Reflexões – Laroyê Xica

Por Leonardo Antan

Jorge Silveira, Laroyê Xica da Silva, 2020.

Não há um retrato definitivo de Xica da Silva. Mesmo assim, ela é uma das personagens mais conhecidas da história brasileira. Famosa no imaginário popular, a trajetória da negra que subverteu sua condição de escravizada para se tornar parte da elite do período colonial foi contada e recontada numa infinidade de produtos culturais. Apesar disso, nenhum retrato se tornou definitivo a ponto de gravar seu possível rosto. Assim, como uma espécie de entidade, lidar com Xica da Silva é lidar com uma sombra, uma imagem turva no espelho. Ao mesmo tempo que a enxergamos, não conseguimos decifrá-la totalmente. Sua imagem segue nebulosa, aurática.

Segundo consta historicamente, Francisca da Silva incorporou pela primeira vez em terras brasileiras entre 1731 e 1735, mas provavelmente em 1734, no arraial do Milho Verde. Era parda, filha da escravizada Maria Mina e do capitão Antônio Caetano de Sá, militar branco e de elevada posição social. Sua história é a síntese do colonialismo, atravessado pelo machismo e racismo. Antes de se casar com o lendário contratador, foi comprada ainda pelo médico Manuel Pires Sardinha, com quem teve seu primeiro filho, nascido em 1751.

Pouco depois de desembarcar no Tijuco, em setembro de 1753, João Fernandes comprou a escravizada Francisca Parda. O que teria feito o contratador se encantar a ponto de se ligar a ela sem nunca procurar uma mulher de sua condição social? Que faísca acendeu quando João e Francisca se encontraram? Não houve testemunhas.

Francisca recebeu a alforria pouco depois. Os dois jamais se casaram oficialmente, porém o lugar de concubinato na sociedade mineira era corriqueiro. Num lugar distante e inóspito como o Arraial do Tijuco, as mulheres brancas e de “boas famílias” eram pouquíssimas, sendo o concubinato uma prática convencional, apesar de criticada pela moral da época. Estas relações eram as únicas formas de alforrias para as mulheres negras, apesar de permanecerem estigmatizadas socialmente. Da relação entre os dois, vieram treze filhos – um número impressionante que ajuda a cair por terra a visão sexualizada e de instabilidade relacional que foi construída da escravizada. Outro fato é que João nunca teve dúvidas da paternidade de seus filhos, legitimando todos.

A única maneira de diminuir a desclassificação social e o estigma que sua origem lhe conferia era dispor dos mesmos mecanismos de sobrevivência e promoção dos brancos. Francisca se vestia bem, frequentava a Igreja e participava da vida social. Na Chácara da Palha, promovia festas, saraus, apresentações musicais e peças de teatro. Mandou erguer igrejas em seu nome, cuidou da educação de seus filhos e filhas, quase todos frequentadores de importantes instituições de ensino da região.

O relacionamento entre Francisca e João durou dezessete anos, entre 1753 e 1770. No Tijuco, mesmo com a partida do marido, Francisca não perdeu o poder que conquistara a muito custo, permanecendo integrada à elite local. Era possuidora de diversos imóveis e um alto número de escravos. Seu enterro se deu na tumba de número 16 da Igreja da Irmandade de São Francisco de Assis, tornando-se merecedora dos ritos de sacramentos funerários da ordem dos brancos e poderosos, afirmando assim o reconhecimento social que alcançou.

A história oficial, escrita pelos letrados e poderosos, não perdoou uma mulher que se impôs, uma negra que rompeu com a senzala, uma alforriada que ousou ser nobre, uma atrevida, uma revolucionária. Ao subverter o que lhe foi imposto, o nome de Francisca sobreviveu aos apagamentos e intrigas. Sobreviveu ao racismo e ao machismo. Mais do que personagem de uma cidade de Minas Gerais, seu nome se transformou em ícone cultural.

Após sua morte, Francisca continuaria na “boca do povo” do nordeste de Minas Gerais, na oralidade e no imaginário popular local. Algumas décadas depois, o primeiro a ouvir a risada de Francisca, já desencarnada em pomba-gira, foi Joaquim Felício dos Santos, em 1868. Em “Memórias do Distrito Diamantino”, materializava os registros, então informais, sobre a personagem que começaria a se tornar a Xica da Silva imortalizada no imaginário brasileiro. A descrição física realizada por Santos beira o grotesco, reforçando, aos olhos de hoje, o cruzamento de tantos preconceitos enraizados no imaginário da época, ainda sim na complexidade de verdades construídas e inventadas, o livro se torna fonte primária da personagem, ajudando a construir a imagem que se popularizaria mais de um século depois.

