Noel Rosa de Oliveira – O poder de um sobrenome

Por João Vitor Silveira

Qual é a primeira coisa que vem à sua mente ao ler “Noel Rosa”? 

Não lhe culpo se for a imagem daquele homem caucasiano, com seu terno branco bem alinhado, trazendo no colo o violão que era tocado com maestria, com o qual deu vida a diversas composições, revolucionando o próprio significado do que é ser sambista e alterando de forma significativa a relação do carioca com a cidade. Mas saltar sem pensar duas vezes na primeira coisa que vier à cabeça ao ler essas duas palavras pode não ser a melhor opção, principalmente se o impulso lhe fizer esquecer um complemento que pode estar logo ali:

“de Oliveira”

É impressionante a força que um sobrenome pode ter. E não falamos aqui dos que dominam os altos escalões das empresas e corporações, daqueles presentes constantemente nas linhagens políticas ou dos que vêm acompanhados pela fama e pelo prestígio artificialesco criado a partir de caminhões de dinheiro, notoriedade “forjada” na naturalidade pouco natural dos processos da mídia hegemônica. 

Mas, quando colocamos a realidade sob a mira do holofote, podemos testemunhar a força de um sobrenome de gente de verdade, de gente preta, de gente que constrói esse país com seus ideais, seus pensamentos, seus braços, sua voz e sua caneta. Basta a força de um “Oliveira” para poder frear os impulsos da mente e fazer reconhecer a figura de que realmente nos dispomos a falar nesse momento, que tem grandeza ímpar e contribuição imensurável para o processo que conhecemos como Revolução Salgueirense. Pois se entregamos a batuta criativa desse processo a Pamplona, Arlindo, Nelson e tantos outros, a Revolução Salgueirense tem a voz de Noel Rosa de Oliveira. 

Cria do Morro do Salgueiro, se infiltrou no mundo do samba muito cedo ainda, frequentando as rodas de partido-alto que rolavam em frente à venda de seu pai, começando a ser considerado por muitos dali o mascote da galera. Começou sua trajetória como compositor aos 13 anos de idade, quando escreveu o “Adeus, minha companheira” para um bloco carnavalesco do morro do Salgueiro. Dali para frente, deu continuidade à sua carreira como autor de sambas em escolas como a Príncipe da Floresta, a Azul e Branco e a Depois eu Digo, tendo integrado a ala de compositores da última por cinco anos.

Mas sua trajetória ganhou força ao ingressar na Unidos do Salgueiro, atendendo ao convite de um amigo de seu pai, o grande Casemiro Calça Larga, integrando a ala de compositores da escola, onde também foi diretor de harmonia. Nessa época, Noel já trilhava um caminho de sucesso enquanto compositor, tanto com sambas de meio de ano, tendo, por exemplo, a sua faixa “Falam de mim” gravada pela dupla Zé e Zilda em 1948, como também nos sambas de enredo, tendo sido compositor do samba “Homenagem a Getúlio Vargas” em 1952 para a Unidos do Salgueiro. Permaneceu na escola até a fusão tripla que gerou o G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiro, participando ativamente da sua fundação. 

Sua trajetória, que até então já fora frutífera e bem fundamentada, ganharia novos voos em 1960. Neste ano, Noel Rosa de Oliveira iria se consolidar como a voz do que viria a ser conhecida anos depois como Revolução Salgueirense, mas também deixaria marcada de forma profunda a história do pavilhão branco e encarnado a sua caneta, em parceria com Anescarzinho do Salgueiro. Naquele ano, no qual o Salgueiro desfilaria com o enredo sobre o Quilombo dos Palmares, Noel veio a assumir o posto de intérprete da escola, tendo, ainda no mesmo ano, composto o samba que iria ser defendido na Avenida Rio Branco. 

A composição ganhou notoriedade naquele ano e a obra se consolidou na história salgueirense como um dos melhores e mais importantes sambas da agremiação. O papel de Noel Rosa enquanto compositor naquele período se notabilizaria ainda mais quando, em 1963, junto de seu grande parceiro Anescarzinho, teve seu samba escolhido para o histórico desfile de “Xica da Silva”. A disputa foi para lá de acirrada: várias contagens e recontagens foram feitas pelo júri responsável por tal decisão. De um lado, a parceria de Noel e Anescarzinho; do outro, estava a letra de um tal de Laíla, que se tornaria um grande nome da folia. A decisão foi tomada numa reunião no apartamento de Arlindo Rodrigues, na qual estavam presentes Fernando Pamplona, Isabel e Osmar Valença, Tatiana Lesvoka, entre outros. Depois de inúmeros empates, a decisão final ficou a cargo do mestre Pamplona, que deixou o resultado num envelope lacrado a ser aberto só na quadra da vermelho e branca, quando o professor já estivesse de volta à Alemanha. A escolha foi a confirmação da dupla, que ainda era vista com olhos desconfiados pelo título conquistado em 1960, dada toda a controvérsia da apuração. 

No ano de 1963, o Salgueiro iria trazer o escopo definitivo para as transformações que vinha realizando e parte essencial dessas transformações passaram pela caneta e pela voz de Noel Rosa de Oliveira. Enquanto compositor de samba-enredo, aquele fora o último samba conquistado na Academia, mas enquanto cantor, ainda emprestaria sua voz de timbre esplêndido por outros treze anos, defendendo o microfone salgueirense até o ano de 1977. Por isso, é importante ressaltar o papel desempenhado pelo sambista na Revolução Salgueirense, pois em meio a todo o processo de transformação realizado no período, teve como guia a bela voz de Noel. 

Seu sucesso como compositor, entretanto, não parou por ali. Ele ainda compôs diversos sambas de meio de ano de sucesso, que estouraram nas rádios e se perpetuaram ao longo dos anos. Um bom exemplo é a canção “O negrinho e a senhorita”, gravada originalmente pelo cantor Noite Ilustrada, mas que viria a ser conhecida também, em outras oportunidades, na voz dos totêmicos Elza Soares e Neguinho da Beija-Flor. Teve também sua composição “Água do Rio”, em parceria já notória com Anescarzinho, gravada por Elizete Cardoso, que também regravou “Vem Chegando a Madrugada”, cantada originalmente por Jair Rodrigues. 

Entre outros sucessos, Noel Rosa de Oliveira sempre foi considerado um dos mais primorosos melodistas do Salgueiro. São mais de 40 canções de sua autoria, entre as quais se destacam as parcerias com Anescarzinho e Zuzuca do Salgueiro, deixando, sem dúvidas, um legado forte na música popular da época. Para além do universo dos sambas de meio de ano, imprimiu para sempre seu nome na história do Acadêmicos do Salgueiro, dada a sua participação essencial para consolidar o período em que a branca e encarnada do morro do Salgueiro decolou e se colocou como uma das maiores escolas de samba do país. 

Quando a disputa pela notoriedade de seu próprio nome é tão grande, ainda mais contando com um homônimo de tanto peso quanto Noel Rosa, o do Salgueiro teve ao seu favor o poder do sobrenome.