O inexorável legado do magnético Fernando Pamplona

Por Vitor Melo

Jorge Silveira, Fernando Pamplona, 2019.

Voltemos às aulas de física do ensino médio: força gravitacional é o capítulo de hoje. Na teoria, é a força atrativa entre todas as massas do universo. Por regra, um corpo maior atrairá, naturalmente, um inferior e acarretará influência sobre ele. Contextualizando, existiu no mundo do carnaval um ser todo poderoso com voz de trovão capaz de reunir sempre os melhores pupilos ao seu redor. Com uma capacidade administrativa ímpar de liderá-los e instruí-los, conseguiu moldar cada um de seus “filhotes” ao ponto de todos conseguirem alçar voos solos vitoriosos, mesmo que de diferentes espectros. Alimentando, dessa forma, mais do que qualquer outro artista, o panteão da festa com ilustres artistas que nos encantam com seus expedientes até hoje.

Cenógrafo, professor da Escola de Belas Artes (EBA) e, sobretudo, jurado das escolas de samba, Fernando Pamplona foi (e ainda é) um dos principais artistas produzidos por estas terras tupiniquins, responsável por mudar dinâmicas e paradigmas, imortalizando-se na história do carnaval e, principalmente, do Acadêmicos do Salgueiro. Até chegar nas escolas de sambas, sua atuação se deu no universo teatral, como renomado cenógrafo do Theatro Municipal. Seu grande mestre no assunto foi Thomás Santa-Rosa, integrante fundador das companhias Os Comediantes e Teatro Experimental do Negro (TEN). Ele foi considerado um dos primeiros cenógrafos modernos brasileiros, em um marco atribuído ao assinar a cenografia de “Vestido de Noiva” (de Nelson Rodrigues, em 1943), espetáculo que impulsionou o surgimento do “teatro brasileiro moderno”. Foi do artista que Pamplona tomou o gosto pelo traço abstrato e geométrico que já dominava as telas modernas. O cenógrafo replicou o estilo em suas famosas decorações para o Baile de Gala do Municipal e nas decorações de rua.

Mas foi só em 1959, portanto, que os caminhos dessas duas potências, de fato, cruzaram-se. Julgador de Esculturas e Riquezas, à época, encantou-se pelo Rio de Debret apresentado pela escola, assinado pelo casal Marie Louise e Dirceu Nery. Com tamanho desbunde, cedeu, pela primeira vez, uma nota ao Salgueiro maior que a da matriarca Portela. Nelson de Andrade, presidente salgueirense, que não era bobo, não perdeu tempo em ir ao Theatro Municipal em busca daquele “louco jurado”, que era o responsável pela decoração da cidade carioca no período. Não houve resistência por parte de Fernando; o casamento logo se materializou.

Para o carnaval de 1960, Fernando Pamplona foi integrado à dupla de carnavalescos do ano interior acompanhado de seu fiel escudeiro Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, ambos oriundos do Theatro Municipal. Com a responsabilidade do desenvolvimento do enredo, escolheu para aquele carnaval “Quilombo dos Palmares”. O desfile impressionou pela beleza e pela força temática. Chegada na apuração, a escola ficara atrás de Portela e Mangueira, embora essas devessem perder quinze pontos devido a atrasos. O título (o primeiro) ficaria com a Academia do Samba, já no primeiro desfile de Pamplona. Após a leitura das notas, com promessa de judicialização do resultado, o grupo organizador decidiu declarar vencedoras as cinco primeiras agremiações. Campeões, sim; satisfeitos, não. Mesmo que a comunidade estivesse feliz com o belo desfile, o desfecho daquele carnaval foi uma baita água no chope dos componentes salgueirenses.

