Reflexões – A Revolução Isabel

Por João Gustavo Melo

 

Ilustração de Jorge Silveira.

Em 1964, o Brasil resolveu trajar-se de quepe, farda e coturno no baile macabro da ruptura democrática. Em 1º de abril, dia da mentira, instaurou-se um Carnaval de horrores, cuja fantasia da estabilidade política escondia a face autoritária, violenta, elitista, cínica, retrógrada e patriarcal de um autêntico golpe de Estado. A desculpa era a presença de uma assombração imaginária chamada “comunismo”. Tal como um fantasma feito de lençol branco com dois furos toscos cortados à tesoura no lugar dos olhos, o inimigo foi costurado com linhas de sangue no imaginário popular. Tudo feito para que parte da imprensa, do judiciário, da porção conservadora da sociedade e de outros agentes civis dessem a chancela para que militares boçais instalassem um regime ditatorial “provisório” que duraria mais de duas décadas.

Se de um lado emergiu a política golpista sem rodeios de um Brasil fraturado em seus próprios mecanismos de atraso e desordem, por outro o Carnaval carioca instaurava uma nova ordem de verdade. Uma revolução chamada Isabel. Uma mulher negra, casada com um bicheiro, que vivia em seu próprio país das maravilhas. Rainha que, no alvorecer do fatídico 1964, ainda vivia as glórias da consagração do Carnaval anterior. 

Como toda revolução de fato, há os antecedentes que a legitimaram. O desfile campeão do Salgueiro no Carnaval de 1963 não deixava a cidade esquecer Xica da Silva. A escola participou de diversos eventos ao longo do ano, com muitas aparições de Isabel Valença em festas e solenidades que fizeram desabar a ruptura temporal entre os carnavais de Xica da Silva (1963) e Chico-Rey (1964). Ou seja, foram praticamente dois carnavais emendados para Isabel. Com o crescente prestígio após o sucesso de Xica da Silva, a desfilante realizou uma potente reviravolta, afirmando seu reinado pelo poder do glamour. A conquista do título de melhor fantasia na categoria luxo feminino no Baile de Gala do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1964, proporcionou um abalo irreversível nas estruturas do Carnaval carioca.

Considerado um dos eventos mais aguardados do período carnavalesco, o baile do Municipal “tinha seu ponto alto no concurso de fantasia surgido em 1936”. Participavam do certame “figuras como Clóvis Bornay, Zacharias do Rego Monteiro (conhecido por suas fantasias de pierrô), Paulo Varelli, Evandro de Castro Lima, Marlene Paiva e Wilza Carla, [que] tornaram-se nacionalmente conhecidas e comentadas”, como conta o professor Felipe Ferreira, no Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. 

Importante advertir que Isabel Valença não apresentou no concurso de 1964 a famosa fantasia de Xica da Silva, mas sim o traje com o qual desfilaria pelo Salgueiro naquele ano, denominado “Rainha Rita de Vila Rica” ou “Rainha Cambinda”. A batalha que Isabel travaria na passarela havia sido adiada em um ano: a participação da destaque salgueirense no certame já era preparada desde o ano anterior pelo costureiro Carlos Gil, conforme nota veiculada no Correio da Manhã de 23 de fevereiro de 1963: “Tão entusiasmado está o artista com sua obra que é seu pensamento, com aquiescência dos diretores da escola, inscrever ‘Chica da Silva’ no concurso do Baile do Municipal”. 

Mas antes da consagração no Municipal em 1964, Isabel Valença protagonizou uma guerra pública aos olhos vigilantes da imprensa. Sob o título “Preconceito de fantasia no Municipal”, o Jornal do Brasil estampava na capa da edição de 7 de fevereiro de 1964 a notícia de que “os organizadores do Concurso de Fantasias do Teatro Municipal negaram a inscrição ontem da fantasia Vila Rica, de Isabel Valença, a mulata que fez o papel de Chica da Silva no Salgueiro, no ano passado, sob o pretexto de que o Teatro não podia admitir fantasias já exibidas em desfiles de rua”. 

Mas, no dia seguinte, a direção do Municipal voltou atrás e confirmou a inscrição de Isabel Valença. Segundo Haroldo Costa, no livro Salgueiro: Academia do Samba, a peleja se resolveu por meios políticos. “O governador Carlos Lacerda estava inaugurando uma caixa d’água no morro, quando a professora Sandra Cavalcanti, que fazia parte do seu secretariado, deu-lhe o jornal para ler”. Costa complementa a informação dizendo que “na mesma hora, fazendo uma declaração pelas emissoras de rádio que estavam presentes à cobertura, ele ordenou que fosse aceita a inscrição de Isabel Valença”. 

Era uma guerra inédita e uma revolução pela persistência. Nunca uma componente de escola de samba havia concorrido à melhor fantasia de luxo na passarela do Theatro Municipal. Entretanto, a popularidade de Isabel era tamanha que a recusa da sua inscrição teve grande repercussão popular. E havia uma notória paridade de armas. Afinal, a fantasia da destaque salgueirense não deixava nada a desejar em termos de luxo e opulência aos demais trajes que tradicionalmente se apresentavam no Baile de Gala do Theatro Municipal. O arsenal estava posto à mesa: se Xica da Silva havia custado um milhão e trezentos mil cruzeiros, a Rainha Rita de Vila Rita era orçada em cinco milhões e seiscentos mil. A indumentária consumiu, segundo reportagem estampada na capa do Segundo Caderno do jornal Correio da Manhã de 13 de fevereiro de 1964, 100 metros de pluma, 50 metros de strass importado, 20 metros de lamê ouro, 8 metros de lamê prateado, 500 cristais da Tchecoslováquia, além da coroa e da peruca. 

