Osmar Valença

Por Thomas Reis

Osmar Valença e Isabel Valença comemoram o título do Salgueiro em 1974.

Se por um lado o nome que mais se destacou no período da Revolução Salgueirense, quando o assunto é a gestão da escola, foi Nelson de Andrade, por outro, o mais vitorioso foi Osmar Valença. Nelson foi responsável por despertar o processo e reunir no Salgueiro nomes como Marie Louise, Dirceu Nery, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, entre muitos outros. Não obstante, com sua trajetória na vermelha e branca interrompida ao final do Carnaval de 1961 – rumando para a Portela –, o dirigente esteve presente nesse processo vitorioso apenas no campeonato de 1960, “Quilombo dos Palmares”. Já com Osmar presidindo a escola, foram seis títulos em um período entendido como os anos de ouro da escola tijucana, nos quais a agremiação passa a assumir o papel de potência no cenário carnavalesco. 

Com a saída de Nelson – que, apesar de não estar como presidente na época, era que dava as ordens dentro da escola – a presidência caiu nos braços de Osmar Valença, quem até então não possuía ligações assíduas com a agremiação, apenas contribuindo vez ou outra o livro de ouro que passava em sua casa e, é claro, por sua esposa, Isabel Valença, que já vinha despontando como destaque. Osmar pode até ser um nome pouco conhecido no universo carnavalesco, mas o sobrenome Valença, não! E isso se deveu à representatividade que Isabel Valença ganhou dentro da vermelha e branca e no cenário carioca do final dos anos de 1960, após, em 1963, dar vida a Xica da Silva no emblemático desfile da Academia. 

Isabel estampou capas de jornais e revistas, foi convidada a participar da festa de fantasias do Municipal e dizia ter incorporado a entidade pomba-gira de Xica no desfile que resultou no segundo título da agremiação. Além disso tudo, foi pilar fundamental para a permanência e consolidação do marido na direção da escola. No entanto, à época diziam que os negócios do bicheiro não estavam sendo tão lucrativos quanto imaginado e grande parte do orçamento destinado à escola ficava retidos na confecção das exuberantes fantasias de Isabel.

Para o Carnaval de 1961, a turma de Paulino de Oliveira – tido popularmente como seu Paulino ou Silas –, primeiro presidente do Acadêmicos do Salgueiro, se organizou em uma junta governativa para colocar a escola na rua diante dos problemas administrativos enfrentados naquele momento. Após o vice-campeonato de 1961, comemorado por uns e mal visto por outros, seu Paulino, que não tinha intenções de permanecer no comando da escola, tratou logo de convocar as eleições. O nome da vez, apoiado por ninguém menos que Casemiro Calça Larga, o responsável pela coordenação da candidatura, foi o de Osmar Valença. 

O bicheiro não tinha sangue salgueirense, era declaradamente torcedor da velha Manga e, a princípio, não se animou com a possibilidade de presidir a escola. Mas mudou de ideia no decorrer da campanha, muito influenciado por Calça Larga e pelo amigo salgueirense Italianinho, vizinho do ponto de bicho que Osmar comandava na Rua Dona Maria, no bairro da Tijuca. Para compor a equipe do então mandatário, Casemiro Calça Larga assumiria a posição de Diretor Geral, antes era ocupada por Nelson de Andrade, Neca da Baiana – que daria vida anos depois, em 1964, a Chico Rey na homenagem da escola ao personagem – seria o vice do bicheiro e, após a saída de Pamplona, tendo como uma de suas motivações o desentendimento com o novo mandatário, Arlindo Rodrigues passou a conduzir o comando da criação artística do Salgueiro. 

Osmar Valença nunca foi unanimidade por entre os becos e vielas do morro do Salgueiro. O fato de não ter identidade com a escola, torcer pela Mangueira – principalmente depois de ter desfilado e apresentado a verde e rosa em 1967, durante o período que esteve afastado do Salgueiro –, e ser do tipo que gosta de contar vantagem pesaram bastante na popularidade do bicheiro, mas nada comprometeu seu cargo à frente da vermelha e branca. Ora, há de se considerar que, se faltava popularidade e boa administração, sobrava a ele uma malandragem singular, visto que se tornou uma espécie de figura folclórica na Academia do Samba. 

Sua ascensão ao cargo máximo dentro da escola fez com que Osmar Valença, ao lado de Natal da Portela, dessem início a uma tendência que foi se avolumando dentro do Carnaval nos anos seguintes, com a tomada de liderança das escolas de samba por bicheiros. A contravenção desponta de forma emergente para a manutenção financeira das agremiações e as figuras de Natal e Osmar personalizam essa primeira geração da ligação entre jogo do bicho e Carnaval. Foi essa dupla a responsável por acirrar a competitividade entre suas escolas, protagonizando inúmeras declarações icônicas, como o episódio da prisão de um grupo de contraventores no qual estavam envolvidos Osmar e Natal, na sequência do Carnaval de 1969, vencido pelo Salgueiro com “Bahia de todos os deuses”. Foi um prato cheio para o salgueirense que, após sua prisão, declarou: “O consolo é a gozada que vou dar no Natal pela vitória do Salgueiro e o terceiro lugar da Portela.”. 

Polêmico como manda o figurino, Osmar Valença viabilizou uma homenagem do Salgueiro à sua escola madrinha, a Mangueira, para o Carnaval de 1972, “Nossa madrinha, Mangueira querida”. Seria esse o mundo perfeito para o bicheiro, a união da escola que administra com a escola de seu coração? Já com Joãosinho Trinta no comando da escola, foram campeões por dois anos consecutivos e, logo no primeiro Carnaval, em 1974, o presidente protagonizou mais uma passagem cômica ao declarar que por conta do enredo “O Rei de França na ilha da assombração”, o início da escola teria componentes vestidos com lençóis brancos e furos nos olhos, representando fantasmas. A fala foi prontamente desmentida por João e, por conta dessa relação não muito amistosa entre os dois, o carnavalesco deixou a escola anos depois.

Fato é que a trajetória vitoriosa de Osmar Valença à frente do Acadêmicos do Salgueiro foi marcada por uma série de polêmicas, desde seu jeito falastrão, passando pelos altos gastos com as fantasias de Isabel e as desavenças com carnavalescos e chegando até as relações com a contravenção. Carismático, mas não muito bem quisto pela comunidade salgueirense, presidente do Salgueiro, mas torcedor da Mangueira, mau administrador, mas detentor de seis títulos do Carnaval carioca no comando da vermelha e branca, essa foi a trajetória um tanto quanto controvérsia de um dos líderes, apesar de pouco lembrado, da Revolução Salgueirense.

Presidente por quase duas décadas, passou dois mandatos: o primeiro 1962 a 1976 e o segundo 1978 a 1981 e, enquanto líder executivo da agremiação, foi campeão nos anos de 1963 “Xica da Silva”, 1965 “História do Carnaval carioca – Eneida”, 1969 “Bahia de todos os deuses”, 1971 “Festa para um rei negro”, 1974 “O Rei de França na ilha da assombração” e 1975 “Os segredos da mina do Rei Salomão”.