Nelson de Andrade

Por Felipe Tinoco

Jorge Silveira, Nelson de Andrade, 2020.

Se cantar sua aldeia faz as pessoas serem universais, como diz a premissa de Liev Tolstói, aqui há um Nelson que, embora desproporcionalmente celebrado diante de sua relevância para a história das escolas de samba, pode ser considerado ecumênico. A personalidade dedicou parte de sua vida à direção inovadora das agremiações – no plural mesmo. Foi na Academia, no entanto, onde Nelson começou a fazer história como uma das principais lideranças carnavalescas.

Nem o Sargento, tampouco Cavaquinho; o Nelson aqui versado é o de Andrade. Fato é que, no mundo do Carnaval, tal sobrenome ficou muito vinculado à mitológica família que comandou os destinos na estrela verde e branca da Zona Oeste. Mas antes mesmo de Castor se envolver com o ziriguidum independente, foi o Nelson de Andrade quem deu suas investidas gerenciais que modificaram a forma de ver, fazer e administrar um Carnaval.

O comerciante proprietário de uma peixaria no bairro da Saúde empregou João Candido, o Almirante Negro com dignidade de mestre-sala, e Djalma Sabiá, fundador e compositor do Salgueiro, quem levava encomendas de peixes e camarão para a casa de Fernando Pamplona. O pai de Nelson ajudava o livro de ouro das escolas de samba habitantes do morro vizinho à sua residência. Em 1954, mergulhou de vez no Salgueiro ao negociar com Hildebrando Moura, artista responsável pela realização do Carnaval da Academia, que pagaria seus honorários após a escola desfilar. Assumindo outras despesas, inclusive de ornamentação do desfile, acabou presidente de honra e representante do Salgueiro nas reuniões dos órgãos oficiais da prefeitura.

Nelson, então, foi alçado a presidente e exerceu o que se conhece hoje como o cargo de diretor de Carnaval. Em 1958, após ficar desgostoso com as apresentações visuais de coirmãs, resolveu convidar um talentoso casal de artistas, Maria Louise e Dirceu Nery, para assumir com ele o comando criativo do Salgueiro. No ano seguinte, durante a passagem da escola, é responsabilizada a Nelson a abolição das cordas que separavam o público dos desfilantes. Pamplona estava no corpo do júri, à frente do quesito Riqueza, Escultura e Iluminação. Entre “Brasil, Panteon de Glórias”, “Petróleo do Brasil”, “O Brasil através dos tempos” e “Homenagem ao corpo de bombeiros”, o professor se encantou pela temática diferenciada da agremiação, inspirada nas gravuras do pintor francês Debret sobre o Brasil colonial.

As notas de Pamplona, preterindo a campeã Portela e aclamando o Salgueiro, chamaram a atenção de Nelson. O diretor foi até o Theatro Municipal, entregou ao futuro parceiro um retrato naïf de Debret que estava em uma das alegorias do desfile de 1959 e o convidou para assumir a missão. “Quilombo dos Palmares”, o primeiro título do Salgueiro, nasceu. Nelson orientou o cenógrafo na feitura do que se entendia como enredo e propôs frases de síntese, a fim de auxiliar a compreensão dos compositores ao relato oral do tema, em um prelúdio de sinopse. Para o desfile, convidou Mercedes Baptista e seus bailarinos, trazendo-os de São Paulo para participarem do cortejo histórico.

No ano de 1961, a interseção entre o gestor e o artista se manteve e ambos foram a Minas para a pesquisa local sobre Aleijadinho, que futuramente ainda serviria de insumo ao desenvolvimento de Chico Rei. Nelson sintetizou a vida do escultor de Ouro Preto e, mais uma vez, a criação artística do desfile foi potencializada pelas noções de cooperação que tanto atravessaram o Salgueiro durante a sua Revolução. A importância de todas as partes, inclusive, fez Pamplona sair da escola em solidariedade ao distanciamento do próprio Nelson da Academia, quando foi perambular pelos lados de Oswaldo Cruz e Madureira na tal rival. Enquanto presidente da Portela, em 1965, após solicitação de Pamplona, disponibilizou um caminhão e o pessoal da escola para carregar o imóvel abre-alas do Salgueiro, reiterando seu compromisso cívico com as agremiações.

