Salgueiro 1964 – Chico Rei

Por Thomas Reis

Recapitulando…

“Foi em uma conversa entre Fernando Pamplona, Nelson de Andrade e Arlindo Rodrigues, no retorno ao Rio de Janeiro, que definiram dar continuidade, naquele momento, ao enredo barroco sobre Aleijadinho. Contudo, Chico Rei seria logo anunciado como o enredo para o Carnaval do ano seguinte e Rugendas para 1963. No entanto (…) Nelson deixou o Salgueiro rumando para Portela (…). Pamplona também decidiu dar uma pausa passando a Arlindo as responsabilidades de desenvolver o Carnaval (…). Já Chico Rei só seria levado para Avenida três anos mais tarde, em 1964, mas isso é assunto para mais adiante.” (escritas sobre o desfile de 1961 – “No tempo de Aleijadinho”). 

O deslumbramento salgueirense por Chico Rei surgiu lá no pré-Carnaval de 1962, quando Fernando Pamplona e Nelson de Andrade desembarcaram em solos mineiros para uma incursão na vida e obra de Aleijadinho. Em Ouro Preto, cidade onde nasceu o célebre escultor barroco, a dupla ficou hospedada em um hotel que carregava Chico Rei no nome. Muito observadores, eles questionam sobre quem seria o personagem que nomeava aquela localidade. A resposta foi surpreendente e os deixou entusiasmados. Dono de uma curiosidade aguçada, Pamplona não se contentou somente com a resposta que havia recebido e saiu em busca de mais informações sobre o tal rei escravizado. Maravilhado com a ideia, o carnavalesco cogitou a alteração do enredo de 1962, mas acabou abrindo mão do enredo naquele momento. Os desdobramentos dessa história vocês já sabem: Chico Rei só ganhou vida na Academia do Samba em 1964, sob a égide de Arlindo Rodrigues.

O ano de 1964 começou com muita euforia lá para os lados do morro do Salgueiro, já que era inegável a felicidade após o campeonato avassalador do ano anterior. O sucesso com Xica da Silva levou o nome da escola para longe, rendendo diversas honrarias, mas, principalmente, a consolidação de Arlindo Rodrigues. Ele acabara de ganhar o primeiro título com um trabalho de sua autoria, já que Pamplona havia se afastado da escola anos antes. Já no cenário político e social brasileiro, o ano também se iniciou com prelúdios de euforia, mas dias após o Carnaval, precisamente no dia 31 de março, o país sofreu um dos golpes mais sombrios de sua história, com a instauração da ditadura militar. O governo autoritário refletiu ao longo dos anos seguintes diretamente nas manifestações culturais, sobretudo no Carnaval, com repressão e censura.  

Retornando aos preparativos do cortejo da vermelha e branca, Osmar Valença, então presidente da agremiação, reuniu sua equipe – que contava com nomes como Arlindo Rodrigues, Djalma Sabiá, Calça Larga, Isabel Valença, dentre outros – para levantar a seguinte questão: “Como iremos superar essa vitória?”. Após algumas discussões, Arlindo decidiu que era a vez de Chico Rei. Ao ser questionado sobre o fato de a ideia do enredo ser de Pamplona, o cenógrafo afirmou que já havia conversado com o amigo e mentor, que concedeu, além da devida autorização, algumas anotações da viagem a Minas Gerais. Prometendo muita beleza e mais luxo que o ano anterior, a turma definiu então que o enredo do Salgueiro seria Chico Rei, apostando mais uma vez em uma narrativa negra e contando a trajetória de mais um personagem apagado da dita história oficial do país.

“Salgueiro troca Chica por Chico”, anunciava a manchete do Jornal do Brasil no dia 6 de fevereiro de 1964. Ao longo dos meses que antecederam a folia, quase toda a produção salgueirense passava pelas mãos de Arlindo, que preparava todo requinte do seu tradicional toque barroco para aquele cortejo. Ainda sob os efeitos do triunfo do ano anterior, o carnavalesco procurou Isabel Valença com o desenho de sua nova fantasia. Isabel, esposa do então presidente da escola Osmar Valença, protagonizou um dos pontos altos do desfile de 1963, ao dar vida à homenageada. Trajada e incorporada de Xica da Silva, ganhou as capas de jornais e revistas, foi convidada a participar do concurso de fantasias do Municipal e se tornou um símbolo luxuoso daquele período salgueirense. 

