo Tribunal de Segurança Nacional, voltou à prisão outras tantas vezes. Em muitas delas, acusada de redigir material para divulgação do Partido Comunista. Após algumas prisões, se exilou na França por um tempo até voltar ao solo carioca. 

Na década de 1950, começou seu período mais produtivo, atuando em vários veículos da mídia carioca e lançando seus primeiros títulos de literatura. O de mais sucesso e repercussão veio em 1958: História do Carnaval Carioca, que se tornou um verdadeiro cânone da folia brasileira. Fruto de mais de vinte anos de pesquisa, a obra estabeleceu as principais categorias do Carnaval brasileiro ao definir o conceito de cordões, corso, ranchos, sociedades, entrudo e outros.

No mesmo ano em que lançou a pesquisa, estreitou sua relação com o Carnaval ao promover a primeira edição do “Baile do Pierrô”, uma festa pré-carnavalesca que teve edições no Rio e Belém. A primeira edição aconteceu no “Aubon Gourmet”, importante bar de Copacabana que viu o nascimento da Bossa Nova. O clima seria de nostalgia, emulando os festejos da belle époque, vistos com olhos saudosistas. O sucesso foi tanto que reuniu mais de duzentas pessoas quando a lotação inicial prevista era pouco mais de cento e cinquenta. 

Quem narra melhor sobre esse evento é a própria Eneida em uma de suas várias crônicas: “Alugávamos uma boate, fazíamos a quota de quanto cabia a cada um e durante três carnavais nosso baile foi de abafar”. O baile ocupou o mesmo espaço por quase dez anos, quando deixou o bar para a Boate Sucata, em 1968, que ficou famosa por uma série de shows dos tropicalistas.

Ainda sobre o Carnaval, depois de lançar o seu livro sobre o tema, foi convidada para integrar o júri dos desfiles das escolas de samba. Em 1959, fez parte dele ao lado de Fernando Pamplona e Edison Carneiro, dois amigos importantes da jornalista. Participou ainda em outras oportunidades avaliando as escolas, como em 1960, quando se admirou da cabine de jurados a revolução que o Salgueiro promoveu com seu Quilombo dos Palmares. Comovida com a apresentação, ela escreveu um texto para o jornal Última Hora, no qual afirmou que foi uma verdadeira aula de história para o público e a polícia, que reprimiu a população local, finalizando dizendo que o espírito de Palmares pairou sob a Rio Branco. 

Em 1965, quando o Salgueiro se baseou no seu livro para contar a história do Carnaval carioca, ela fez valer o título de pierrô e desfilou na agremiação fantasiada a caráter. Mas sua relação com a folia não ficou restrita às escolas de samba. Ela presenciou a fundação da tradicional Banda de Ipanema, sendo coroada como rainha da fanfarra que buscava ocupar as ruas da Zona Sul carioca. 

Falecendo em 1971, após complicações de saúde, foi homenageada pelo Salgueiro em 1973. Era um desfile histórico em alguma medida, visto que marcou uma troca de comando artístico. Após tantos anos, os mestres Arlindo e Pamplona se despediram oficialmente da criação visual e deixaram o legado para seus discípulos, uma dupla formada por Joãosinho Trinta e Maria Augusta Rodrigues. O desfile já contava com as famosas nuances da mestra do luxo da cores e a megalomania visual do maranhense. O samba-enredo ficou por conta de Geraldo Babão. 

Após aquela homenagem póstuma recente, a vida de Eneida foi cantada na Avenida em outras oportunidades. A Paraíso do Tuiuti levou o mesmo samba-enredo em sua homenagem em duas ocasiões, primeiro em 1990, sob a batuta de Júlio Mattos, e depois reeditou a obra em 2010, com assinatura de Eduardo Gonçalves. 

Em entrevista para o Museu da Imagem e do Som, Eneida sucintamente resumiu qual foi o guia da sua trajetória: “Eu sou rigorosamente uma mulher do povo. Nada que for fora do povo me interessa. E também não nasci espectadora. Nasci para tomar parte no negócio. Então todas as coisas do Brasil me interessam, tudo, tudo me interessa”.

Sem dúvida, sua obra ajudou a mudar o país e, consequentemente, sua maior festa, o Carnaval. Sua proximidade com Fernando Pamplona fez com que o cenógrafo batizasse uma de suas filhas com Zeni de Eneida, em homenagem à escritora. 

Mulher à frente de seu tempo, militante da cultura popular e cronista de sua época, Eneida é salgueirense das grandes e também ajudou a fazer revolução.