Isabel Valença

Por Beatriz Freire

Quando o termo “destaque” ainda não havia entrado exatamente para o dicionário das escolas de samba, Isabel Valença era, no dito popular, “o centro das atenções”. Sua relação com o Salgueiro, inicialmente, passava pela admiração que tinha pela escola, apesar do esposo, Osmar, ser um declarado mangueirense. Ainda que não se registre em pesquisas rápidas, Isabel foi uma foliã-desfilante da escola no carnaval de 1961. A relação com o carnaval veio desde pequena, quando saía fantasiada com a mãe e os irmãos na escola de samba Deixa Malhar, na Tijuca. No ano seguinte, em “O Descobrimento do Brasil”, ela já atraiu olhares na sua primeira vez em tal posição de destaque, representando Dona Maria, rainha de Portugal.

Em 1963, quando Osmar havia assumido repentinamente a presidência da agremiação, Xica da Silva já tinha representante escolhida: a atriz Zélia Hoffmann, veterana campeã dos concursos de fantasias do Theatro Municipal. Ela, no entanto, recusou o convite da escola para encarnar a grande dama do Arraial do Tijuco devido ao peso da fantasia concebida por Arlindo Rodrigues. Assim, Isabel, a Xica desejada desde sempre, teve de pedir licença aos seus orixás e ao seu pai de santo para adentrar a Avenida Presidente Vargas encarando nova personagem, já que tinha como certo o cumprimento de sua obrigação com Iansã e Omulu em seu terreiro, fato que impediu o convite prévio. O lugar de incorporar aquela personagem, porém, já parecia destinado a ela desde sempre.

Riqueza parece um termo insuficiente para descrever tamanha opulência que trajou Isabel em uma veste de cauda imensa, assinada pelo talentoso Arlindo Rodrigues e realizado pelo estilista Carlos Gil. A indumentária custaria facilmente o valor de uma uma moradia média àquela época. Osmar não tinha economias quando o assunto era o orçamento destinado à fantasia da amada.

Já era dia claro quando os olhos se voltaram sobre o vestido armado e a peruca de pra mais de metro que adornava a cabeça de Isabel naquele cortejo. O sol reluzia as pérolas e pedras que enfeitavam sua pesada fantasia. Aquele desfile consagraria a potência da mulher negra nessa nova face revolucionária dos desfiles: no mesmo ato, reinaram juntas, como entidades, Xica, Isabel e Mercedes. Transcenderam e permaneceram no imaginário popular para além do que se viu na ocasião. A representação de Isabel foi a mais perfeita precisa: além do luxo, a sua presença foi marcante o suficiente para garantir àquele cortejo uma imagem-símbolo, da qual ela era a protagonista. A simbiose entre atriz e personagem a fez se transformar na própria Xica da Silva de um tempo, estampando jornais e revistas de toda sorte. O Cruzeiro sintetizou esse processo: “Ela se chama Isabel Valença, mas desde o dia que fez sucessos no desfile (…) ganhou o nome da mulata (…) ficou sendo Chica da Silva. Para o grande público, para a família e até mesmo para o papagaio que tem em casa. Chica da Silva para todo mundo” (O CRUZEIRO, 07/03/1964).

No dia a dia, ainda era mãe e cuidava das tarefas domésticas. Mas nas ruas, só ouvia Xica da Silva por onde passava. Ao vestir seu uniforme dotado de magia, transformava-se na própria encarnação da rainha do Tijuco. As apresentações não pararam, mesmo tanto tempo depois do carnaval. Clubes, teatros e eventos sociais recebiam as comitivas do Salgueiro. Foram até o Maracanãzinho em competição internacional esportiva, e em uma outra oportunidade encontrou o ex-presidente Juscelino Kubitschek, e deslumbraram o Palácio Quitandinha em Petrópolis. Em qualquer lugar, o samba-enredo de Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho era ouvido. A letra ganhara uma gravação de Monsueto, fazendo enorme sucesso nas rádios de todo o país. O extenso calendário de eventos com a presença dos componentes do Salgueiro e da própria Isabel serviu para que o desfile se tornasse ainda mais popular e ganhasse uma “áurea mística”.