Em 1961, o enredo escolhido foi sobre a vida e a obra de Aleijadinho. Dessa vez já sozinhos, buscaram corrigir os erros do ano anterior, apresentando também um belíssimo desfile – vice-campeonato. O matrimônio que parece perfeito teve seus altos e baixos e o primeiro deles ocorreu após a saída de Nelson de Andrade no ano seguinte. Concomitantemente, Fernando foi morar na Alemanha e se afastou durante 3 anos, abrindo espaço para a genialidade do barroco Arlindo chegar ao seu ápice. De volta da Europa, a dupla estava refeita e nos preparativos do carnaval de 1965. O tema da vez era “História do carnaval carioca – Eneida”. Receosos por um pré-carnaval repleto de críticas à profusão de “novidades que deturpam a verdadeira essência do carnaval”, concentraram para aquele carnaval com a promessa de uma calorosa vaia. As vaias não vieram, o desfile concedeu à Academia do Samba o segundo título sozinho – já que em 1963, com “Xica da Silva”, também havia vencido.

Para o carnaval de 1966, uma pausa (outra) na relação, dessa vez tanto de Pamplona, como de Arlindo, ambos por divergências com a diretoria salgueirense. Tão breve passou o carnaval e a presidência trocou de mão, os artistas voltaram. Pamplona assinou os carnavais de 1967 a 1972 em sequência ao lado de Arlindo e outros importantes artistas que entrariam na cena carnavalesca a partir daqueles anos como Joãsinho Trinta, Rosa Magalhães, Maria Augusta e Lícia Lacerda. Em 1969, primeiro dos anos, dentre os de cima, com maior destaque, o enredo escolhido foi “Bahia de todos os deuses”. O tema rendeu certa desconfiança do morro já que corria lenda de que falar de baianidade no carnaval, em si, trazia algum tipo de falta de sorte. A trupe que já contava com J30 e Augusta, além de Arlindo, preparou um desbunde visual. Campeã incontestável!

No carnaval de 1971, “Festa para um rei negro”, outro caneco. Dessa vez com a inserção das últimas duas da lista, Rosa e Lícia, a equipe salgueirense, sob comando de Pamplona, estava mais forte do que nunca. Como de costume, o visual era de um requinte absurdo, com detalhes de extremo bom gosto, uso de texturas, materiais inovadores e muito talento. Com um samba implacável, toda a avenida pegou no ganzê e no ganzá com a escola tijucana e imortalizou nos anais carnavalescos mais um dos desfiles comandados por Fernando e seus discípulos. Dentre todos os desfiles e enredos selecionados, nenhum define de melhor forma a importância de Pamplona na mudança da dinâmica temática das escolas do que esses. Ao escolher o desenvolvimento de enredos africanos sem o olhar paternalista e com caráter subserviente, Pamplona (Arlindo e equipe) tinha os louros de deslocar o protagonismo para quem ele deveria ser de fato, tornando os agentes escravizados em outrora nas figuras principais de suas próprias histórias. Essa revolução é a materialização de uma causa pioneira e o motivo dessa exposição estar no ar hoje.

No carnaval seguinte, ocorreu um dos principais, se não o maior, dos reveses do carnavalesco em sua trajetória pela Academia do Samba. O enredo escolhido em homenagem à Madrinha, a Estação Primeira de Mangueira, ocorreu, mesmo com resistência interna, em uma escola implodida por problemas administrativos, picuinhas internas e problemas externos durante o desfile. O resultado comprovou o clima com um 11° lugar. Após o carnaval, Pamplona não poderia subir o morro nem pintado de ouro. Até tocaia e armadilhas, diziam, estavam a esperar ele. Topetudo, nunca fugiu da raia, e compareceu à reunião na quadra, surpreendendo a todos. Numa reunião acalorada, foi decidido: o casamento estava terminado – por ora.

