Anescarzinho

Por Felipe Tinoco

lton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Oscar Bigode, Zé Cruz e Zé Keti. A escalação de bambas, artistas ímpares, poderia ser a nata de qualquer manifestação cultural do maior requinte e complexidade. E é. Felizmente, foram estes nomes – em diferentes seleções – parceiros da personalidade guiadora desse texto durante as místicas noites e eventos do samba no Rio de Janeiro e cidade afora. Se a habilidade de compor canções já é irrefutável ao se analisar as contribuições musicais de Anescar, o artista também foi envolto na composição de elencos de primeira. Em significativa participação artística do Rio durante seus 30 e poucos, Anescarzinho participou dos grupos Cinco Crioulos e A Voz do Morro e do musical Rosa de Ouro. Desses movimentos, germinaram amizades, discos, apresentações e canções marcantes do cenário musical carioca da década de 1960.

Embora Anescarzinho seja conhecido como do Salgueiro, seus primeiros passos foram dados no Morro do Cruz, por ali pelo Andaraí. Seus pais, no começo do namoro, abdicaram da moradia inicial por conta do desagrado da família materna diante do relacionamento da jovem com o pai de Anescarzinho, um homem negro. O racismo dos parentes fez com que a mudança fosse necessária e ambos saíram do Salgueiro, para onde retornaram já com o filho, fazendo da casa um reduto de samba. É dos paradoxos da vida, aliás, que Anescar colhia certos lampejos. Os tiros próximos à residência faziam com que os pássaros cantassem, por exemplo, e o compositor tirava letra do ocorrido.

Em 1965, enquanto Clementina de Jesus, ao lado de nosso personagem e de outros bambas, confirmava seu mergulho definitivo na carreira musical com os espetáculos do Rosa de Ouro, Anescarzinho já havia adentrado também nas estruturas musicais do samba, para além-década, como grande compositor. “Água do Rio”, em parceria com Noel Rosa de Oliveira, foi gravada por Elizeth Cardoso e Martinho da Vila. Na também incrível seleção irrefutável de poetas que faz o Salgueiro brilhar durante o período da Revolução, entre Sabiás, Zuzucas e Babões, nesse ano Anescar já tinha riscado a caneta e batucado os tambores para composições de desfiles salutares – ao tempo em que também sobrevivia de outras profissões, como porteiro e funcionário fabril.

Foi para os preparativos do Carnaval de 1960 que Nelson de Andrade se encaminhou até o Municipal a fim de convidar Fernando Pamplona para liderar os preâmbulos artísticos-visuais do desfile da Academia, como já bem sabemos e foi destrinchado no bloco 1 de textos do Sal60. Fernando disse que só toparia a missão se pudesse ter como enredo aquele que imaginara para a agremiação: Quilombo dos Palmares. No anúncio aos compositores, Nelson chegou a rascunhar alguns escritos sobre o tema, no que talvez tenha sido, aos olhos contemporâneos, uma tentativa de sinopse. Pamplona diz não ter gostado da ideia e quis apostar nos relatos orais para contar aquela história para quem também deveria escrevê-la.

Na disputa, os três jurados escolhidos por Nelson – dentre eles, Pamplona – ficaram em forte dúvida sobre a composição a ser escolhida. O samba de Djalma Sabiá e o da outra parceria tocavam um após o outro para que se tentasse chegar a um consenso. Na interpretação, as pastorinhas tomavam conta do palco e eram as responsáveis por cantarolar as obras e auxiliar aos julgadores na decisão. Pois bem: em determinado momento, foram as próprias que decidiram os vitoriosos, cantando-o em definitivo. Quase ironicamente, estava naquela noite determinada a música que guiaria o Salgueiro para o seu primeiro título, em uma decisão sem o discernimento dos grandes nomes associados à Revolução encarnada.

