Joaquim Casemiro, o primeiro da dinastia Calça Larga no Oyó tijucano

Por Thomas Reis

O mestre Calça-Larga (Arte de Mülambo)

Por muitos intitulado como a maior figura da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, tal adjetivação não possui relação alguma com sua alongada estatura de quase dois metros de altura, mas sim com sua altivez e expressividade no Oyó tijucano. Sua inerente liderança à frente da vermelha e branca fez com que o velho Calça se tornasse figura imprescindível para o sucesso da escola nos anos de 1960. Amor e muito suor sintetizam o que foi a trajetória de extrema dedicação do corpulento miracemense na Academia do Samba, trajetória essa que, para além dos campeonatos alcançados pelo Salgueiro, rendeu ao Calça Larga um reconhecimento significativo.  Para os mais novos, uma espécie de conselheiro-mor e, para os mais velhos, uma figura crucial para as tomadas de decisões da escola. 

Nascido em Miracema – interior do Rio – no dia 02 de novembro de 1908, Joaquim Casemiro chegou à capital ainda com pouca idade. O jovem esbanjava estilo com suas calças boca de sino que ultrapassavam seus pés, o que lhe rendeu o famoso apelido, ou melhor, a nomeação de uma eminência dinástica até hoje muito respeitada em solo salgueirense. Em relato dado ao Jornal do Brasil em 1963, ele explica melhor o apelido: “Na minha mocidade sempre fui caprichoso. Gostava de andar na moda. As calças largas de flanela começaram a aparecer e eu me meti nelas. Como sempre gostei de exagerar a moda, as calças que vestia eram mais largas que o normal, daí o apelido que me acompanha até hoje.” 

Quando chegou ao Rio de Janeiro, a familiaridade com o samba era quase nula, mas o malandro foi se envolvendo e através dos amigos que “gostavam de bater” adentrou os blocos e cordões pelas bandas do morro do Salgueiro, quando chegou ao bairro por volta de 1932 – naquele tempo ainda não havia escolas de samba lá no morro. E foi assim, participando das competições de quem batia mais forte e puxando as cordas num bloco, que Casemiro foi se deleitando com a folia, um caminho nada árduo para o jovem festeiro e boa praça.

Sempre sorridente e comunicativo, Calça Larga foi ganhando popularidade e caindo nas graças do povo do local, principalmente quando, movido por seu espírito festivo, passou a organizar as celebrações para o dia do padroeiro São Sebastião. Ele também orquestrou um grupo de pastorinhas que saíam cantarolando na época de Natal para visitar as casas da comunidade e, é claro, era de sua responsabilidade o planejamento do tradicional piquenique do dia 15 de novembro que deslocava todo o pessoal rumo a Paquetá. “Ele mobilizava o morro inteiro. Distribuía prospectos, afixava cartazes, motivava os casais de namorados, vendia os convites, enfim, agitava pra valer”.  (COSTA, 1984, p. 47)

A estima que tinha entre os seus, somada à sua invejável capacidade de articulação, conduziram Casemiro a uma liderança política dentro do morro. Assumiu a presidência da Associação Pró-Melhoramentos e, por meio da sua amizade de infância com o governador Carlos Lacerda, conseguiu algumas benfeitorias para sua comunidade. A presença do sambista no Palácio da Guanabara era frequente: foram inúmeras as visitas ao velho amigo que culminaram em melhorias para a turma do morro. Calça Larga compreendia muito bem o que João Gustavo Melo (2016) colocou em sua crônica sobre o Salgueiro na abertura do livro “As Matriarcas da Avenida”, acerca dos códigos básicos para boa convivência no místico Oyó tijucano,  sobretudo, o mandamento: “Não passarás por otário no reino da malandragem” e, assim, configurou-se em uma das maiores personalidades não só do morro do Salgueiro, como também do Rio de Janeiro naquela época. 

