A última entrevista de Fernando Pamplona

Por Guilherme Guaral

A insistência é uma das armas para o pesquisador que resolve utilizar a História Oral como metodologia de trabalho. Sendo imprescindível determinada entrevista, é necessário conseguir agendá-la e efetivá-la sem que o entrevistado se sinta desconfortável ou pressionado. Precisamos ter paciência, firmeza e, sobretudo, persistência.

Quando comecei a realizar o trabalho sobre o Salgueiro, nos anos 1960 o primeiro nome que se tornou fundamental para uma entrevista era o do cenógrafo e carnavalesco do Salgueiro durante o período, o mestre Fernando Pamplona. Respeitado por todos que gravitam no mundo do samba, Pamplona é referência e sinônimo de reflexão, intuição e prática renovada que as agremiações alcançaram com sua liderança na escola vermelha e branca da Tijuca.

O problema é que a escolha era óbvia, mas, no geral, os meus primeiros interlocutores não me animavam muito e diziam que ele não estava mais com paciência para dar entrevistas e que tinha desistido de acompanhar os desfiles das escolas de samba, desde meados dessa primeira década do século XXI.

Acreditando que é necessário vencer os obstáculos que são levantados, insisti e pedi o telefone do aposentado carnavalesco com o intuito de tentar extrair algumas ideias e ouvir da sua própria narrativa as histórias dos desfiles e enredos que, na bibliografia sobre Carnaval, já são quase de domínio público. Após algumas tentativas infrutíferas, consegui o primeiro contato. Ligação feita, alguns nomes citados e eis que pré-agendamos nossa conversa. Foi emocionante escutar aquela “voz de trovão” que eu me acostumara a admirar nas transmissões dos desfiles pela TV Manchete.

O dia chegou e, ansioso, me mandei para o endereço indicado pelo carnavalesco. O trânsito entre a Barra e Copacabana estava pesado e eu procurava conter minha ansiedade e preocupação de estar atrasando a vida do entrevistado. Por fim, cheguei, encontrei o endereço e interfonei. Subi os cinco andares e fui recebido pelo imponente Fernando Pamplona na casa dos seus oitenta e poucos anos. Interessante foi notar a altivez de sua postura em certo contraste com seu “figurino”: um hobby tipo roupão em cima de um pijama de malha. Ele estava absolutamente em casa e eu querendo fazer a grande entrevista.

De fato, foi um momento ímpar desse processo, pois pude escutar do próprio criador seus motivos, suas utopias, ideologias e a visão da realidade de um processo que entrou para a história da cultura brasileira. O interessante das entrevistas é perceber como a memória vai sendo desvelada em suas lembranças, em suas confusões, em seus rompantes enfáticos, mesmo que contrariando a realidade factual dos acontecimentos.

Nesse processo, me sinto meio Saulo de Tarso virando São Paulo, pois sempre fui arredio aos métodos da História Oral e hoje deixo de ser perseguidor para me ver cada vez mais adepto desse instrumental teórico e prático para coletar fontes para a pesquisa. Muito tenho que aprender, mas, de fato, o prazer de ouvir as histórias já conhecidas ou intuídas, narradas com vigor, com prazer ou até com desconfiança por personagens que viveram aquele momento escolhido para ser recontado te possibilita tornar presente o instante dos acontecimentos e fazer da História, como eu acredito, uma Ciência do Presente, tempo em que nós, historiadores, conhecemos e de onde estamos escrevendo. O objeto está no passado, mas a escrita é realizada no momento presente.

Após quase duas horas de conversa devidamente registrada no celular/gravador do meu filho, me despedi do entrevistado. Desliguei o aparelho e ia saindo quando, após agradecê-lo, comentei sobre o Bar Vermelinho, ponto de confluência da intelectualidade carioca dos anos 1950 e 1960, que acredito ser importante para o texto que estou escrevendo. Se, durante a entrevista, Pamplona foi breve sobre esse assunto, nesse momento, já com tudo guardado, ele foi dando uma verdadeira palestra sobre a influência do Bar da Cinelândia em sua formação e para a vida cultural da cidade. Senti que precisava parar tudo e pedir que ele voltasse. Eu tinha que gravar aquilo! Porém ele discursava com empenho e eu entre atônito, deslumbrado e sentindo que o trem estava passando e eu não conseguia embarcar. Assim, relaxei e procurei absorver o máximo do que ele estava me contando. Saí da entrevista repetindo, ou melhor, procurando repetir o que Pamplona havia comentado, tanto da geografia, dos personagens envolvidos e das discussões que se processavam. Aprendi que: ou deixamos o gravador ligado até a hora de irmos definitivamente embora ou então não façamos perguntas depois do stop apertado.

Levantamos-nos e Pamplona me mostrou algumas peças de seu acervo de cultura popular, como uma capa do Bumba-meu-Boi do Maranhão, algumas peças em entalhe de Pernambuco, outras em cerâmica do Norte de Minas. Despedi-me agradecido e emocionado. Para mim, ainda faltam muitas entrevistas, mas para Pamplona ele garante que foi a última, pois não tem mais paciência para responder as mesmas perguntas de sempre. Bem, acho que pelos lampejos de vivacidade que sua narrativa ainda consegue levantar, estruturadas em sua voz, agora de trovão mais brando, acredito que se outro interlocutor aparecer ele daria novamente a sua última entrevista.

Fato que pude constatar. Explico: essa primeira entrevista aconteceu em 20 de junho de 2010. Meu filho, Ariel, era o responsável por tirar os arquivos do celular e guardar numa pasta em seu computador. Ele guardou todas as entrevistas, mas, por uma das ironias do destino, apagou a entrevista de Fernando Pamplona.

Quando percebi o ocorrido fiquei perplexo, chateado e incrédulo. Na minha cabeça só ecoavam as palavras do carnavalesco afirmando que aquela era a última entrevista. Depois de alguns dias remoendo o golpe, obriguei meu filho a ligar novamente para o mestre, explicar o acontecido e solicitar mais uma entrevista.

Aguardei o desenrolar do contato bastante apreensivo e fiquei muito feliz quando meu filho me falou que Pamplona tinha concordado em dar mais uma “última entrevista”. Retomei o contato e, entre cancelamentos e viagens entre Cabo Frio e Rio, consegui efetivar meu intento no dia 19 de novembro, no apartamento do carnavalesco em Copacabana, mesmo local da primeira entrevista. Essa eu guardei a sete chaves e o arquivo ficou perfeito. Não foi, com certeza, a última entrevista do artista em vida, mas para mim foi a definitiva. Pamplona nos deixou em 29 de setembro de 2013.

Um último detalhe desta aventura: estacionei o carro naquele dia no início da Av. Ns. De Copacabana e, completamente cego, fiquei algumas horas da manhã de sexta-feira realizando a entrevista. Por fim, extasiado e feliz, saí para outro compromisso. Onde estava o carro??? Depois de vários momentos de “desinformações”, soube que o haviam rebocado. Cada pesquisa guarda em si muitas histórias de bastidores.