Arlindo Rodrigues – Uma revolucionário Doce

Por Leonardo Antan

Foi de modo discreto que Arlindo Rodrigues se tornou um revolucionário. As transformações oriundas do artista, embora com camadas de ruptura, foram atravessadas por doçuras e negociações.

Se Fernando Pamplona se tornou um dos grandes narradores a cristalizar o que teria sido uma Revolução Salgueirense, Arlindo seria o grande criador visual que estabeleceria as bases de um cortejo teatralizado e espetacular. Ambos formavam uma dupla que nasceu quando se cruzaram pela primeira vez nos bastidores do Theatro Municipal. Fernando era da reta, organizado, simétrico, ao tempo em que Rodrigues era da curva, da emoção, das nuances assimétricas. Um ideológico, o outro estético. Arlindo não era intelectual ativo como Pamplona. Sem formação acadêmica prévia, chegou no Municipal por indicação de um tio que trabalhava por lá como secretário, ainda que o talento para o desenho e o talento para o uso de cores sejam características frequentemente relacionadas ao carnavalesco.

A parceria com Pamplona no Municipal levou Arlindo ao carnaval. Assim que o parceiro foi chamado por Nelson de Andrade para fazer o desfile do Salgueiro em 1960, Arlindo logo participou das criações e seu traço já estava presente nos desenhos dos figurinos femininos da apresentação. Até então escondido, porém, foi ele quem ganhou palco quando os dois principais nomes da Revolução Salgueirense deixaram a vermelho e branco pela primeira vez.

Ao propor seu enredo para 1962, ficam evidentes escolhas e narrativas que interessavam a Arlindo partiam de outras matrizes diferentes das dos colegas. Ao invés de uma história afro-brasileira como nos anos anteriores, “O Descobrimento do Brasil” trazia a visão colonial e europeia da invasão portuguesa em terras tupiniquins. A despeito das críticas possíveis, a escolha se torna importante para entender o universo simbólico com o qual o carnavalesco gostava de dialogar. O enredo era inspirado numa ópera do fundamental modernista Villa-Lobos, da qual Arlindo fazia parte da equipe técnica, montada em dezembro de 1961. Há, então, o desejo de levar para a Avenida dos desfiles uma história teatralizada.

Esse mundo simbólico no qual Arlindo perambulava nos ajuda ainda a entender seus dois próximos enredos para a Academia, sobre os quais se podiam explorar um visual barroco e luxuoso, em extração de pedras preciosas de Minas Gerais. A Xica da Silva e o Chico Rei possuem cenários de base parecidos e muito propícios para se construir um visual opulento e colonial, em figurinos e imagens importadas desse universo, que passariam a ser representados de maneira fidedignas naqueles desfiles.

As escolhas de Arlindo faziam parte de seu repertório. Mais introspectivo e tímido, era uma pessoa muito diferente de Pamplona, longe do jeito descontraído e afirmativo do parceiro. Não tão assíduo de bares, a ideia para o desfile de 63 ocorreu quando ele visitou a recém-inaugurada boutique chamada Chica da Silva, de Kalma Murtinho, figurinista reconhecida que havia participado da fundação do teatro Tablado, com Maria Clara Machado, outra amiga do cenógrafo. A loja ficava em plena avenida Nossa Senhora de Copacabana e se tornou ponto de encontro entre arquitetos, decoradores, interessados em arte e estrangeiros simpatizantes da nossa cultura, oferecendo possibilidades nacionais para as mais charmosas tendências da época. Eram os anos 1960 e a nata cult carioca frequentava o ambiente.

A boutique de Kalma poderia render apenas aspecto anedótico a uma possível origem do conhecimento de Arlindo sobre a personagem, mas, em entrevista para o Jornal do Brasil, em 3 de março de 1963, após o Salgueiro ter conseguindo o campeonato, ele afirmou: “Sou muito amigo de Kalma Murtinho e ao visitar sua boutique, percebi que ela tinha o nome Chica da Silva, personagem que não conhecia muito bem. A partir do nome, procurei elementos de sua vida”. Juntando a declaração do carnavalesco com uma reportagem de Eneida de Morais no Correio da Manhã, a qual possuía tom elogioso à boutique, e considerando ainda a lista de seus frequentadores, nota-se que era mais do que uma simples loja. O espaço carregava consigo uma série de ideologias muitas próximas ao que Arlindo e Pamplona buscavam associar ao universo “popular” das escolas de samba. Além disso, foi a figurinista dona do comércio que sugeriu ao artista que procurasse o “Romanceiro da Inconfidência”, livro de Cecília Meireles que inspirou toda a concepção de visual afirmativo e imponente da Xica da Silva apresentada pelo Salgueiro.