Após quatro anos de profunda crise pelos motivos que já começavam a aparecer ao minar o desfile de 1972, o pai de todos os carnavalescos estava de volta. Carne fraca que só, o enredo para 1977 foi “Do Cauim ao Efó, moça branca, branquinha” sobre a culinária brasileira e a água que passarinho não bebe. Com o magnetismo natural de um líder inequívoco, Pamplona lançava três novos nomes, que trabalhavam com ele na TV Educativa, para comandar o carnaval daquele ano. No meio dos nomes, estava a última das eminentes contribuições artísticas de Fernando: Renato Lage, que viria a ser, anos depois, o carnavalesco com mais carnavais assinados à frente do Torrão Amado. Na avenida, um desfile leve, colorido e divertido. Rendeu à escola o segundo lugar empatado com outras agremiações, mas terminando na quarta posição devido aos critérios de desempate.

No último carnaval à frente da batuta criativa do Acadêmicos, Pamplona entrou em um conflito particular com um de seus filhotes, Joãosinho, o qual àquela altura conseguia maior ascensão e protagonismo no cenário carnavalesco em uma sequência de campeonatos pela Deusa da Passarela. Ao anunciarem o mesmo enredo, choveram faíscas nos preparativos daquele carnaval. No fim das contas, quem comemorou foi o pupilo, chegando ao tricampeonato consecutivo. Há de se ressaltar, ao menos, que o Mestre conseguiu ficar à frente do aluno no quesito “Enredo”, ápice e fagulha provocante daquela disputa de titãs. Depois de 1978, a escola entrou numa maré horrível de resultados ruins e péssimas apresentações. Sua última contribuição direta ao carnaval foi no início da década de 1980, quando atuou como espécie de conselheiro do Império Serrano, oferecendo a escola enredos de sua autoria a serem desenvolvidos por seus pupilos. Em 1982, Rosa Magalhães e Lícia Lacerda criaram o visual do campeão “Bum bum Paticumbum Prugurundum”. E em 83 e 84, a responsabilidade ficou com Renato Lage nos temas sobre as baianas e depois sobre os malandros.

Após o fim do expediente como carnavalesco, que jamais lhe rendeu um tostão, conforme confirmou em diversas ocasiões, Pamplona dedicou-se ao ofício de comentarista dos desfiles na saudosa TV Manchete até o ano de 1997. Mesclando a genialidade e as constantes críticas com acidez na medida certa, rendeu diversos icônicos momentos recordados até os dias de hoje pelos amantes de carnaval. Em 2013, como manutenção de seu legado e preservação da história, Fernando lançou “O encarnado e o branco”, contando desde sua infância no Acre até o desembocar de sua influência na construção do Rio vermelho e branco assinado por ele e sua trupe.

Em 2015 foi homenageado por Rosa Magalhães em um desfile pela São Clemente com um título digno a quem se referenciava, “A Incrível História do Homem Que Só Tinha Medo da Matinta Perera, da Tocandira e da Onça Pé de Boi”.

Com uma trajetória irrepreensível, Fernando foi único e ainda faz ecoar sua voz e legado entre nós a cada reverberar artístico de seus filhotes que ainda estão em cena. Do amor a Zeni, sua parceira por mais de 70 anos, aos três filhos, ao Salgueiro de Debret, de Xica, de Zumbi e, sobretudo, de Pamplona, o carnavalesco com voz de trovão construiu, diante da pedreira salgueirense, um legado estético e temático que mudou definitivamente a história do carnaval e ajudou a moldar o que entendemos, hoje em dia, como escola de samba. Relembrar seu legado aqui é jamais deixar de esquecer, também, de sua importante contribuição de atrair talentos e artistas, de ter o foco preciso na valorização das vozes escolhidas e, por isso mesmo, lançar luz a personagens tão importantes quanto o artista – quem, com seu poder magnético e discursivo, acabou fazendo o curso da história e da mídia ocultar outros personagens fundamentais.

Em forma de homenagem, escrevi esse texto completamente emocionado, ao meu maior ídolo carnavalesco e uma das principais referências momescas. Mais do que nunca, somos salgueirenses e fim de papo!