Salgueiro 1962 – O Descobrimento do Brasil

Por João Gustavo Melo

Logo do enredo de 1962 imaginada por Rodrigo Cardoso.

 

Em 1962, os tambores do Salgueiro bateram para lusitanos, Netuno, sereias, caravelas e para os povos originários de Pindorama. A mesma escola que fez a Romaria à Bahia, que cantou as dores do Navio Negreiro, a luta de Zumbi e a arte de Aleijadinho, tratou de entoar a epopeia da invasão lusitana, abraçando acriticamente “O Caso do por Acaso” (que viria a ser o enredo de 1995) numa visão épica sobre o “Descobrimento do Brasil”. Era de fato um enredo ufanista, com samba cheio de lara-rás, que se encerrava com a bela melodia que só um gênio da estirpe de Geraldo Babão poderia conceber: 

Quanta beleza se encerra
Nesta linda terra de encantos mil
Recordamos mais um trecho de glória
Da História do Brasil

Mas o que marcou mesmo o período pré-carnavalesco de 1961 foi uma baixa terrível para a agremiação: a saída surpreendente de Nelson de Andrade. Responsável pela revolução no comando salgueirense, Nelson deixou um vácuo de poder, logo ocupado por outra figura que faria história na agremiação: o polêmico Osmar Valença. O dirigente ocupou a presidência da vermelha e branca nos anos áureos de títulos e carnavais inesquecíveis da escola. Entretanto, a gestão de Osmar foi bastante questionada por Fernando Pamplona e equipe ao longo de todo o período em que esteve à frente da alvirrubra tijucana.  

Para o desfile de 1962, Arlindo Rodrigues assumiu o comando artístico da escola devido à saída de Pamplona, em solidariedade a Nelson de Andrade. “Pedi ao Arlindo que ficasse pra segurar o nosso Salgueiro, uma vez que ele não tinha, como eu, compromissos com o Nelson”, conta o artista na autobiografia “O Encarnado e o Branco”. Logo após o desfile, que deixaria o Salgueiro com a terceira colocação, Pamplona passaria dois anos na Europa, em viagem pelo prêmio recebido no Salão de Arte Moderna.

O enredo “O Descobrimento do Brasil” surgiu após a estreia do espetáculo homônimo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A obra era baseada na composição formada por quatro suítes de Heitor Villa-Lobos, que inclusive haviam servido de trilha musical para o filme “O Descobrimento do Brasil”, de Humberto Mauro, lançado em 1936. O espetáculo apresentado no Municipal tinha coreografia de Tatiana Leskova e Eugenia Fedorova. A cenografia era do premiado Gianni Rato e os figurinos foram assinados por Bela Paes Leme, conforme detalha Haroldo Costa no livro “Salgueiro, Academia do Samba”. Arlindo encantou-se com as coreografias, o balé e a visualidade do espetáculo e partiu para a Avenida em busca de um título para o Salgueiro.

O enredo foi dividido em três partes: a despedida de Portugal, a viagem e a chegada. O Jornal O Globo de 2 de março de 1962 revelaria algumas surpresas do desfile. “Na primeira parte, os descobridores se despendem do rei e do povo de Portugal, numa bela coreografia de alas acenando lenços brancos; dominando o cenário, a figura imponente de Dom Manuel, o Venturoso. Na segunda parte, “A Viagem”, uma caravela da época singra os mares e as fantasias dos sambistas lembram o mito dos monstros marinhos. Encerra o enredo um carro alegórico com uma cópia fiel da estátua de Pedro Álvares Cabral. É a chegada em terras brasileiras. Soldados portugueses desembarcam e oferecem dádivas às índias morenas. Estava descoberto o Brasil”. 

Assim, o Salgueiro manteria o conceito de “samba cênico”, ou seja, um carnaval-show que vinha apresentando desde 1959. A intenção era aproveitar o brilho da luz artificial sobre as criativas fantasias e alegorias de Arlindo Rodrigues. Mas o que a escola não poderia prever era o desfile sob a luz do dia, devido a um grande atraso na exibição das escolas anteriores. Outro fator que prejudicou o Salgueiro foi a invasão da pista, tomada por cerca de um milhão de espectadores que se espremiam na Avenida Rio Branco para verem as agremiações. O balé folclórico de Mercedes Baptista, representando uma tribo indígena feminina, Paula do Salgueiro e a pouco conhecida Isabel Valença, vestida de Rainha Maria de Castela, roubaram a cena. 

A ala de índias coreografadas por Mercedes Baptista (Revista O Cruzeiro, 24/03/1962)

Enquanto isso, Nelson de Andrade passava a dar expediente na Portela. A escola de Natal viria com o enredo “Rugendas ou Viagens Pitorescas Através do Brasil”, de autoria do próprio Nelson de Andrade. Jogando com as armas salgueirenses que encantaram o júri em 1959, ao falar de Debret, Nelson de Andrade dedicou ao pintor alemão um desfile inspirado nas obras que retrataram o Brasil do século XIX na expedição comandada pelo Barão de Langsdorff, enredo da Estácio de Sá em 1990. Além da Portela, outro destaque foi a passagem comovente da Estação Primeira de Mangueira com o lendário samba “Casa Grande e Senzala”. 

Mas na batalha entre Salgueiro e Portela, Nelson de Andrade e Natal levaram a melhor. Os estreantes Osmar Valença e Arlindo Rodrigues tiveram que se contentar com um terceiro lugar, que veio com sabor de frustração. Ainda não era dessa vez que o Salgueiro descobriria a vitória sozinho. O título de 1960, “Quilombo de Palmares”, havia sido dividido com outras quatro agremiações. Para os salgueirenses, ganhar um título incontestável era questão de honra. E de tempo.

A destaque Isabel Valença já brilhou pela Academia em 1982 representando uma monarca portuguesa.

 

Para Arlindo Rodrigues, o tema “Descobrimento do Brasil” foi recorrente e uma espécie de amuleto. Além de ter sido apresentado no Salgueiro em 1962, o “notável artista que encenou a história” – como Arlindo foi anunciado em um dos tripés da Mocidade Independente de 1990 – desenvolveria o mesmo enredo 17 anos mais tarde. “O Descobrimento do Brasil” daria à Mocidade Independente, em 1979, o primeiro título da sua história entre as escolas do grupo de elite do Carnaval carioca. Veio o campeonato para a verde e branca, mas também vieram outros prêmios: Arlindo ainda viria a faturar o Estandarte de Ouro de melhor enredo.

Mas “O Descobrimento do Brasil” foi também a obra inacabada de Arlindo. Em 1987, o artista estava empenhado em encenar um espetáculo à imagem e semelhança do que vira no Municipal em dezembro de 1961. Não deu tempo. Arlindo morreu naquele ano sem ver sua obra derradeira no palco. Deixou o samba e o mundo dos espetáculos no Brasil órfãos das suas criações geniais. Ficou a lembrança da descoberta na manhã nublada de março de 1962, ocasião em que os tambores da tribo salgueirense bateram para saudar cruzes de malta, caravelas e cabrais. Um aperitivo para a vitória arrasadora no ano seguinte, em que a vermelha e branca se encantou com a Xica-que-manda e seu séquito de extravagâncias. 

Ali sim, o Salgueiro descobriria a glória.