Irmãs Marinho

Por Marcelo Pires

Na grande constelação de estrelas salgueirenses, as Irmãs Marinho seriam as Três Marias: sempre alinhadas, brilhantes e com personalidade própria.

Mary (Maria Luiza), Norma e Olívia eram filhas de Carmen, porta-estandarte do famoso rancho Ameno Resedá, primeira mulher a ingressar no bloco Mulatinhos Rosados de Laranjeiras e cantora da Rádio Clube. Eram sobrinhas também da famosa Carminha Rica, uma das mais famosas folias do Cordão da Bola Preta. O Carnaval já estava no sangue, mas o caminho foi diferente do trilhado pela maioria dos passistas da época. Moradoras de Laranjeiras, estudaram no Colégio Franco Brasileiro e, por demostrarem amor e aptidão pela dança, foram matriculadas na academia de Maryla Gremo, primeira bailarina do Theatro Municipal e grande coreógrafa. Essa base clássica seria um diferencial na forma de elas dançarem.

Interessadas em todos os tipos de dança, Mary e Olívia integraram a mitológica excursão do Ballet Brasiliana, comandado por Haroldo Costa, primeiro namorado e depois eterno companheiro de Mary, que correu o mundo sempre com muito sucesso. Ao chegarem ao Brasil, com o acréscimo da participação de Norma, a mais nova das irmãs, começaram a participar dos shows de Carlos Machado. Como sempre se apresentavam juntas, nasce aí o nome artístico: Irmãs Marinho.

O sucesso foi enorme. Apresentavam-se como atração de grandes shows como Rio de Janeiro a Janeiro e Banzoe, apareceram no cinema em filmes de Grande Otelo e Ankito, além de realizarem importantes apresentações, como no Festival de Cannes e em um grande espetáculo no Waldorf Astoria, que foi transmitido pela tevê americana.

Quando chegaram às escolas de samba, já eram então muito famosas. Mary, que tinha se casado com Haroldo, e Olivia, que se casara com o grande cartunista e portelense Lan, se aproximam do mundo do samba e são convidadas a participar do desfile do Salgueiro em 1959, trazidas pelo visionário Nelson de Andrade. O trio também ganharia notoriedade na folia na noção de uma atração a mais dentro do desfile da agremiação, dando origens a outros grupos de dançarinos dentro das escolas que mais tarde se transformariam nos grupos de passistas.

Mary Marinho desfilando na apresentação salgueirense de 1964.

Já no Carnaval de 1964, Chico Rei, elas têm uma participação ativa, participando da famosa dança da lavagem dos cabelos. Esse desfile, devido ao sucesso histórico do minueto da Xica no Carnaval campeão de 1963, sofreu algumas críticas pelo argumento de que estariam tirando a espontaneidade do samba. Mesmo assim, o Salgueiro conquista a segunda colocação, colado à campeã Portela. Essa crítica, porém, se intensificou. A imprensa de Carnaval, majoritariamente branca e masculina, coloca a culpa na grande Mercedes Baptista, mas acaba sobrando também para as irmãs, sob a alegação de que elas não eram autênticas do samba. O preconceito de que sambista não é artista vem de longe. A polêmica foi sendo alimentada e, no Carnaval de 1965, em que se comemorou o quarto centenário do Rio de Janeiro, alguns cronistas chegaram a conclamar a que se vaiasse essas artistas.

O Salgueiro veio com o enredo sobre a História do Carnaval Carioca e, na hora de montar a escola, com a quebra do carro abre-alas, Fernando Pamplona tem a ideia de colocar as Irmãs Marinho, que estavam vestidas de arlequim, pierrot e colombina, para abrirem a apresentação logo após a comissão de frente, que veio com as famosas burrinhas (que viraram até referência no samba do Império Serrano de 1982). Mesmo com receio da possível vaia e cheias de coragem, as três vieram dançando como nunca. Como o povo não se deixa levar por intromissões de gente que prega o que deve ou não ser uma escola de samba, fizeram um sucesso incrível e contribuíram muito para a conquista do grande campeonato de 1965.

O trio histórico de dançarinas no desfile da alvirrubra na década de 1960.

As Irmãs Marinho desfilaram por mais 15 anos, sempre com muito sucesso. Depois de se aposentarem, repetiram a apresentação de 1965 no ano de 1986, quando a escola fez sua homenagem a Fernando Pamplona, com o enredo: “Tem que se tirar da cabeça aquilo que não se tem no bolso” (lema que Pamplona criara). Elas vieram com as fantasias com as quais desfilaram em 1965, logo após a comissão de frente composta pelos amigos do Pamplona, entre eles Lan e Haroldo Costa.

É muito importante falar que, mesmo formando um conjunto harmônico que dançava junto e, em alguns momentos, coreografado, as Irmãs tinham formas próprias de sambar e nos momentos propícios cada uma dava seu recado.

Mary era conhecida pelo passo chamado Bofetão, em que misturava o miudinho com o samba de roda: no momento que se está sambando para trás executa um breque e faz marcações próprias. Já Olívia realizava o samba de partido alto, em que, partindo do sapateado de samba, ela fazia uma parada brusca e começava a gingar como um malandro. Norma, por sua vez, dançava o samba rasgado e sempre com grande velocidade alternava o miudinho com o sapateado, variando o ritmo e causando interesse visual.

Essas mulheres maravilhosas fazem parte do panteão salgueirense e serão sempre amadas por quem viu ou ouviu falar de três irmãs que abrilhantaram o Carnaval do Salgueiro.