Nesse período de construção da apresentação para 63, Pamplona não estava no Rio e Arlindo assumiu a liderança do desenvolvimento artístico daquele carnaval. Quando apresentou a ideia ao Fernando, a voz de trovão logo taxou a narrativa proposta como “enredo de merda”. E nem mesmo a argumentação de se tratar de um “enredo negro e de conquista social, tá na nossa linha… é bonito paca! Tem revolução pela alma, pela inteligência, a revolução dela é pelo amor!” foi capaz de fazer Pamplona, naquele instante, mudar de ideia. O resultado do desfile que se tornou seminal, no entanto, pode ter alterado os rumos da perspectiva de Pamplona.

Diferente do viés mais ideológico que sempre marcou o discurso do carnavalesco antecessor, a importância da beleza e do requinte foram ideias que guiaram o trabalho de Arlindo não só naquele momento como em toda sua atuação no carnaval. A importância de aliar uma narrativa social e afinada às discussões em voga com algo que pudesse oferecer, ainda sim, uma estética diferenciada, parecia ser a prioridade no discurso do artista. Se durante a trajetória de Arlindo a ideia de um barroco permearia seu traço, o ambiente da extração mineira, em que viveu Xica, é ótimo pano de fundo para desenvolver fantasias luxuosas e opulentas, marcando uma encruzilhada entre o sentimento barroco do carnaval da trajetória de Arlindo e a utilização de um mito barroco brasileiro, como Xica da Silva.

No enredo de Arlindo Rodrigues, Xica é apresentada como mulher de artes, fato reafirmada pela presença do minueto e do teatro. Para contar aquela história, Arlindo Rodrigues lançaria mão de elementos que repercutiram e se fixaram na histórica carnavalesca como inovadores, mas que de alguma maneira já estavam presentes, sendo cristalizados e reafirmados a partir de sua criação. Eles respondiam muito bem à nova espacialidade dos desfiles que ganhavam um palco ainda mais espetacular, a Presidente Vargas, e também à série de anseios e expectativas tanto dos seus pares intelectuais, como da mídia e da população interessada em consumir esse espetáculo.

Arlindo ressignificaria a pauta trazendo uma estética mais teatral e dentro do que uma classe média pudesse assimilar mais facilmente em um momento definidor do recém-criado estado da Guanabara. Os planos do antigo Distrito Federal em torno do controle e da mercantilização dos desfiles alinhavavam-se à projeção dessas escolas como produto da eterna “capital cultural” do país. Neste contexto, a resposta de Arlindo foi unir o discurso engajado a um show visual espetacular e impressionante, conquistando a massa, a intelectualidade e a mídia. Assim nasceu um Xica da Silva para o Brasil e o Salgueiro se tornou definitivamente uma escola campeã e histórica do carnaval brasileiro. Foi assim que Arlindo começou a estabelecer o luxo que hoje tanto associamos ao carnaval, marcando os desfiles como uma epopeia teatral que reúne dança, figurinos, cenários, boas histórias e muito samba no pé. No Salgueiro, iniciou essa trajetória de grande legado.

Até 63, é possível dizer que nunca um desfile de escola de samba tivera tanta repercussão como aquele. A história de Francisca da Silva extravasou os dias da folia e o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, espalhou-se pelo Brasil e ainda ecoou no exterior. Um dos frutos do sucesso é comprovado com a composição de Arlindo na equipe do filme “Samba”, com a atriz espanhola Sara Montiel, gravado no Rio de Janeiro no final de 1963. Uma das cenas mais icônicas da produção foi uma reprodução integral do desfile salgueirense daquele ano, com direito à recriação das alegorias e do famoso minueto. A diferença da ficção à apresentação original ficou a cargo da representante de Xica: enquanto no desfile ela foi representada por Isabel Valença, uma atriz estrangeira foi quem encarnou a personagem principal no filme, cantando, em português, o samba-enredo composto por Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho. O produto cinematográfico marca mais uma esfera de sucesso internacional na repercussão da apresentação campeã do concurso das escolas de samba daquele ano.

