Reflexões – O destino de um rei 

Por João Vitor Silveira

Obra “Chico Rei” de Hebert Amorim.

Em alguns contextos, é possível encontrar no destino uma resposta para os caminhos que perpassam a trajetória de alguns indivíduos que caminham sob o firmamento. É ainda mais raro quando esse destino desenha essas linhas pelo caminho da realeza, definindo um traçado complexo e corpóreo, que não permitiu que a adversidade, a dor, a violência e crueldade pudessem lhe derrubar do posto que merecia ocupar, e levar embora na água salgada, seja das lágrimas ou do mar, a realeza daquele que é Rei por direito, e por destino. 

O seu caminho vem de longe, apesar das canções, dos contos e das lendas que se contam ao seu respeito terem seio forte em solo tupiniquim, sua história começa antes mesmo da atual Ouro Preto assim se chamar. Sua trajetória começa em África, onde o destino havia se feito cumprir, e a liderança de Galanga era conhecida e exercida no reino do Congo. Como o próprio Salgueiro narrou em 1964, o reinado no litoral africano tinha seu traço de hospitalidade e de honra na labuta, representados no símbolo ordeiro de seu Rei.

Mas ainda que conservasse a honra no seio de seu reino, a harmonia se encerrou frente à invasão portuguesa. A paz que uma vez reinara se findou, ao passo que os corpos negros, que tinham em Galanga um símbolo e Rei, foram vilipendiados e sequestrados do seu lugar, da sua essência, e foram obrigados a fazer a travessia no “Madalena”, um dos navios responsáveis por oferecer transporte para a morte ao cortar as águas do oceano. A travessia não lhe furtou apenas a coroa que, com orgulho, trazia sobre a cabeça  no Congo, mas também lhe removeu pedaços de sua própria alma. 

Durante a viagem agonizante, sua mulher, a rainha Djalô, e sua filha, a princesa Itulo, foram atiradas ao mar por seus captores, lançando as mais profundas chagas na alma de Galanga. Além de sua esposa, sua filha e sua coroa, também perdeu parte de seu séquito, outros seguidores que também foram capturados pelos portugueses, e também encontraram, no fundo do oceano, talvez um destino mais gentil que os grilhões associados ao trabalho forçado nas minas de Vila Rica. Junto à Muzinga, seu filho, e aqueles dos seus que sobreviveram à penosa travessia, Galanga chegou ao Brasil. 

Ou melhor, talvez Galanga tenha entrelaçado seus dedos com os de Djalô, e tomado sua filha Itulo uma última vez nos braços, antes de mergulhar na profundeza do oceano. Quem carregava o sangue real do Congo,  já não era Galanga, mas Francisco, renomeado antes de rumar para a Mina da Encardideira, propriedade de Major Augusto, em Vila Rica, atual Ouro Preto. Dos trabalhos forçados que eram impostos ao negros que foram escravizados, talvez o trabalho nas minas de ouro fosse o mais cruel e desgastante, que mais atingisse o corpo e a alma daqueles homens; e com Francisco não foi diferente, mas uma esperança, uma fé e uma visão lhe deram o caminho. 

Quais os caminhos guiam um Rei de volta ao trono? Talvez a primeira pedra deste paavimento fosse a condição para edificar seu novo reino. E se esse percurso é  de pedras, ter em seu caminho a visão de Santa Efigênia era a indicação de que o destino de fato lhe reservava a grandeza, e de que seria pelo caminho do ouro que Francisco, à altura já apelidado de Chico, poderia reencontrar a sua coroa frente aos seus seguidores. Talvez não fosse Midas, mas Chico era capaz de, em meio à dor e ao sofrimento, encontrar alternativas para transformar seu calvário em ouro. 

Junto dos seus, tomava o pó de ouro e recolhia-o sob as unhas, além das pequenas pedras que trançava e escondia no próprio cabelo. Ao final do dia, fugindo das águas salgadas que lhe levaram a coroa e parte de sua alma, lavava os cabelos nas águas doces, que lhe traziam as ferramentas para que pudesse ser alçado novamente ao seu posto de direito, posto para o qual estava destinado a chegar. Depois de acumular o montante necessário, comprou a sua alforria e a de seu filho. Mas não se fazem Reis sem reinos, e valendo-se das dívidas de Major Augusto, comprou a Mina da Encardideira e, conforme ganhava posses, foi comprando a alforria daqueles que chegaram consigo ao Brasil, e deu vida novamente ao reino de Galanga, mas dessa vez o portador da coroa era “outro”. 

Era Chico Rei. 

E o verdadeiro rei, cuja coroa de ouro que levava à cabeça era feita do trançado clandestino, ainda que justo, do ouro em seus cabelos, não esqueceu das pedras que formaram o pavimento para a sua trajetória. Deu prosseguimento à sua devoção por Santa Efigênia, além da associação e devoção à Nossa Senhora do Rosário, erguendo igreja homônima. Ali naquele espaço, era possível que o reinado de Chico Rei continuasse, e que se festejasse todos os anos o papel que ele havia desempenhado em restituir a liberdade aos seus súditos. 

E todo ano, durante os festejos, era coroado novamente o Rei do Congo. Ali, naquele breve momento fugaz, tal qual um navio pesqueiro, aqueles homens e mulheres que seguiam o Rei, conseguiam chegar ao fundo do oceano e resgatar o homem que ficara para trás. Naquele breve momento, Chico era novamente Galanga, e, em comunhão, ambos eram coroados em seu reinado sobre Vila Rica. Chico Rei. Galanga Rei. E assim foi, até que Chico Rei, que havia desbravado os caminhos da guerra contra os portugueses, vencido a viagem nos tumbeiros, perseverado nas minas, encontrou seu descanso aos 72 anos, e pode se reunir em plenitude com Djalô e Itulo, abençoando o reinado de seu filho. 

Mas, predestinado que só, acostumado com a necessidade de dividir a sua alma para atender as demandas necessárias, o fez uma vez mais. E esse fragmento de sua alma persiste por todo o país, se manifestando com força em alguns momentos especiais da nossa cultura. Talvez o mais potente deles seja a congada, que toma as mais diversas cidades do Brasil, preservando um legado de resistência, um legado cultural e uma conexão com os ancestrais. E, não há a menor dúvida, toda vez que há uma coroação nos festejos da Congada, Chico Rei é novamente coroado. 

E se falamos de coroação, é possível não comentar como o Torrão Amado coroou a realeza negra do Salgueiro? Ora, o que mais seriam os dois anos seguidos de homenagens? Primeiramente coroaram a nossa rainha Xica da Silva, abrindo os caminhos também para que Chico e Galanga, em uníssono, fossem coroados nosso Rei. E não poderia ter sido coroado por outras palavras que não fossem as belas palavras de Binha, as palavras carregadas de sentimento de Geraldo Babão, e claro, as palavras carregadas de ancestralidade de Djalma Sabiá.