Francisca, ou Xica, fascina, independentemente do juízo de valor que se atribua de acordo com sua época e seus valores morais. Francisca foi heroína, mulher de seu tempo que soube driblar as amarras impostas e articular seus desejos e saberes para além das imposições e condições de uma mulher negra de então, filha de mãe escrava e pai português. O tempo tornou Chica ou Xica – seja qual for a grafia – personagem e transmutação da mulher negra escravizada do século XVIII. 

Seu rosto real segue desconhecido. 

Para nos lembrarmos dela, pensamos em Zezé Motta, Isabel Valença e Taís Araújo, as intérpretes que a incorporaram e permaneceram com sua figura como uma espécie de encosto. Foram apenas algum tipo de “cavalos”, que emprestaram seus corpos para que o espírito de Xica se manifestasse. Sempre com enorme sucesso, filmes, novelas, romances e desfiles de escolas de sambas reinterpretaram a trajetória da personagem, esfumaçando as fronteiras entre realidade e lenda, transformando-a num ícone da cultura pop brasileira. Xica da Silva é entidade que baixa na arte e nos terreiros do Brasil, assim como as diversas divindades surgidas no fervor do caldeirão da cultura afro-ameríndia. 

Xica é muitas, nunca uma só ou dona de uma verdade absoluta

Pode ser a força feminina contra o sistema patriarcal ou o exercício da liberdade sexual, mas também a reafirmação da sexualização do corpo da mulher negra como propriedade. A mulher da risada faceira e do gingado sensual pode ser um signo nada exemplar da vulgaridade e do desregramento moral, mas, exatamente por trás destes atributos, é possível que seja vista como signo libertário do padrão normativo dos corpos. Tal qual uma pomba-gira, as intérpretes de Xica costumam expressar a sensualidade e a feminilidade de uma corporeidade libidinosa, tornando-se maus-exemplos da conduta moral judaico-cristã, indignas pelo racismo estrutural que atravessa a sociedade brasileira.

Como uma pomba-gira, Xica gargalha e impõe seu próprio corpo marcado pela colonização e apropriação.

Portanto, se Xica pode ser uma pomba-gira, foi Isabel Valença a primeira médium a incorporar seu espírito. Não por acaso, aconteceu em meio à encruzilhada da Presidente Vargas com a avenida Rio Branco, nas proximidades da Candelária. Uma quizomba acontecia com direito a batuque e empolgação. Era o desfile da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, em 1963. 

A incorporação da entidade por Isabel Valença não só faria delas celebridades, mas marcaria a popularização da personagem como mito nacional. Se para alguns dos estudiosos sobre a personagem  este marco é atribuído ao filme dirigido por Cacá Diegues, o próprio diretor do filme lançado em 1976 assume que o desejo de contar a história da “mulata” só aconteceu após descobrir sua existência por meio da apresentação salgueirense. E não é à toa que isso nos leva a um outro caminho desta encruzilhada. O desfile do Salgueiro em 1963 era não só a história dessa mulher, mas um ponto de virada fundamental na linguagem dos desfiles das escolas de samba. Ou seja, por um lado foi um desfile que criou uma personagem brasileira chamada Xica da Silva. Por outro, está um desfile revolucionário para a história da festa como linguagem e a noção de espetáculo, consolidando um processo de popularização dos desfiles. 

Xica nunca foi besta. Por isso, escolheu uma das manifestações culturais mais potentes do país para se manifestar. As escolas de samba viviam um momento de muita transformação e popularização naquela década de 1960, sendo observadas não só por cariocas, mas por turistas estrangeiros e gente do Brasil inteiro. Espaço de negociação e transformação da cultura brasileira, o carnaval iria fixar um imaginário sobre a personagem, influenciando uma série de outras obras que vieram depois.

Deste modo, quando Xica apareceu, não mudou só apenas a sua história, mas também o rumo do carnaval inteiro. Inspirou mudanças e conquistou a “massa”. Foi um ótimo negócio: o Salgueiro queria conquistar o campeonato e a pomba-gira conquistar novos admiradores. Deu certo para os dois. Se hoje a vermelho e branco da Tijuca é lendária por ter revolucionado o carnaval e se tornado pioneira, também foi por causa dela.