Todavia, é inegável que a grande força motriz que conduziu a vida de Calça foi o samba e as escolas de samba da qual fazia parte. Em solo salgueirense, surgiram três agremiações: a Depois Eu Digo, a Azul e Branco e, da fusão dos blocos Caprichoso do Salgueiro e Terreiro Grande, emergiu a Unidos do Salgueiro, comandada por ninguém menos que Joaquim Casemiro Calça Larga. Na azul e rosa, o sambista já demonstrava seu potencial enquanto um grande diretor geral, organizando os eventos e liderando os pormenores da agremiação. 

Apesar de simpatizar com a ideia de fusão entre as três escolas, o grande homem se zangou na reunião do dia 03 de abril de 1953, ocorrida na praça Saens Peña, que definiu a fundação do Acadêmicos do Salgueiro após a fusão de Depois Eu Digo e Azul e Branco. A Unidos se recusou, pois o mandachuva desejava que o nome adotado fosse o de sua escola e que fossem mantidas suas cores, azul e rosa. Resultado: o velho Calça ficou ali por mais um ano e, quando saiu, a escola foi se desfazendo e os integrantes indo compor a recém-fundada e cada vez mais fortalecida Acadêmicos do Salgueiro.

O rompimento de Casemiro naquele momento foi motivado pelo convite para participar do processo de fundação de uma escola no bairro que o acolheu em sua chegada ao Rio de Janeiro: Jacarepaguá. Assim, o sambista já renomado pela natural habilidade de articulação e liderança e, gradativamente, se tornando uma referência no universo do samba, esteve presente no alicerçamento da União de Jacarepaguá e acabou nomeado como o primeiro presidente da agremiação. Mas a verdade é que seu coração batia ao ouvir a bateria que ressoava do morro do Salgueiro. Não teve jeito. Calça Larga era Salgueiro e o Salgueiro era Calça Larga. O retorno, agora para o Acadêmicos, era a reconciliação de uma história duradoura e vitoriosa que se pavimentou a partir de então. 

Na vermelha e branca, Calça Larga representava a liderança do morro dentro da escola e, com seu jeitão singular, comandava a harmonia e os ensaios da agremiação. Com seu olhar empreendedor, sempre dava um jeito de desencalhar as cervejas que restavam na geladeira da quadra. Inventava um concurso de passista, criava uma roda de samba e há quem diga que o sambista desenrolava bem no partido alto. Com seu estilo cativante e malandro, Calça se entregava de corpo e alma por seu Salgueiro. 

Apesar de sua presença contagiante desde o início da dita Revolução Salgueirense, foi só após a saída de Nelson de Andrade que Calça Larga passou a ser o líder da escola. A saída do dirigente foi motivada por um desentendimento com o próprio Calça, um embate simbólico entre os “de dentro” e os “de fora”. Nelson, que não morava no morro e vislumbrava um potencial empresarial na escola de samba, era visto como uma figura não muito agradável pelos componentes da vermelha e branca. E foi Casemiro quem personificou esse descontentamento perante o então dirigente. 

No Carnaval de 1961 – último de Nelson de Andrade na agremiação -, em que o Salgueiro levou o Aleijadinho de Pamplona para Avenida, Calça Larga teve o importante papel de introduzir uma personagem que seria central no sucesso da escola dois anos depois e que se tornaria símbolo daquele áureo período: ninguém menos que a belissíma destaque Isabel Valença. A aproximação da família Valença resultou no apoio de Casemiro ao marido de Isabel, o bicheiro Osmar Valença, para o posto de presidente da agremiação. A equipe salgueirense estava formada: Osmar, que apesar não entender nada de samba, conseguiu gerir bem a escola e, como disse Calça Larga, “deu uma tremenda sorte ao Salgueiro” (Jornal Brasil, 1963); Arlindo Rodrigues, que segurou corajosamente a responsabilidade da batuta artística do Salgueiro após a saída de seu mentor, Fernando Pamplona e, é claro, Calça Larga, que trouxe para si a responsabilidade de liderar a escola. 

