Marie Louise e Dirceu Nery

Por Beatriz Freire

Jorge Silveira, Dirceu Nery, 2020

Em 1957, Marie Louise trocou as baixas temperaturas das cidades suíças pelo calor do Rio de Janeiro, onde desembarcou a contemplar golfinhos em plena baía de Guanabara. A passagem só de vinda tinha um motivo especial e sotaque pernambucano: Dirceu Nery, seu companheiro de viagem, por quem se apaixonou ainda na Suíça, onde se conheceram em uma exposição. O amor e a arte os uniram: ela, cenógrafa e figurinista; ele, cenógrafo e aderecista. Os talentos efervesceram nas vielas e avenidas no cenário artístico-cultural carioca naquela fervorosa década em que o Brasil vivia seus “anos dourados”. Se o Rio de Janeiro tinha na Zona Sul o surgimento da Bossa Nova, nos subúrbios e área central da cidade ganhava mais protagonismo o Carnaval das escolas de samba. Apesar de terem trabalhado na montagem visual de óperas, balés e teatros – estes como a segunda casa de Marie, praticamente – souberam aproveitar bem tanto conhecimento para investir no ofício carnavalesco.

Como se caminha um passo de cada vez, a embrionária Revolução Salgueirense não poderia acontecer do dia para a noite. O Carnaval de 1959 tem importância fundamental para desvendar os rumos que o Salgueiro tomaria no ano seguinte. Para preparar o cortejo, Nelson de Andrade, presidente da agremiação, convidou o casal para que juntos assinassem aquele desfile. Com Nelson no comando do enredo “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, Dirceu e Marie Louise foram os responsáveis pelo planejamento e confecção das fantasias que vestiriam toda a escola; as indumentárias reproduziam gravuras de Jean-Baptiste Debret, principal nome da Missão Artística Francesa e expoente do cotidiano do Brasil colonial, homenageado daquele Carnaval. Sem que existisse propriamente o espaço que conhecemos atualmente por barracão, Marie Louise subia as ladeiras do morro do Salgueiro para trabalhar junto às costureiras e aderecistas da escola.

Na noite dos desfiles, atrasos e confusões antecederam a passagem do Salgueiro pela Avenida Rio Branco. Uma corda de organização que dividia pista e público não ordenava coisa alguma – apenas delimitava a mistura que culminou no tumulto reprimido pela violência policial que, a cacetadas, tentou esvaziar o espaço do desfile. Quanto ao atraso, a Unidos de Bangu, que abriria o cortejo naquele ano, cruzou os braços e não pisou na pista, por ter o eixo de um carro quebrado. A solução de chamar as agremiações subsequentes para assumirem a abertura não apeteceu nenhuma delas. Assim, o Salgueiro adentrou a pista como primeira escola daquela noite, subvertendo a ordem original que a designava como quinta agremiação a se apresentar. Nada disso ofuscou o brilho do cortejo que abusou – no melhor sentido da palavra – de bom gosto e teatralização. O requinte e a originalidade estéticas marcaram presença, aliadas a uma narrativa cuidadosamente trabalhada pelo presidente-enredista.

Jorge Silveira, Marie Louise Nery, 2020.

Dirceu e Marie Louise, com a vasta bagagem que tinham, organizaram-se da seguinte forma: ele cuidou das alegorias que já não tinham mais o formato das grandes carroças que cruzavam a pista, dando lugar a adereços e elementos que ajudaram a compor estética do enredo da escola. Ela, por sua vez, nas idas e vindas das ladeiras em busca das casas das colegas costureiras e outras mulheres que auxiliavam ativamente a confecção da escola, cuidou das fantasias. O maior cuidado foi reproduzir fidedignamente as vestimentas do Brasil colonial que Debret conheceu, apenas adaptando as cores, principalmente para que servissem bem ao branco e ao encarnado do Salgueiro. Não bastasse o vice-campeonato naquele ano, o casal se juntou ao lado de Fernando e Arlindo em 1961, no desfile que homenageou Aleijadinho. Um erro comum na historiografia carnavalesca e nas páginas da internet é atribuir a participação do casal de artistas no desfile revolucionário de 1960, quando Fernando Pamplona refuta essa versão em sua autobiografia publicada em 2013.

Mais tarde, seguiram outros rumos, prestando serviço a espetáculos, balés e peças de teatro. No Carnaval, Marie passou ainda pela Portela (1964) e retornou ao Salgueiro (1968), mas encerrou a carreira de lantejoulas e fantasias luxuosas logo após a morte de Dirceu, ao final da década de 1960. Dedicou-se também às salas de aula, quando teve como aluna Rosa Magalhães, que também deu os primeiros passos no Salgueiro. Marie faleceu neste maio de 2020, vítima da covid-19, na Suíça, longe do calor do Carnaval, eternizada como precursora de nomes femininos e, ao lado de Dirceu, como antecessores fundamentais do passo inicial que marcaria a história das escolas de samba para sempre.