Texto curatorial – bloco 1

Por Leonardo Antan, Alice da Palma e Ana Elisa Lidizia

Os desfiles do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro nos anos de 1959, 1960 e 1961 representam um marco na historiografia do carnaval carioca por inaugurar o período que ficou conhecido como a “Revolução Salgueirense”. Para além da estética inaugurada nesses desfiles, um outro traço os une: seus enredos. Nas três apresentações, a escola contou na avenida – à época, a Rio Branco – a história de um Brasil pré-independência, um território marcado pelas chagas do sistema colonial, da escravidão e da ganância de uma corte estrangeira. Mas o Salgueiro escolhe nos falar de resistência, presente seja no corpo indolente retratado por Debret, no aquilombamento e na criação do maior estado preto nas Américas ou na obra de um filho de uma mulher em situação de escravidão que se tornou um dos maiores nomes da história da arte do país.

As imagens nessa mostra atualizam e friccionam esses temas e o imaginário que eles suscitam. Como A Rede (2016), de Dalton Paula, em que o objeto-título – tão presente na obra de Debret – aparece sustentado por dois corpos pretos que, em direções opostas, não vão a lugar nenhum e tampouco carregam alguém, mas apenas sustentam uma linha, um fio. Chicote do Feitor (2020), de Jefferson Medeiros, atualiza, de forma incontestavelmente crítica, a herança mais sombria desse sistema, a perpetuação da subjugação de corpos racializados pela mão do Estado. A mesma crítica decolonial aparece em Moulage (2020), no qual Roberto Monteiro sobrepõe a estética afrogeométrica concebida por Fernando Pamplona diretamente em reproduções de obras do francês de seu famoso livro, criando uma deliciosa inversão. O olhar colonizador do artista etnógrafo homenageado pela Academia aparece ainda nos croquis de Rodrigo Dias e Jorge Silveira.

Cada escola de samba é também, em certa medida, um quilombo. Lugar de reconstrução dos laços fundadores perdidos na diáspora, renascimento coletivo e construção de saberes e trocas. Comunhão Quilombola – o Tríptico da Revolução (2020) mapeia figuras fundamentais da história do Acadêmicos do Salgueiro. Saudar as pessoas que fizeram essa história é louvar nossos ancestrais, reconhecer que não começamos em nós, mas sim em quem nos procede. Este é um preceito que toma boa parte das obras, as quais relembram nomes importantes da Revolução Salgueirense, como nos trabalhos de Jorge Silveira, Nicolas Gonçalves, Mulambö e Antonio Vieira. Salgueiro Abre Caminho! (2020), é assim, pedindo passagem aos que vieram antes que Cibelle Arcanjo, atualizando e resgatando o icônico desfile de 1960, “Quilombo dos Palmares”, que mudou para sempre a história das escolas de samba, sob a batuta de Nelson de Andrade, Nilton Sá, Fernando Pamplona e tantos outros nomes. Desfiando o enredo de Palmares nos deparamos com uma linha, um sorriso de mulher. Acotirene é seu nome. O Sorriso de Acotirene (2018) se constitui de diversos materiais simbólicos para os povos da África negra, como as cabaças, “potes de vida” que guardam em si o mistério da vida, da morte e da cura, e a palha, que representa a eternidade e faz parte da indumentária de orixás. O sorriso, que é também uma linha – é cordão, elo -, toma, então, proporções monumentais na obra de Mônica Ventura, já que apresenta não só a memória dessa mulher preta chamada Acotirene como também principalmente a liga a cada uma de suas filhas que hoje perpetuam seu legado de resistência e acolhimento. Porque quando Exu aponta a ponta de sua cabaça, transmite sua força vital. O legado da lendária guerreira aparece ainda em “Palmares de Acotirene”, nome da fantasia idealizada por Alex de Souza para o desfile “Senhoras do Ventre do Mundo”, do Acadêmicos do Salgueiro, em 2018.

A arte barroca influencia todo o pensamento de construção visual das escolas de samba. Em contato com essa movimentação, Ricardo Hessez e Leandro Vieira atualizam o legado de Aleijadinho em suas obras. Da mesma forma, em Frontispício (1988), Adriana Varejão recria a obra do mestre mineiro com suas pinceladas espessas. Ao invés da pedra ou da madeira, agora ela entalha em tinta, predominantemente azul e branca, como nos azulejos, de origem portuguesa. Toda a arte colonial, nos lembra a artista, estava a serviço de um interesse que não era o do povo desta terra, mas de outro, além-mar; servia ao colonizador. Costurar novas narrativas, como fez a Academia Salgueirense, é vital para não perpetuar antigos discursos e possibilitar a produção de novas subjetividades povoadas de afetos alegres.

Salve, Aleijadinho!

Salve, Acotirene e Zumbi, líderes palmarinos!

Salve, Salgueiro e sua revolução!