Não restam dúvidas sobre a centralidade de Calça no campeonato conquistado pelo Salgueiro em 1963, quando a vermelha e branca levou o enredo “Xica da Silva” para seu cortejo. O desfile arrebatador, que teve o primoroso toque estético de Arlindo Rodrigues, o surpreendente minueto de Mercedes Baptista e a presença de Isabel Valença, que encarnou fielmente Xica da Silva e se tornou figura célebre no Rio de Janeiro. Fato é que a Academia do Samba foi arrebatadora e conquistou incontestavelmente o Carnaval daquele ano, embalada pelo samba-enredo de Anescarzinho e Noel Rosa de Oliveira, abrindo um marco na composição carnavalesca. 

O Jornal do Brasil daquele mesmo ano preparou uma matéria completa sobre Joaquim Casemiro, que trazia em suas primeiras linhas a seguinte afirmação: “Nenhum dos dois mil e poucos homens ou mulheres que fizeram do Salgueiro o campeão do carnaval discorda quando alguém afirma que a vitória só foi possível graças ao amor de Calça Larga”, destacando a importância central do diretor. E completa: “ao lado de um entusiasmo jamais visto na história do samba, da boa estreia do Presidente Osmar Valença – que, sem entender nada do métier, acertou em tudo que planejou – e do trabalho anônimos, há seis anos acompanhando, sem jamais aceitar um centavo, os destinos dos acadêmicos: o figurinista e decorador Arlindo Rodrigues.” (Jornal do Brasil, p.16, 3/3/1963). 

Após o triunfo, Calça Larga tomou uma decisão que surpreendeu a todos: optou por se afastar da escola, alegando que sairia dela por haver muitos braços novos que cumpririam o seu papel. Apesar da idade estar batendo e os problemas de saúde aparecendo, o forte homem de 130 quilos se negava a assumir que sua saúde o estava limitando. Pouco tempo depois, o sambista foi internado no Hospital dos Servidores. Mas o tempo passou e ele se recuperou do sobressalto. E eis que, durante a reunião que definiria “Chico Rei” como enredo para o Carnaval de 1964, surge o velho Calça causando espanto em todos que com seu bom humor, lançando mão de um “Vocês acharam mesmo que eu ia ficar de fora?”. 

Os caminhos de Calça Larga e do Salgueiro foram trilhados em uma união envolta por um elo de amor e dedicação. Não tinha como ser diferente. Após uma vida de dedicação à sua querida escola, o último sopro do grande homem de Miracema que chegou ao Rio de Janeiro tomado pela folia foi fazendo o que mais amava: comandando o ensaio da vermelha e branca. No dia 28 de agosto de 1964, enquanto a escola se preparava para o cortejo de 1965, lá estava o velho Calça, de olho na evolução das pastorinhas e ditando o ritmo do ensaio, quando, por um instante, ele se entortou e veio ao solo em sintonia com a batida do surdo. Foi então que a quadra silenciou. Os componentes da escola correram em sua direção para acudi-lo. No intermédio entre primeiros socorros e a partida para o hospital, o comandante ordenou: “Não parem o ensaio por minha causa… O samba tem que continuar!”. Foram as últimas palavras do líder salgueirense dentro da quadra que levaria seu nome. 

Joaquim Casemiro “Calça Larga”, líder indefectível do morro do Salgueiro, diretor e voz de comando do Acadêmicos do Salgueiro e referência popular no Rio de Janeiro pelos idos dos anos de 1950 e 1960, não resistiu e veio a falecer horas depois do incidente. O morro estava de luto. Todos sabiam que a perda daquele homenzarrão sorridente, festeiro, malandro e muito bem articulado, famoso por suas calças boca de sino e o boné branco na cabeça, era inestimável. Mas a morte de Joaquim Casemiro não significava o fim dos Calças Largas no Oyó localizado na Tijuca. Assim como Xangô, o padroeiro, semeou com sua força e justiça em seu reino na África, por aqui, Casemiro traçou e definiu um legado no morro do Salgueiro e na história do Carnaval.