Armada de um rico figurino e de um carisma inegável, Isabel partiu confiante para o front. A façanha foi registrada em detalhes por Haroldo Costa, contribuindo para alimentar o mito da destaque que cada vez mais se cristalizava como um dos grandes nomes do Carnaval.

“Como era de hábito, por volta da meia-noite o baile parava para a apresentação das fantasias vitoriosas nas diversas categorias. Na maioria das vezes, os foliões manifestavam uma certa hostilidade, mas naquela noite foi diferente. Quando o coordenador do desfile, Antônio Ribeiro Martins, anunciou Isabel Valença com sua fantasia premiada, o salão inteiro, sem que ninguém ordenasse ou comandasse, começou a cantar Chica da Silva. Foi um grande momento, desses que marcam a memória e o sentimento das pessoas”. 

Autor da dissertação Laroyê Xica da Silva, o pesquisador Leonardo Antan, mestre pelo Programa de Pós-graduação em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, juntou os vestígios de relatos da época e criou uma atmosfera perfeitamente crível a partir do sentimento de Isabel após se consagrar como a grande vencedora do Concurso de Fantasias de Luxo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro: “Aquela vitória era por causa de Xica. Isabel sempre soube. Sua vida seguiu o rumo que Xica desenhou para ela. Todos reconheciam Isabel nas ruas, lhe cumprimentavam e gritavam. E, mais do que isso, era a vitória das escolas de samba no palco do Teatro Municipal”.

Mas a aprovação da vitória de Isabel Valença entre as demais concorrentes – que apresentaram fantasias inspiradas na mitologia greco-romana, folclore internacional e personagens da história universal – passou longe do consenso. Segundo Haroldo Costa, a atriz e veterana dos concursos, Wilza Carla, que desfilara com a fantasia “Sinfonia de Inverno”, teria se dirigido em fúria para Osmar Valença, marido de Isabel, e dito: “Negro de escola de samba não pode ganhar no Municipal”. 

Haroldo Costa completa a informação dizendo que Wilza Carla teria proferido a polêmica frase como um “desabafo impensado”, mas, segundo o autor, Isabel Valença teria ficado bastante magoada. A tensão ocorrida entre a atriz e Isabel Valença poderia causar futuras rupturas entre os participantes dos concursos de fantasia no Theatro Municipal e os componentes das escolas de samba. Mas o que se deu foi justamente o contrário.   

O rompante de raiva da atriz não encontrou eco nos meios de comunicação. O primeiro lugar da fantasia Rainha Rita de Vila Rica ganhou destaque em diversos periódicos – como foi o caso da edição do Correio da Manhã, de 13 de fevereiro de 1964, capa 2º Caderno – e foi classificado pela desfilante como “uma vitória do samba, que após descer o morro e dominar o asfalto, levou também, de vencida, a elite que frequenta a nossa principal casa de espetáculos”. No campo “inimigo”, Isabel ganhava a guerra.

Na edição de 12 de fevereiro, o jornal O Globo trouxe uma reportagem de meia página dedicada ao Baile de Gala do Municipal, cujo título era “Em noite de esplendor o Municipal consagrou a rainha do Salgueiro”. Da passarela da Presidente Vargas para a passarela dos concursos de fantasias, Isabel mais uma vez despertou o interesse dos grandes veículos de comunicação, chegando ainda a estampar as capas da Revista Manchete de 29 de fevereiro de 1964 e O Cruzeiro de 07 de março de 1964. 

A conquista no Theatro Municipal e a grande repercussão nas capas e páginas dos periódicos abriram a guarda para outro fenômeno: se Isabel penetrou num espaço antes destinado à chamada “elite” carioca, os participantes dos concursos de fantasia iriam “invadir o território do sambista”, isto é, migrariam das passarelas para a avenida dos desfiles das escolas de samba. Um fenômeno antecipado pelo jornal Correio da Manhã de 23 de fevereiro de 1964 ao prever que “ano que vem, Evandro Castro Lima, Clóvis Bornay, Jorge Costa, Paulo Melo, Paulo Valença, Wilza Carla, Nuncia Miranda e Eulália Figueiredo, entre outros, deverão estar no asfalto da avenida Presidente Vargas no grande desfile de domingo gordo, ao lado de Isabel Valença”. 

A presença de artistas ligados ao Theatro Municipal nos desfiles, como Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, somada à participação de uma destaque negra de escola de samba nas trincheiras elitizadas dos concursos de fantasia, provocaram um fenômeno de trocas simbólicas em que diversas camadas culturais se misturam em manifestações carnavalescas. 

A vitória de Isabel Valença no concurso de fantasias do Municipal constituiu-se em uma revolução que afetou tanto os desfiles das escolas de samba, quanto os concursos de fantasia de luxo. O evento abriu território para a entrada de uma nova “tropa” de adeptos aos carnavais da Avenida, com a presença de nomes das passarelas que começaram a participar ativamente das escolas de samba, seja como carnavalescos, seja como destaques. 

Dali a pouco mais de um mês, o Brasil entraria em uma guerra contra o estado democrático de direito. No vale tudo político, as ditas revoluções têm cheiro de enxofre e bolor. Mas no Carnaval as grandes rupturas se dão com reis e rainhas emergidos do povo. E Isabel foi isso: um ciclone avassalador de transformação, feminino e atrevido como toda pulsão revolucionária.