“O divino imperador Zumbi” e Palmares tinham sua história ressignificada não apenas pela alcunha de Pamplona e da criação visual e estética do desfile da Academia, como também possuíam suas linhas verdadeiramente escritas pelas mãos de Anescarzinho e Noel Rosa de Oliveira, em uma parceria histórica dentro do samba-enredo e das músicas de meio de ano. A capacidade sintética e envolvente do refrão principal dava uma pertinente assinatura ao desfile que apresenta ao Carnaval carioca diferentes possibilidades de interpretação da estética do universo e do imaginário temático referente à negritude. A sofisticação daquele Carnaval não é restrita ao seu visual geométrico e com distintas formas ou materiais; as escolhas adotadas pelo samba são congruentes às apresentadas visualmente e não devem ter sua relevância mitigada para a apresentação. A letra entrega à Academia uma influência direta na perspectiva sobre a narrativa adotada naquele Carnaval, o qual tem justamente no samba o seu primeiro elemento de composição, a primeira chave para a comunicação de um enredo.

Se o campeonato de 1960 foi cercado de infortúnios por conta dos múltiplos ganhadores – e você confere mais dessa história no texto sobre o desfile de 1960 –, o primeiro título solitário do Salgueiro chegou três anos depois. No enredo de Arlindo Rodrigues, mais uma ressignificação sobre o imaginário de pessoas pretas sob outra histórica personalidade do período colonial. Dessa vez, novas camadas são adicionadas ao homenagear Xica da Silva. Outrora escravizada, Xica ascendeu a patamares sociais historicamente destinado a pessoas brancas, em uma transgressão própria.

Para tomar a decisão entre o samba-enredo da dupla Bala, outro nome vitorioso da Academia, e Luiz Fernando Ribeiro do Carmo – ele mesmo, Laíla! – e o samba-enredo de Anescarzinho e Noel, um múltiplo time de julgadores foi montado. Os carnavalescos Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, as bailarinas e coreógrafas Mercedes Baptista e Tatiana Leskova, Isabel Valença, a destaque que interpretaria Xica no desfile, e Osmar Valença, então presidente do Salgueiro, reuniram-se para tomar a decisão. Empate, 3 a 3. Tentaram votar novamente após uma ligeira conversa, só que dessa vez de forma secreta. Novamente a indecisão predominou. Arlindo propôs que o voto de minerva fosse de Pamplona, que, diante da responsabilidade, logo condicionou sua decisão a ouvi-los na quadra da Academia. Perante o clima de tensão, após acompanhar as parcerias, anotou seu escolhido no papel e disse para que este fosse revelado apenas quando ele viajasse, no período em que ficou fora do país, pela ocasião de um prêmio recebido em concurso do Salão de Arte Moderna.

Isabel Valença, a ala do minueto coreografada por Mercedes Baptista e as vestes de nobreza, decerto, foram representações visuais pertinentes para a demonstração da quebra do status quo que pulsa na personalidade homenageada. Não há como dissociar, no entanto, essas escolhas sem a contribuição narrativa de mais um grande samba de Anescarzinho e Noel, o escolhido: “A mulata que era escrava sentiu forte transformação, trocando o gemido da senzala pela fidalguia do salão”. Em consonância com os registros visuais, os versos se portam como precisos para evidenciar a proposta da agremiação.

A capacidade de construir imagens antes mesmo de um Carnaval começar a ser (literalmente) costurado faz dos poetas salgueirenses, donos das canetas e das tiradas de melodia, artistas ativos nas construções dos desfiles desse período. Em um tempo no qual sinopses, reuniões de “tira-dúvidas” com carnavalescos ou mesmo as interferências incisivas eram menos recorrentes e processuais ao cronograma da construção de um carnaval, Anescarzinho do Salgueiro, tal como os demais compositores, também é criador daquilo que se escuta e que se vê. Como se não bastasse ter a responsabilidade de carregar no nome toda a simbologia da árvore que intitula o morro no qual se criou, reivindicamos aqui seu papel de revolucionário.