Djalma Sabiá

Por Vitor Melo

Jorge Silveira, Djalma Sabiá, 2020.

Era uma vez um reino vizinho ao Oió iorubano em terras cariocas, inicialmente chamado Morro dos Trapincheiros, que logo seria batizado definitivamente como conhecemos hoje em dia – morro do Salgueiro. O bamba-mor das bandas africanas, Xangô, tão breve percebeu potencial no moleque retino de pernas finas que fazia os amigos comerem poeira nas peladas pelas vielas tijucanas ao mesmo tempo em que cresceu driblando o destino e as barreiras da vida. Os gramados, além da diversão, renderam seu apelido pra vida, referente ao físico esguio e aos cambitos – “Sabiá”. Nada teria a ver com os dotes musicais, já que, segundo o mesmo, a voz não era, nem de longe, uma das principais qualidades que esbanjava.

Djalma de Oliveira Costa, popularmente conhecido como Djalma Sabiá – carinhosamente, seu Djalma. Nascido em 13 de maio de 1925, foi, desde que chegou a esse mundo, embalado pelos braços a rodopiar de sua mãe, Alzira de Oliveira Costa, porta-bandeira da Unidos da Tijuca, e moldado a desbravar os caminhos do samba. Engana-se, porém, quem pensa que o marco definitivo do interesse pela festa de Momo foi caseiro ou, até mesmo, provocado pelas visitas recorrentes aos ensaios e concentrações da amarelo ouro e azul pavão ainda em sua juventude. O encanto inicial (e definitivo) se deu ao se encantar por Jurema da Silva (em 1952), “Diva”, a bailar com o estandarte da Depois Eu Digo, uma das escolas que futuramente fundariam o Acadêmicos do Salgueiro. Iniciava-se ali, portanto, não só o casamento dos dois sambistas apaixonados, mas também o de Sabiá com o carnaval.

Seu Djalma frequentava também as outras escolas do morro, a Azul e Branco e a Unidos do Salgueiro, mas fincou definitivamente suas raízes na Depois Eu Digo. Após o falecimento de sua primeira esposa, nosso bamba se casou com Estandília, também porta-bandeira. Conforme registra Leonardo Bruno em seu livro “Explode, coração: Salgueiro”, ao ser questionado sobre a predileção em se relacionar apenas com defensoras do pavilhão, Djalma respondeu perspicazmente e com seu bom-humor característico “Elas é que gostam de mim!”. Sua aproximação definitiva ao mundo do samba se deu por meados dos anos 40. Exercendo o ofício de motorista de ônibus, adoeceu seriamente e ficou em casa durante quatro anos, sem trabalhar. Nesse período, começou a frequentar a quadra assiduamente e a conhecer os meandros das frechas das plumas e dos paetês.

Condecorado como “diretor de Patrimônio” da escola pelo presidente, à época, Paulino de Oliveira, Djalma começava a ser reconhecido pelo seu interesse e sua ação em preservar a manutenção do legado da agremiação. Mesmo que o cargo, em si, não demandasse tanto esforço, já que a Depois Eu Digo não possuía muitos “ativos”, o recém-diretor tomou para si a responsabilidade de organizar e zelar pelos instrumentos da bateria. Ao mesmo tempo, aproximou-se do diretor de carnaval Pedro Ceciliano, “Peru”, quando passavam o “livro de ouro” nas ruas buscando simpatizantes do samba e da escola para ajudarem a colocar o desfile na rua. Dessa forma, iniciou seu percurso pelas vielas primordiais para bem entender os segredos desse baticum e se envolver com os eminentes sambistas da escola. Em 1953, Djalma foi um dos diretores presentes na reunião de fundação da agremiação, cujas atas estão na casa em que viveu até seus últimos dias e zelou honrosamente.