Era uma visão teatralizada possível para os cortejos das agremiações, haviam figurinos inspirados no tempo histórico representando, em um enredo sendo contada narrativamente com início, meio e fim. Havia a Ala do Minueto, que trazia uma nova atração para aquele espetáculo, com passos-marcados para representar a corte oitentista de uma cidade colonial mineira. 

Ao alinhar tantos saberes artísticos e tensões culturais, a “Xica da Silva” proposta por Arlindo Rodrigues e incorporada por Isabel Valença seria a primeira grande “imagem” produzida por uma escola de samba a se fixar no imaginário popular e ganhar repercussão digna de entrar nas grandes enciclopédias da História da Arte Brasileira. Ela se torna símbolo não só da popularização das escolas junto à sociedade como um todo, mas também do cânone a ser reinterpretado e reinventando por quem pensou Xica da Silva depois. 

A partir do desfile salgueirense, surge no imaginário uma Xica exuberante, majestosa, entre o carnavalesco e o caricato. Pensando essa transformação, as escolas de samba aparecem como protagonistas da cultura e da arte brasileira no papel de grandes catalisadoras dos costumes e desejos de sua época, lugar de ressignificação e construção de símbolos e personagens potentes. Dando, assim, base para entender o carnaval como lugar de ressignificação do cotidiano, transformador, criador e divulgador de imagens marcantes. Uma pesquisa na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional é exemplar nesse sentido. Antes do desfile salgueirense de 1963, as menções à personagem nos veículos de imprensa escrita são poucos, aumentando mais de 200% após sua aparição na folia. 

É neste trânsito cultural que se estabelece a personagem de Xica da Silva e sua associação com o carnaval. O imaginário de uma negra exuberante, majestosa, entre o carnavalesco e o caricato, seria acoplado às suas representações futuras. Nesse aspecto, as escolas de sambas aparecem como protagonistas da cultura e da arte brasileira e grandes catalisadoras dos costumes e desejos de sua época. Por isso, a imagem de Xica do Salgueiro se torna cânone, difundindo uma personalidade carnavalesca, subversiva e exuberante – tanto que os demais autores responsáveis por reinterpretar a personagem foram contaminados por essa criação.

Xica da Silva é personagem mitológica fundadora da nacionalidade negra. Foi atravessada pelo racismo colonial inaugurador do Brasil e também o subverteu, tornando-se mito. Apesar disso, pouco tem sido relembrada e celebrada em meio às pautas de diversidade, feminismo e antirracismo que vem sendo tão amplamente discutida hoje em dia em diversos cenários. 

O que tem feito Xica ecoar tão pouco nos dias de hoje? Como não enxergar na personagem uma potência subversiva do sistema colonial machista? Como não pensar na sua revolução silenciosa, marcada não pela luta direta, mas pela reapropriação dos signos colonizadores? 

A chave para tentar entender esse “esquecimento” é o mesmo elemento que a popularizou: Xica é carnavalesca e popularesca. Como objeto da cultura de massa, passou por um processo contínuo de renegociações e construção de significado. Tal qual uma obra de arte pop, sua reprodução excessiva pode ter enfraquecido sua imagem, como um xerox gasta. O que para alguns pode parecer o esvaziamento de seu significado. 

Muitas foram as operações e transformações da personagem desde sua primeira incorporação até agora. Qualidades e defeitos de seu imaginário são reinterpretados de acordo com seu tempo, mas sempre acompanhadas de um rastro carnavalesco, reafirmando a importância do cortejo salgueirense como construtor fundamental do imaginário da personagem, que foi se contaminando e se ressignificando em novas representações.

O processo de recriação da história de uma ex-escravizada por signos culturais tão diversos, abriu o terreiro para Xica baixar na cultura brasileira. Carnavalesca, popularesca, massiva, faceira, luxuriosa, recatada, submissa e sádica. Se essa potência ambígua pode ser encarada como um problema, sua representação tão produtiva e marcante é extremamente potente para ressinigifcar uma mulher negra da história brasileira, que atuou subvertendo o sistema para se empoderar dele. Xica é contraditória, assim como a formação brasileira, marcada por apagamentos e violências.

Quantas mentiras e verdades ainda existem sobre Xica da Silva?

Quem ainda pode ouvir a gargalhada desta pomba-gira?