Isabel Valença e sua bela fantasia no desfile do Salgueiro em 1964 sobre Chico Rei. (O Cruzeiro, 07/03/1964)

Tamanha repercussão fez com que Isabel ficasse receosa sobre o que representaria no Carnaval seguinte, mas, com toda maestria, o pupilo de Pamplona já havia pensado em tudo. “Você será nossa protagonista de novo” e ela então representaria a Rainha Rita, mulher de Chico Rei, ao lado de Neca da Baiana, que deu vida ao monarca africano. Dias depois, Arlindo entregou o croqui para Isabel, que se encantou com tanta opulência que saltava dos traços do cenógrafo – a promessa era a de que a dupla teria a fantasia mais bonita do desfile. À época, se dizia que o homem forte do Salgueiro não passava por bons bocados em seus empreendimentos, mas que não media esforços para a confecção da fantasia de sua esposa, um dos maiores investimentos da escola. 

O sucesso do minueto de Mercedes Baptista, na vitória do Carnaval que passara, fez com que Arlindo Rodrigues tivesse a ideia de implementar outros grupos coreografados no decorrer da apresentação. Aos olhos do carnavalesco aquilo seria um sucesso e surpreenderia a todos; a bailarina, sem muita convicção, topou a proposta e passou a ensaiar o grande contingente de entusiastas que compunham as alas. Os ânimos se aqueceram naquele pré-carnaval após declarações do ex-salgueirense e então diretor de carnaval da Portela, Nelson de Andrade, dizendo que somente a azul e branco de Madureira poderia tirar o título do Salgueiro e que Chico Rei seria convidado para assistir ao casamento de D. Pedro I (o enredo portelense seria “O segundo casamento de D. Pedro I”). Apesar das provocações, as apostas da turma tijucana estavam nas alas coreografadas e no maior número de figurantes já levado para um desfile de Carnaval. 

A trajetória de Chico Rei proposta no enredo da vermelha e branca era cercada de lendas e mistérios, conduzida por uma linha tênue que se confundia entre o real e o ficcional. Contava-se a história do monarca do reino do Congo, escravizado, trazido ao Brasil e que aqui posto para trabalhar na mineração, mas que conseguiu – escondendo pó de ouro por entre seus cabelos – comprar sua alforria e liderar uma resistência contra a escravidão, ao edificar a Igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz, onde abrigava negros livres. Para isso, a escola do morro do Salgueiro contou com um samba-enredo feito por três pilares da agremiação: ficou sob a responsabilidade de Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Binha a composição daquele que é considerado por muitos como um dos mais icônicos sambas da agremiação, que ganhou vida na voz de ninguém menos que Noel Rosa de Oliveira.

Desfile do Salgueiro em 1964 sobre Chico Rei. (O Cruzeiro, 07/03/1964)

No dia 09 de fevereiro de 1964, lá estava posta na Avenida Presidente Vargas a oitava escola a desfilar, o Acadêmicos do Salgueiro. Defendendo o título, a escola adentrou a passarela eufórica e, logo no início do cortejo, apresentava três sambistas que delimitavam as fases da vida de Chico Rei que seriam apresentadas pela escola. Assim, o primeiro carregava a coroa que o monarca usava na África; o segundo, trajado com roupas surradas e algemado, delimitava o período em que foi escravizado e trazido ao Brasil; por fim, o último, com uma coroa, simbolizava seu período como um homem livre. E logo de início despontava Neca da Baiana como Chico Rei com a exuberante Isabel Valença como Rainha Rita, seguidos de um volumoso séquito, formando a primeira ala da escola. 

Na sequência do desfile, vinha a representação do navio negreiro cercado em suas extremidades por cinquenta escravizados de cada lado. A concepção do navio contava com o leme à frente, em seu centro o mastro e, na parte traseira, a âncora. Para dar o tal efeito cênico pelo qual Arlindo tanto prezava, havia, por entre os escravizados, cerca de quinze soldados portugueses com açoites nas mãos, forçando o ritmo da remada. O Salgueiro tomava a Avenida para si com uma cenografia impecável e com passos milimetricamente marcados. 