O maior louro de Arlindo Rodrigues, no entanto, foi sua premiação na categoria “Teatro” dentro da VII Bienal Internacional de Arte de São Paulo, como aponta o catálogo da edição, o qual destaca alguns figurinos do artista no Theatro Municipal e o desfile dos Acadêmicos do Salgueiro, entendido dentro dessa categoria. A reportagem do Correio da Manhã (03/10/1963) ressalta que o prêmio se deu graças à repercussão do desfile. A premiação marca um incomum reconhecimento das artes institucionalizadas com relação às escolas de samba, reafirmando mais um grande feito da repercussão e do prestígio que a apresentação ganhou no universo cultural brasileiro.

Com a vitória tão aguardada pelo Salgueiro, Arlindo se sentia não só realizado por dar aquele presente à comunidade salgueirense, mas também motivado a planejar algo ainda mais espetacular. Foi assim que Rodrigues tirou da gaveta um enredo que já tinha chegado a ser anunciado anos antes, mas que finalmente seria materializado: Chico Rei. A história havia surgida na viagem a Minas Gerais que Pamplona e Nelson tinham feito para pesquisar o enredo do Aleijadinho. Arlindo viu, então, um personagem perfeito para dar sequência à sua trajetória. Pediu para que Pamplona enviasse parte da pesquisa que havia feito com Nelson e, com essa base, mais uma vez ele liderou o visual da agremiação.

Buscando repetir a espetacular apresentação do ano anterior, o desfile salgueirense reproduzia uma série de elementos consagrados, mas sem o mesmo sucesso de antes. Segundo os próprios comentários da época, o desfile tinha acelerado demais o caminho de espetacularização então vigente, marcando um exagero mal compreendido pelos intelectuais. O processo fez de Chico Rei uma apresentação tão criticada, deflagrando uma ampla discussão sobre os rumos das escolas de samba e a noção de espetáculo. No contexto mais amplo, seria a primeira vez que o debate sobre a espetacularização dos desfiles seria apresentado como valor negativo, em contraposição à repercussão positiva da apresentação de 1963.

Em 1965, a volta de Fernando Pamplona junto a Arlindo marcaria um “passo atrás” no processo de transformações vigentes nas escolas de samba cariocas ao longo dos últimos seis anos. O desfile realizado na comemoração do quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro voltaria a apostar em elementos que dialogavam com o singelo e o popular, apesar de não perder a ideia de fantasias requintadas e bem desenhadas. Com menos coreografias, deixou-se de lado os bailados e as personagens suntuosas, apostando em imagens que apresentavam beleza e singeleza.

Em 1969, outra grande contribuição estética de Arlindo Rodrigues veio na concepção de uma alegoria que representava Iemanjá no desfile “Bahia de todos os deuses”. Toda decorada com espelhos cortados em círculos, a representação da divindade foi pensada pelo próprio Arlindo, trazendo pela primeira esse elemento visual, um dos recursos mais utilizados nos seus futuros trabalhos. O efeito teria sido tão deslumbrante que a tecnologia fotográfica da época não deu conta do efeito da alegoria. As fotos realizadas por um repórter da revista Manchete saíram borradas pelos reflexos causados pelos espelhos.

A contribuição de Arlindo também é fundamental na chamada “escola de Pamplona”, já que foi ele quem levou Joãosinho Trinta para trabalhar como aderecista no carnaval entre 1963 e 1964. O habilidoso artista ficou conhecido como Joãosinho das Alegorias e tem como grande feito as burrinhas que abriram o desfile de 1965 – em um marco histórico do que se compreende como comissão de frente – e a reprodução da orixá das águas marinhas concebida com Arlindo em 69.

Após sair do Salgueiro em 1972, Arlindo seguiu cumprindo uma carreira vitoriosa em várias escolas. Sua atuação está diretamente ligada a ideia da profissionalização da figura do carnavalesco como artista e autor. A participação na Mocidade Independente de Padre Miguel na década de 1970 deu uma visualidade competitiva que ajudou a escola a romper a barreira das “quatro grandes” em 1979. Posteriormente, foi ele o responsável a fazer o mesmo na Imperatriz Leopoldinense, que quebrou o bloco das ditas maiores escolas.

