Texto curatorial – bloco 2

Por Leonardo Antan, Alice da Palma e Ana Elisa Lidizia

Entre os anos de 1959 e 1961, os artistas do Acadêmicos do Salgueiro inauguraram uma revolução seminal para os rumos não só da história do carnaval, mas da cultura e da arte brasileiras. No entanto, foi apenas entre os anos de 1962 a 1964 que eles de fato colheram os louros. A agremiação alvirrubra conquistou o seu primeiro título solo da folia carioca e a repercussão que seus desfiles tiveram na indústria cultural do período foram inimagináveis para uma escola de samba de então. Ressoou a voz de sambistas como Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho, a beleza vigorosa de Isabel Valença, os passos célebres de Mercedes Baptista e das Irmãs Marinho, os traços primorosos de Arlindo Rodrigues. Foi ele um dos grandes revolucionários do período – eram suas as propostas artísticas que guiaram o time salgueirense exitoso mundo afora. Sem o líder Nelson de Andrade e o loquaz Fernando Pamplona, foi Arlindo quem orientou as temáticas dos desfiles Descobrimento do Brasil (1962), Xica da Silva (1963) e Chico Rei (1964), que são reinterpretadas neste bloco expositivo pelo traço de vinte e um artistas. Duas propostas díspares se reuniram no interesse de construir uma nova discursividade negra e um enredo eurocêntrico, fazendo que tanto a grande História quanto as pequenas histórias aparecessem juntas ao teatralizar a festa do povo.

Inspirado na ópera homônima (1937) do compositor modernista Heitor Villa-Lobos (1887-1959), deu-se o primeiro desses desfiles, Descobrimento do Brasil (1962). Se é o figurino que data o desfile – Arlindo propôs essa máxima -, reunimos na mostra indumentárias de artistas do carnaval de diferentes gerações, como Rosa Magalhães, Ricardo Hessez e Rafael Gonçalves, que se somam para repensar o período. Este cortejo, de caráter histórico, ainda se alinhava a uma narrativa oficial, representada também no quadro neoclássico de Oscar Pereira da Silva, Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500 (1922). O próprio título do enredo deixa evidente isso: Descobrimento. É como se o território que viria a se chamar Brasil não existisse antes dos invasores europeus aqui aportarem. É justamente esse cânone da historiografia tradicional que o artista Matheus Ribs quer desagregar em Flechas para descolonizar (2020), imagem em que uma caravela, símbolo da invasão apresentada no desfile, é atacada por flechas de fogo oriundas do território que ainda não existe. Ecoa a pergunta: é possível descobrir um território que já existe, que já é casa para milhões de pessoas? As flechas gritam não. Descobrir é invadir, colonizar é matar. Quando os portugueses aqui chegaram, viviam neste solo mais de 5 milhões de indígenas; hoje não chegam a 900 mil. No lugar de uma bandeira que ostenta as cores de uma monarquia invasora, Ribs propõe KilomboAldeya (2020), devolvendo simbolicamente esta terra aos que aqui foram perseguidos e exterminados – e que seguem sendo. Brasil, terra indígena. Brasil, terra quilombola.

Nas Minas Gerais, onde a invasão e o domínio portugueses prosperaram em sua faceta mais cruel com a exploração de ouro e diamante, duas vozes negras ecoaram, rompendo a escravidão e o controle de seus corpos. Xica da Silva e Chico Rei reinaram no Tijuco e em Vila Rica. Francisca da Silva de Oliveira se tornou Xica para quebrar suas correntes, para tornar-se sinhá de seu destino. No desfile de 1963, o Salgueiro incorporou as contradições desta mulher que trocou a senzala pelos salões, reunindo em seu séquito uma outra fidalguia possível. Xica da Silva ocupou espaços – salões e igrejas de brancos – não permitidos a corpos como o seu – preto de ex-escravizada alforriada -, vedados também aos corpos dos membros da escola de samba que cantou sua história. Na avenida do carnaval carioca, pretos vestiram roupas pomposas e dançaram o minueto, como nos mostram os figurinos de Rafael Gonçalves e o gesto de resistência da figura de Mauro Quintaes.