À frente do primeiro carro, um destaque muito bem vestido representava o fidalgo que comprou Chico Rei no Rio de Janeiro, ladeado por doze soldados, seguido de uma ala com aproximadamente cinquenta figurantes representando as damas e os nobres. Eis então que surge a primeira alegoria, “Séquito do Monarca”. O chafariz centralizava as atenções do elemento cenográfico, cercado por vinte mulheres e vinte homens escravizados que dançavam seguindo a coreografia. Para aumentar o efeito cênico e prender a atenção de quem assistia, os mais jovens começavam a jogar uma figuração de pó de ouro na cabeça dos mais velhos, em direta referência ao processo realizado por Chico. Já as mulheres, em uma coreografia mais elaborada, recolhiam o material para atirar no chafariz do pátio da igreja. 

O número de componentes na bateria comandada pelo mestre Bira havia aumentado em comparação com o ano anterior: dessa vez, cerca de 300 ritmistas ditavam o ritmo da vermelha e branca. No meio desse forte contingente de batuqueiros, a presença certa era do trio salgueirense Zeca da Cuíca, Neném do Pandeiro e Gargalhada. A honraria de defender o pavilhão ficou por conta de um casal que acabava de se formar. Maria de Lourdes, que no ano anterior se destacou como porta-bandeira, chegava ao intrépido solo salgueirense para somar e fazer par com o mestre-sala Mário. 

A ala das baianas desfile do Salgueiro em 1964 sobre Chico Rei. (O Cruzeiro, 07/03/1964)

O cortejo seguiu e, representando a liberdade, a ala das baianas toma a cena em tons de branco. E, como manda o figurino, chega a estrela salgueirense… Paula do Salgueiro, a célebre passista com uma indumentária luxuosa, representando a riqueza de sua personagem, levanta o público que assistia à escola passar. Ao fundo da impecável apresentação da passista, vinha uma enorme alegoria, com mais de quatro metros de altura, que representava a Igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz, a qual foi construída pelo já liberto Chico Rei. Logo após a alegoria, um terceiro grupo de Mercedes Baptista se apresentava: o séquito de escravizados libertos. Uma festança da alforria fazia o desfecho daquele desfile, com danças, congada e batuque. O Salgueiro deixou a Presidente Vargas sob aplausos e gritos de “já ganhou!”. 

No dia seguinte, a apuração na Biblioteca Municipal, marcada para iniciar às 17h, definiu o resultado daquele Carnaval. Antes mesmo de começar, os jornais destacavam Salgueiro, Portela e Império como favoritas. Entretanto, circulavam algumas críticas ao desfile apresentado pela escola de Arlindo, sobretudo pelo excesso de teatralização e coreografias marcadas e rígidas que passavam longe da leveza de uma escola de samba. Na apuração, quem levou a melhor foi a Portela de Nelson de Andrade, enquanto o Salgueiro garantiu um vice-campeonato com gosto um tanto quanto amargo, principalmente para Arlindo Rodrigues, que cogitou até mesmo desistir do Carnaval. 

No pós-carnaval daquele ano, Fernando Pamplona retornava da Alemanha e, em conversa com o ainda cabisbaixo Arlindo, muito decepcionado com o resultado obtido, fez suas considerações. Apoiado pelos jornais, que diziam: “O Salgueiro exagerou. Isso já não é mais uma escola de samba, mas um teatro ambulante” (Jornal do Brasil, 27/02/1964), Pamplona afirmou que seu pupilo havia errado a mão, considerando que três grupos coreografados eram demais para um desfile carnavalesco. Mesmo contrariado, Arlindo assumiu para si a culpa que havia recaído sobre Mercedes Baptista: “ela só coreografou o que pedi”. Apesar de abatido, Pamplona conseguiu convencer Arlindo em dar continuidade ao trabalho. Agora a dupla estava restabelecida para o Carnaval do ano seguinte.