Mais do que vestida, Isabel foi uma mulher nascida para brilhar: em 1964, quebrou paradigmas ao ser a primeira negra a vencer um concurso de fantasias do luxuoso Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na categoria luxo feminino. Um golpe duro para as madames e modistas que dominavam a elitizada e racista cena carioca e os bailes de carnaval, ainda mais depois de ter sua candidatura inicialmente barrada, em um fato que depois foi revertido. Era impensável ter um elemento que servisse à cultura popular, ainda que tão opulento, num palco considerado nobre – e de ocupação para poucos. Se Xica da Silva havia custado um milhão e trezentos mil cruzeiros, a Rainha Rita de Vila Rita era orçada em cinco milhões e seiscentos mil. O traje consumiu 100 metros de pluma, 50 metros de strass importado, 20 metros de lamê ouro, 8 metros de lamê prateado, 500 cristais da Tchecoslováquia, além da coroa e da peruca, (CORREIO DA MANHÃ, 13/02/1964).

O sucesso se fez uma vez, e assim Isabel estampou capas das revistas Fatos e Fotos, O Cruzeiro e Manchete. Mas mesmo um ano depois, Isabel ainda era Xica da Silva, como nomeavam as matérias do período.

Isabel Valença segura o figurino de Xica da Silva.

A sua face de Xica, que seria retirada do armário mais uma vez para o carnaval de 1965, lhe rendeu a posição de verdadeiro ídolo dentro do Salgueiro. Em apenas dois anos, a “mulata que era escrava” foi celebrada – com outra fantasia – como um momento marcante na trajetória do desfile das escolas de samba, sendo, portanto, algo que os carnavalescos julgavam ser de fato memorável. Isabel Valença foi elevada pelos artistas salgueirenses à condição de história viva do Carnaval, vestindo-se de novo de Xica da Silva. Era impossível não atribuir à moça os louros pela conquista do campeonato. Ou melhor, dos campeonatos. Não era apenas sorte; Isabel, com conversas com Arlindo, confessou a sensação da presença da personagem, como uma verdadeira entidade – uma pomba-gira.

Nos anos seguintes, outras personagens vieram. Até mesmo quando Arlindo e Pamplona tiraram um ano sabático da vermelho e branco, ela protagonizou um momento icônico ao reverenciar os jurados da folia em 1966. A sua personagem em “Amores célebres do Brasil” seria a polêmica Marquesa de Santos, amante de Dom Pedro I, o que poderia causar certa polêmica em público conservador. Isabel nunca se diminuiu. Dizem, inclusive, que ela quase não desfilou certo ano, por achar seu figurino simples em demasia. Valença sempre queria mais; ela merecia mais.

Multifacetada, incorporou ainda personagens reais da nossa história como Princesa Isabel (67), Ana Jacinta de São José ou Dona Beija (68), Tia Ciata (70), Ana da Paz (71). Em 1974, outro figurino histórico e deslumbrante. A longa cauda da Rainha de Médici ladeado por vários súbitos daquela rainha, concebida por Joãosinho Trinta. Em 1975, novamente chama atenção como Rainha de Sabá no enredo sobre “As minas do rei Salomão”, também de Joãosinho. Durante a década de 1980, incorporou mais uma vez sua Xica da Silva em duas oportunidades, em 1984 e 1989, em enredos que falavam sobre a própria história do Salgueiro e sua ligação com a negritude.

O encantamento causado por Isabel a alçou a uma posição de prestígio no carnaval, em que marcou presença até 1990, ano de sua morte e de seu último desfile. Não era reduzida ao mero papel de esposa do então presidente, e sim o inverso: Osmar era conhecido como o marido de Isabel, querida dentro e fora da agremiação que tomou seu coração.