Como compositor, papel que assumiu com maior protagonismo dentro da escola, assinou belíssimas obras e se sagrou campeão em seis oportunidades. “Chico Rei” (1964), o que o conferiu maior notoriedade após ser gravado por Martinho da Vila, foi composto com Geraldo Babão e Binha, e é, sem dúvidas, considerado um dos maiores samba-enredo de todos os tempos. Além desse clássico dos anais das festas, foi o autor escolhido em 1956 (“Brasil, fonte das artes”), 1957 (“Navio negreiro”), 1958 (“Homenagem aos fuzileiros navais”), 1959 (“Debret – Viagem pitoresca ao Brasil) e 1976 (“Valongo”). Embora não se reconhecesse como grande vocalista, Djalma também defendeu o samba da escola durante alguns anos após a fusão dos 3 grupos carnavalescos do morro – em 1956, 1957 e 1959.

Após as vitórias nas disputas de sambas e os poucos anos esbanjando os seus dotes vocais, o fundador salgueirense preferiu continuar apenas nos cargos administrativos e de diretoria (vide seu exercício como diretor de carnaval no desfile de 1987). Sendo sempre figura extremamente participativa na política da escola, Sabiá era figurinha carimbada durante as eleições da agremiação, candidatando-se inclusive como presidente de chapa, vice-presidente e oposição em diversas ocasiões. Dentro de todos os cargos que exerceu, dois títulos que recebeu recentemente marcaram as páginas das homenagens que o recompensaram pelos anos de dedicação e amor à Academia do Samba. Nos preparativos para o carnaval de 2019, ano em que a escola homenageou seu patrono espiritual, o presidente André Vaz empossou Djalma como presidente de honra da escola. Até então, ele ocupava o cargo, por mérito, de embaixador da escola, nomeado pela ex-presidente Regina Celi em 2016.

Ainda no ano de 2016, a escola mirim Aprendizes do Salgueiro homenageou Djalma com o enredo “Minha terra é o Salgueiro, onde canta o Sabiá”, assinado pela atuante e excelente diretoria cultural do nosso Torrão Amado. Homenageado, ainda quando nos brindava com sua frondosa presença, desfilou extasiado e bastante emocionado, assumindo posto de merecido destaque com uma onipresença inalcançável na história da branco e encarnado. No mesmo ano, um caso curioso para engrossar a prosa. No pré-carnaval da “Ópera do Malandro”, Djalma voltaria a escrever um samba para disputa, mesmo que não assinasse propriamente. Segundo ele, nas gravações do belíssimo minidocumentário “O Sabiá do Samba”, já que um samba não deve ser escolhido por outro motivo a não ser a letra e melodia, não poderia desfrutar de sua “popularidade e simpatia” perante os membros e visitantes. Assinou, portanto, como “Alma Grande”, alcunha recebida de uma mãe de santo das adjacências da Tijuca com quem costuma se consultar. O samba de sua autoria (ou não) acabou sendo cortado nas audições iniciais, mas serviu para enriquecer o portfólio das histórias desse implacável menestrel.

Em 2013, a escola anunciou a construção do Centro Cultural Djalma Sabiá, localizada em frente à quadra de ensaios da agremiação. Na teoria, seria o local que receberia todo acervo encontrado na casa do fundador até hoje, o que ainda não ocorreu, de fato. Como figura eminente do samba, Djalma faturou alguns prêmios durante seus anos de desfile. Dentre esses, ressalta-se dois de maior relevância: Estandarte de Ouro 2003 (“Personalidade do Ano”) e SRZD 2014 (“Destaque”). Nem todas as homenagens, prêmios e beija-mãos do mundo seriam suficientes para equiparar a gratidão que nós, amantes das escolas de samba – e do Salgueiro, em especial – temos em comparação à entrega e à colaboração desse eterno salgueirense. Tendo falecido no último dia 09 de novembro de 2020, seu Djalma deixou de herança uma das principais instituições culturais do país em pleno funcionamento. Assim como o tambor evoca os seres de luz das religiões afro-brasileiras, a cada soar do furioso tambor salgueirense, seja em um ensaio na Silva Teles, seja no solo sagrado da Marquês de Sapucaí, faz-se vivo entre nós o legado de nosso eterno Sabiá: obrigado!