Reflexões – Theatro Municipal e as escolas de samba

Por Marcelo Pires

Quando fui chamado para escrever sobre a relação entre o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e o desfile das escolas de samba, confesso que fiquei animado, mas ao mesmo tempo tenso por saber que é uma relação antiga, profunda e fecunda. Fora isso, entrou como um dos dilemas meu lado emocional, pois além de serem duas das maiores paixões da minha vida, devo ao Municipal a minha existência. Sim, sou fruto da construção do Theatro. Meu bisavô paterno veio do Norte de Portugal para construção desse prédio incrível. Aqui, ele conheceu minha bisavó, casou, a família se expandiu e cá estou.

Inaugurado em 14 de julho de 1909, o Theatro logo se tornou o epicentro do que se convencionou chamar de “Bela Época” do Rio de Janeiro. A então capital federal fervilhava com novas ideias e se transformava na cidade apelidada de “maravilhosa”. Recebia as maiores estrelas internacionais da música e da dança: Maria CallasRenata TebaldiArturo ToscaniniSarah BernhardtBidu SayãoIgor Stravinsky, Nijinsky, Pavlova e Nureiev, dentre tantos nomes. Em 1931, passa a contar com seus corpos estáveis: orquestra, coro e o fabuloso corpo de baile fundado pela grande bailarina russa Maria Olenewa. A criação desses corpos artísticos seria fundamental na relação com o Carnaval, assim como a criação do corpo técnico que dava suporte para as produções estrangeiras e depois para as do próprio Municipal. Grandes iluminadores, cenógrafos, figurinistas, aderecistas e pintores de arte surgem do Municipal.

Em 1931, é criado um comitê para tornar o Rio de Janeiro uma grande capital de turismo, tendo como principal vitrine o Carnaval. A comissão cria o baile oficial da cidade do Rio de Janeiro, que se realizaria até 1975 nas dependências do Theatro. A realização desse baile voltado para as elites carioca e brasileira influenciaria diretamente toda a festa de Carnaval do Rio de Janeiro e a própria cultura da cidade. Realizado sempre na segunda-feira de Carnaval, ele passou a fazer parte do imaginário da população. 

O baile renovou e criou algumas tradições que até hoje permanecem no que conhecemos como Carnaval. A decoração sempre foi um ponto alto do evento, assim como era a decoração das ruas do Rio, criminosamente esquecida. Em princípio, o cenógrafo era contratado pela prefeitura do então Distrito Federal e, por isso, por muitos anos o vencedor foi o grande Gilberto Trompowsky. O cenógrafo foi responsável por decorações como a de 1938 (“Uma noite no Oriente”) e 1940 (“Uma noite medieval”). Mário Conde também foi responsável pela cenografia do Theatro, sendo dele as decorações de 1951 (“Reino de Netuno”) e 1952 (“O Reinado de Momo). Já na década de 1950, com a vivência do período democrático, a pressão por um concurso para a decoração fez efeito e mesmo em um primeiro momento sendo uma disputa fechada, começaram a aparecer outros cenógrafos vencedores. Burle Marx fez 1956 (“Abstrações”) e Fernando Pamplona – olha ele aí! – foi responsável pelas decorações de 1957 (”Praça Colonial”) e de 1958, com a mitológica “Alegoria Afro-brasileira”, que definiria toda a estética das escolas de samba nos próximos anos. Em 1959, outro cenógrafo do Municipal que nunca frequentou a Escola Nacional de Belas Artes é o vencedor: Arlindo Rodrigues, já trabalhando seu vocabulário próprio em “Arlequinadas”. Ubi Bava, Lito Cavalcante, Nilton Sá, Maria Carmen e Rosa Magalhães também estão entre os vencedores desse concurso, um dos mais importantes das Artes Plásticas do país. 

A visibilidade do baile era enorme. As revistas O Cruzeiro, Manchete e os principais jornais da época cobriam desde o concurso até a sua realização final, que contava com presenças internacionais. Kirk Douglas foi vestido de Spartacus – e, conta a lenda, foi apalpado por um fã mais afoito. Além dele, houve a presença de Rock Hudson, Romy Schneider, Charles Aznavour… Outro ponto alto do baile que repercute diretamente nos desfiles de escolas de samba é a criação do concurso de fantasias ainda na década de 1930. O primeiro campeoníssimo foi Clovis Bornay, mas outros grandes nomes surgiriam: Evandro de Castro Lima, Mauro Rosas, Marlene Paiva, Gilda de Abreu, Madalena Santos e as maravilhosas Isabel Valença e Mercedes Baptista.

Muito se fala na importância – inegável – da Escola de Belas Artes na história do Carnaval, mas essa participação se dá principalmente por intermédio do Theatro Municipal. Quando Fernando Pamplona é chamado para fazer o Salgueiro em 1960, ele é convidado dentro do Theatro e leva consigo Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, todos funcionários da cenografia do Municipal. Durante as décadas de 1940 e 1950, procurava-se fazer produções de cunho nacional como os ballets Salamanca do Jarau, Maracatu do Chico Rei, O Espantalho e O Descobrimento do Brasil, ballet de quatro atos coreografado por Tatiana Leskova e Eugenia Feodorova que daria origem ao enredo do Salgueiro em 1962. Essa preocupação pela temática genuinamente nacional é levada para o desfile das escolas. Nesse pedaço da história, aliás, não podemos jamais esquecer a figura de Joãosinho 30. Chegado do Maranhão para dançar no Corpo de Baile, logo passa a colaborar no que fazia de melhor: cenografia. Essa escola de cenógrafos é que vai levar a ideia de ópera popular para o desfile, tornando um espetáculo com uma estrutura mais definida tanto na forma quanto no conteúdo de enredos. É importante também ressaltar que o conhecimento técnico da construção de cenários e figurinos é levado para a construção dos desfiles. Nomes até mesmo desconhecidos mais que enriqueceram os saberes do fazer Carnaval. Volto a mencionar o grande João, quem começa como aderecista e se transforma em um dos fundamentais nomes da história da arte do país.