São dos corpos e perspicácia de duas mulheres negras que exaltaram-se as duas imagens mais emblemáticas do cortejo proposto por Arlindo Rodrigues em 1963. A primeira, é a do minueto salgueirense de Mercedes Baptista. O balé folclórico fundado pela artista nos palcos e que encenou essa dança na Avenida Presidente Vargas é re-apresentado nessa mostra pela fantasia dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora para o carnaval de 2020 no enredo Tatá Londirá: o canto do caboclo no quilombo de Caxias. A segunda imagem é a de Isabel Valença como Xica da Silva. A imponência do vestido caudaloso, da peruca emplumada e das joias deslumbrantes do figurino produziram uma sensação deslumbrante e que se fixou em imagem. A figura é reinterpretada por diversos artistas desta mostra, como Leandro do Vale, André Rodrigues, Rodrigo Dias e Alex Carvalho. O rosto de Valença foi reproduzido à exaustão nas capas de revistas e jornais, e ela teve seu sucesso consolidado no ano seguinte ao desfile, ao conquistar o restrito e elitista palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi desse mesmo palco que surgiram importantes decorações que transformaram a cidade ainda mais na capital cultural brasileira; Arlindo Rodrigues assinou várias dessas decorações de ruas carnavalescas. A figura do Arlequim (2020), de Rafael Gonçalves, transforma uma fantasia foliã em uma forma abstrata em referência aos totens coloridos que deixam o Rio mais carnavalesco.

Xica da Silva é uma pomba-gira da nossa cultura, como Jorge Silveira sintetiza em sua obra que une o universo da entidade afro-brasileira e da personagem mineira. Sua história de re-existência vive no girar de uma saia nas ancestralidades que atravessaram diversos tempos. É no traço de duas atrizes pretas que a personagem concilia contornos aparentemente opostos que se mostram complementares. A visão de Orádia Porciúncula nos lembra a personagem carnavalesca e exuberante construída pelo Salgueiro e reproduzida em filmes e novelas, mas Tassila Custodes, em Aparição de Xica da Silva (2020), constrói uma imagem potente na qual Xica não precisa negar sua negritude como forma de sobrevivência. Nesse mesmo sentido, Dalton Paula faz de sua Chica da Silva (2020) um retrato franco, uma imagem de uma mulher negra histórica, aristocrata ilustre.

É também desse cenário colonial e de re-existência contra o sistema escravocrata que surge o personagem do último enredo deste bloco: Chico Rei. Chamado de Galanga e rei no Congo, foi sequestrado e forçado a cruzar o oceano a bordo de um tumbeiro. Na travessia perdeu esposa – a rainha Djalô – e filha – a princesa Itulo – lançadas ao mar. Chegou, com seu filho Muzinga, ao Rio Janeiro em 1740. Foram levados por um Major para trabalhar forçadamente na Mina da Encardideira (que mais tarde também adquiriria). Batizado de Francisco, comprou sua alforria e a de seu filho, além de muitos súditos seus também sequestrados e escravizados, fazendo de Vila Rica (atual Ouro Preto) seu novo reino. Assim como Xica da Silva, sua imagem é lenda e realidade, contradição que se torna evidente ao se aproximar as obras de Hebert Amorim e Dalton Paula. Este, novamente – como fez com Chica da Silva – devolve a Chico, na forma ilustre do retrato, sua imagem de homem nobre. O legado de liberdade de Chico Rei não findou com a compra das cartas de alforria para seu filho e súditos escravizados, mas segue vivo ainda hoje em manifestações populares: congadas, maracatus e escolas de samba reconstroem os laços perdidos nas travessias oceânicas. Essas manifestações, filhas de um mesmo desejo de liberdade e comunidade, estão aqui representadas nas obras de Rafael Gonçalves, Mauro Leite e Pedro Neves. Em Black is king do morro (2020), Neves nos apresenta os soberanos da congada (também conhecida como reisado). Chico Rei renasce coroado ao lado da rainha Ginga (Nzinga) de Angola. Suas imagens são encarnadas sobre telhas, tão comuns em construções precárias, barracos que se tornam castelos para os reis pretos, que vestem sua realeza apenas para cortejos.

Real ou ficção, mitos ou verdades. Este bloco traz histórias que precisam ser re-contadas e foram ressignificadas pelo Salgueiro sessenta anos antes e seguem atuais, ecoando e produzindo novas narrativas.