O carnavalesco foi o responsável pelos dois primeiros títulos das escolas verde e branco de Ramos e Padre Miguel. Em paralelo com a atuação de outros nomes campeões na década, como Fernando Pinto e Joãosinho Trinta, Arlindo seguiu atuando no crescimento ainda maior da espetacularização da festa, introduzindo novos materiais e aumentando a organização dos desfiles. Algumas das inovações atribuídas a Arlindo Rodrigues em sua atuação são a inserção de acetato, do metaloide e o início da confecção dos protótipos, peças pilotos que serviram para a reprodução das fantasias, marcando um cuidado maior com a elaboração dos desfiles.

Com um processo de padronização e amarração do carnaval, outra inovação pautada por Arlindo foi a unificação das alas. O procedimento era facilitado pela própria ideia comentada de protótipo a ser reproduzido, nas fantasias-piloto apresentadas à comunidade e replicadas de acordo com a peça original. Criou-se, assim, uma unidade visual ainda maior e um cuidado direcionado para todos os figurinos, proporcionando mais harmonia estética para as alas, que alçaram uma relevância mais profunda na narrativa do desfile.

Um curioso traço da trajetória de Arlindo foi a repetição de alguns enredos na sua carreira. Em 1979, o artista conseguiu o primeiro título da história da Mocidade Independente de Padre Miguel falando sobre… o “descobrimento” do Brasil, aqui já comentado. O tema foi o primeiro de Arlindo sem a presença magnânima de Pamplona no Salgueiro, em 1962, e se repetiu na estrela-guia. Posteriormente, Arlindo encontrou uma escola em que seu estilo se complementaria perfeitamente. Histórica e elegante, a Imperatriz Leopoldinense fez jus à sua forma de fazer carnaval, como rainha da Leopoldina, por intermédio das criações de Arlindo. O casamento deu dois títulos para a Imperatriz e durou cinco anos.

Na escola, Arlindo reimaginou histórias antigas. A Bahia que já havia sido contada pelo Salgueiro em 1969 ganhou ainda mais esplendor nos traços do artista. Explorando o estado que tem das mais belas igrejas barrocas do país, o carnavalesco mostrou que seguia vigoroso. Dando uma aula de ocupação da Avenida, ele imaginou enormes esculturas de baianas que giravam com seus tabuleiros na Sapucaí. Arabescos brancos, formas redondas tipicamente barrocas, sublimes anjinhos e arlequins também foram elementos comuns aos carros e tripés de Arlindo.

No ano seguinte, outra prova que Arlindo era fundamental cenógrafo que sabia como ninguém ocupar o espaço cênico da avenida: enormes cabeções remetendo a figuras do carnaval deram um visual lúdico a homenagem ao compositor Lamartine Babo. A narrativa seguiu o rigor histórico que Arlindo pregava, e começou com uma cegonha até o fim da vida do homenageado.

Outro dado curioso recorrente na obra do artista é a preferência pelo uso de manequins em suas alegorias, sempre muito bem vestidos e trajados, agregando ao tom solene e requintado de seu cortejo teatralizado. Ele abusou desse atributo tanto no enredo de 82 da Imperatriz quando no ano seguinte quando reimaginou uma de suas obras primas: Xica da Silva.

A história oficial ganhou ares de delírio. Nada da linearidade dita real da ex-escravizada, mas sim um delirante encontro entre Xica e o Rei da Costa do Marfim em Diamantina. No visual, as cores claras marcariam o desfile, além do uso de elementos chamados de rústicos, como a palha. As escolhas, no entanto, não perderam o luxo extravagante já fixado como característico da personagem. O imaginário africano trazido pela presença do Rei da Costa do Marfim seria abordado com alegorias que lembravam animais e a vegetação das savanas africanas.

Dentre diversos carnavais e diferentes propostas narrativas, Arlindo possui uma costura única e que perpassa sua trajetória. O barroco é o estilo de luxo e afirmação, das curvas, o esplendor do ouro. As construções desse estilo geram fascínio e deslumbramento. Não à toa, são esses os sentimentos que os desfiles de Arlindo provocaram a quem os assistiu. De Xica da Silva à Bahia, Arlindo é o grande criador da estética contemporânea dos desfiles das escolas de samba, linguagem em uso até hoje e agora retrabalhada e ressignificada por outros relevantes artistas que o sucederam. O atual carnaval deve, de qualquer forma, ter sempre como seu pioneiro esse nome. Dono de uma personalidade discreta e lunar, mas que ainda sim fez revolução pela delicadeza e pelo requinte de suas obras imortalizadas.