O personagem chegou a retornar ao Salgueiro para “ajudar e nos vaselinar novamente para o sacrifício”, como conta Pamplona em sua autobiografia. Confiou no parceiro na ideia de fazer uma Bahia diferente das 17 apontadas por Nelson que já tinham passado nas avenidas como enredo, em desfiles os quais não teriam chegado nem ao terceiro lugar. Na ladeira teve, teve capoeira, zum zum zum, zum zum zum, e Nelson se despediu da folia. Mas antes mesmo da primeira saída do Salgueiro, o peixeiro de grande porte e jeito brigão colocou seu repertório da educação formal e seus próprios recursos à disposição da instituição cultural que ajudou a promover.

Sua defesa pelas construções narrativas lineares e autossuficientes ajudou fortemente a moldar o que se entende por enredo e seus processos de costura. Para o Jornal do Brasil (JB), no início da década de 1960, ele já demonstra uma complexa consciência criativa: “Em primeiro lugar, acho que deve ser um tema inédito. Depois, estudá-lo a ponto de dominá-lo inteiramente. Se possível, tornar-se a maior autoridade no assunto. O responsável pelo enredo deve preocupar-se para que não saia ninguém com fantasia em desacordo com o tema”. 60 anos depois, as afirmações continuam contemporâneas na grande fase que as escolas de samba vivem no fundamental quesito enredo.

“Navio negreiro”, de 1957, foi tema pensado por ele, no que talvez seja o mais evidente pioneirismo da temática preta nas narrativas dos desfiles das escolas de samba. Em 1958, sua boa habilidade de relacionamento permitiu o anúncio do enredo do Salgueiro em pleno JB, em ação de pré-lançamento que se repetiria em outros anos e jornais. Em 1959, em um dos primeiros relatos de internacionalização das agremiações, foi graças às resoluções financeiras de Nelson que o Salgueiro e seu Djalma, Paula, Noel e demais componentes aterrissaram em Cuba para a comemoração da vitória da revolução dos vizinhos das Américas, promovida pelo governo do país. Se branding é uma forte expressão empresarial do momento para a gestão de marcas, o slogan salgueirense que até hoje vive no imaginário dos torcedores e foliões é de autoria do rapaz, que sagazmente entendeu a necessidade de gerar valor e identidade à imagem da escola: “Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”. Na autobiografia pamplonística, o carnavalesco detalha que a frase inicial, presente em um estandarte que desfilava no Quilombo de 1960, dizia “Nem melhor, nem pior do que ninguém, apenas uma escola diferente” e que ele mesmo, Pamplona, tratou de tirar o “do que ninguém”. No livro de Leonardo Bruno sobre o Salgueiro, consta que a frase surgiu durante o Carnaval de 1958.

Embora o pioneirismo e a inovação sublinhem a vida do homem, as versões e a oficialidade histórica são de miúdo valor; a importância de Andrade não só para a criação da expressão como também aos rumos do Salgueiro e das escolas é o que há. Se a centralização dos desfiles das escolas de samba, nas crônicas da Avenida, aponta grande destaque aos carnavalescos, Nelson personifica o fato de que a gestão das agremiações também tem em si papel fundamental para a compreensão do que elas se tornaram. Entre o ecoar de vozes e de histórias marginalizadas pela sociedade e o espetáculo também filiado à classe média, o Sal60, sem as ações dessa figura, não existiria. Para além de recrutar os artistas e realizar a curadoria de quem poderia somar ao Salgueiro, Nelson parece ter entendido a acepção de organização como o conjunto de pessoas em prol de um mesmo objetivo. Ele objetivou fazer do Salgueiro relevante, com base na aspiração de seus fundadores.

Conseguiu. Nelson ilustra os cruzamentos e as interseções dos papéis dos profissionais das escolas de samba, em seus preâmbulos de presidente executivo e financiador, com uma pitada de carnavalesco, meandros de enredista, de pesquisador, de produtor e um bocado de relações públicas. Nelson foi muitos no Salgueiro e viabilizou o Salgueiro ser muita coisa por intermédio de seu apoio, suas táticas e ações gerenciais, como liderança criativa que assim se permitiu construir, sem deixar os vieses utilitários tomarem conta de seu processo de tomada de decisão. Um potente mediador cultural que não cabia em seus papéis – e talvez por isso mesmo os largou – diante do desejo de se doar à aldeia de sua amada instituição. Aqui, ao menos no pouco possível e paradoxal (com a rima não pretendida), pretende-se fazê-lo universal.

“É gordo, fala alto, inteligente, e acha que o enredo de escola de samba deve contar uma história linearmente”, disse reportagem do JB.