Os grandes campeões de fantasia também não só passam a fazer parte dos desfiles como também se tornam mais tarde peças fundamentais na construção de algumas escolas. Clovis Bornay assina o desfile do Salgueiro em 1966, “Amores Célebres do Brasil”, quando a equipe de Pamplona e Arlindo se afasta momentaneamente da escola. Outro momento marcante é quando Isabel Valença se torna a primeira integrante de uma escola de samba a vencer o concurso de fantasias com a belíssima roupa criada por Arlindo Rodrigues para o Carnaval de 1964, que teve como enredo Chico Rei. A roupa de Rainha Rita ajuda a tornar Isabel, já conhecida pela Xica da Silva do ano anterior, como uma figura da mídia nacional. Tal como Xica, Isabel quebrou barreiras e os locais historicamente destinados a ela, misturando a personagem que encarnou com sua própria vida.

Além da cenografia, outra ala do Municipal que veio para fazer história nos desfiles foi a dos bailarinos do Corpo de Baile. A história pode começar com a pioneira em vários sentidos: Mercedes Baptista, primeira bailarina preta do Municipal e grande criadora do ballet negro brasileiro. Ela começa sua participação no Carnaval de 1960, levada pelo Pamplona, mas é no Carnaval de 1963, em que coloca seu grupo para dançar um minueto em ritmo de samba no já citado Xica da Silva, quando seu nome torna-se uma grande referência para o público. Se já existiam alas coreografadas nas escolas de samba, Mercedes eleva o sarrafo e mistura todo seu conhecimento de dança clássica e folclórica a serviço do Salgueiro.

Tatiana Leskova, primeira bailarina do Original Ballet Russo de Diagliev que ficou no Brasil quando aqui esteve durante uma excursão, várias vezes participou das reuniões do Salgueiro para a escolha de enredo. Ela, que se tornou um dos maiores nomes da dança no Brasil, era muito amiga de Pamplona e do Arlindo e sempre foi uma entusiasta dos desfiles. A Tatiana, agora com 98 anos completados em 2020, deixo aqui minha homenagem.

Os bailarinos do Municipal que já frequentavam e desfilavam foram os responsáveis pela nova roupagem das comissões de frente. Podemos falar de Suzana Braga, nome pouquíssimo lembrado, mas que, no final dos anos 1980 e no início dos 1990, foi a responsável pelas comissões de frente do Salgueiro, tendo recebido o Estandarte de Ouro em 1990. Seu trabalho, se bem observado, já tem a forma que seria o padrão das comissões dos anos posteriores. Fábio de Mello, por sua vez, mesmo não sendo formado pelo Municipal, lá dirigiu inúmeros espetáculos. Ele eleva a forma proposta por Suzana a uma sequência de comissões antológicas na Imperatriz, realizadas em parceria com Rosa Magalhães. A título de curiosidade, o pai do Fábio foi durante muitos anos relações públicas do Salgueiro.

Diversos outros nomes do Corpo de Baile do Theatro Municipal, a principal companhia de ballet do Brasil no Carnaval carioca, comprovam a importância desse espaço para o Carnaval. Hélio e Beth Bejani, Marcelo Misailidis, Sérgio Lobato, Denis Grey (grande bailarino), Ana Maria Botafogo, Priscilla Motta e Rodrigo Negri, Claudia Mota, Ghislaine Cavalcanti, Alice Arja, Nora Esteves… Todos esses nomes, sejam como coreógrafos, sejam como integrantes do Corpo de Baile ou como ensaiadores de casal de mestre-sala e porta-bandeira, são responsáveis pelo aprimoramento técnico dos quesitos. 

Outro curioso ponto, que merece mais estudo, é a participação de integrantes do Theatro Municipal no corpo de jurados. Desde sempre, figuras do Theatro são convidadas para o julgamento. É sua visão que irá ser refletida nas notas que irão influenciar a feitura e os rumos do Carnaval. A participação do Pamplona no júri do Carnaval de 1959 já é conhecida, mas deve sempre ser lembrada por ser um momento de virada dos desfiles. Muito antes dele, porém, alguns nomes importantes já tinham participado do julgamento. Mercedes Baptista, por exemplo, já havia sido jurada no Carnaval de 1955. O maestro Mozart Araújo, Belá Paes Leme, Tatiana Leskowa, Nina Verschinina, Berta Rosanova, Johnny Franklin, dentre outros nomes, todos ligados diretamente ao Theatro Municipal, foram jurados. Atualmente, a maioria do corpo dos quesitos comissão de frente e mestre-sala e porta-bandeira são oriundos da casa.

Como alertei no início, esse tema é muito rico e caro para mim. Essa pequena introdução serve para que vocês despertem pulguinhas, como diria minha querida amiga Daniela Name, e ajudem a contar essa história tão importante e rica para nossa festa maior.