Salgueiro 1961 – No tempo do Aleijadinho

Por Thomas Reis

Rodrigo Cardoso, No Tempo do Aleijadinho, 2020, ilustração digital.

O ano de 1960 demarcou uma expressa alteração no cenário político brasileiro com a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília, movida por um processo de integração regional encabeçada pelo então presidente Juscelino Kubitschek. Se, por um lado, o Rio de Janeiro acabava de perder o título de capital nacional – e, consequentemente, perdendo o protagonismo dado pela condição de centro administrativo – cresceram então os esforços dos políticos locais, em consonância com os líderes das escolas de samba, para reivindicar para a cidade o posto de “capital cultural” do país.

É nesse contexto que o processo revolucionário da vermelha e branca do Morro do Salgueiro vai se fortalecendo e ganhando cada vez mais notoriedade na imprensa da época, que vislumbrava uma revolução dentro da Academia do Samba a partir de 1959, sobretudo, no que se refere aos discursos de seus enredos e as concepções artísticas desenvolvidas pelo cenógrafo do Theatro Municipal, Fernando Pamplona, e sua requintada equipe oriunda da Escola de Belas Artes.

Após certo triunfo com “Quilombo dos Palmares” no Carnaval de 1960, os novos empenhos para o desfile do ano seguinte só começaram a tomar forma tardiamente, no final daquele mesmo ano. Quando em meados de dezembro, o então diretor de Carnaval, Nelson de Andrade, foi à procura de Fernando Pamplona para darem início ao projeto salgueirense. O cenógrafo se surpreendeu com o contato do velho amigo, pois achava até que já houvera sido substituído, tamanho era o atraso nas projeções do cortejo da escola para 1961.

Nelson de Andrade, incisivo como sempre, chega a Pamplona com a missão anunciada: “Precisamos fazer o Salgueiro campeão!”. Mas, em seguida, vinha o único questionamento a ser feito no momento: “Qual será o nosso enredo dessa vez?”. Surpreso, mas não desprevenido, o artista já tinha em mente o que seria. “Já que o casal Nery fez Debret, vamos atacar de Aleijadinho!”, proposta que, apresentada a Nelson, foi o suficiente para que a dupla combinasse então uma incursão por Minas Gerais para janeiro do ano seguinte.

Foi logo no primeiro dia do ano de 1961 que Fernando Pamplona e Nelson de Andrade, ainda sobre os efeitos do Réveillon, partiram para uma incursão na vida e obras de Antônio Francisco Lisboa pelas cidades históricas mineiras. Acompanhados por uma máquina fotográfica e materiais de reprodução, os dois partiram em uma jornada de observação, fascinação e profundo levantamento de dados e referências pelas localidades onde os trabalhos do artista barroco são conservados. Após percorrerem Sabará, Congonhas, Tiradentes, São João Del Rey e Mariana, desembocaram em Ouro Preto, cidade natal do grande escultor colonial.

Os arabescos, construções arquitetônicas, esculturas e todos os detalhes da arte barroca de Antônio Francisco de Lisboa eram traçados por Pamplona em seu caderno de anotações. Evidentemente, todas aquelas referências que borbulhavam aos olhos do cenógrafo seriam muito bem aproveitadas no desfile salgueirense, dando forma às fantasias e às alegorias. Enquanto Fernando Pamplona direcionava seu cuidadoso olhar artístico para as obras do então homenageado, Nelson de Andrade circulava pelas cidades levantando histórias em conversas com os moradores locais e guias turísticos: tal dedicação se fazia fundamental para que se pudesse construir uma escrita de enredo à altura de Aleijadinho.

Chegando a Ouro Preto, se depararam com uma história que poderia mudar os rumos do enredo do Salgueiro, ainda em seu processo de pesquisa. Pamplona e Nelson esbarraram com a história de Chico Rei ao se hospedarem em um hotel que carregava o nome do rei africano trazido ao Brasil em condições de escravizado. Fascinado com a descoberta, o sempre curioso cenógrafo foi atrás de mais informações sobre o tal personagem. Comovido, Pamplona chegou a questionar Nelson de Andrade sobre a oportunidade de uma mudança de rumo para levar mais um personagem negro para conduzir a linha temática da vermelha e branca, dando continuidade no processo que se iniciara em 1959.

Foi em uma conversa entre Fernando Pamplona, Nelson de Andrade e Arlindo Rodrigues, no retorno ao Rio de Janeiro, que definiram dar continuidade, naquele momento, ao enredo barroco sobre Aleijadinho. Contudo, Chico Rei seria logo anunciado como o enredo para o Carnaval do ano seguinte e Rugendas para 1963. No entanto, fato é que as projeções encabeçadas pelo trio não se concretizaram. No ano seguinte, Nelson deixou o Salgueiro rumando para Portela e, com ele, levou o enredo sobre o pintor alemão. Pamplona também decidiu dar uma pausa passando a Arlindo as responsabilidades de desenvolver o Carnaval da agremiação em 1962. Já Chico Rei só seria levado para Avenida três anos mais tarde, em 1964, mas isso é assunto para mais adiante.

E por falar em Arlindo, o figurinista, cenógrafo e parceiro fiel de Pamplona tanto no Municipal, quanto no cenário momesco, se tornou peça singular no processo de revolução. Intitulado por Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato como o primogênito da Santíssima Trindade Salgueirense, Arlindo Rodrigues vibrou com a temática de 1961. O grande entusiasta da estética barroca via em Aleijadinho muito mais do que uma referência, mas a possibilidade de desenvolver um Carnaval elegante, encantador – dentro de seu estilo artístico – e rico de informações.

Assim, Pamplona e Arlindo começaram a pensar o projeto artístico da escola com o tempo já bastante limitado. Enquanto isso, Nelson de Andrade se pôs a escrever o enredo. Para além do mero papel burocrático de diretor de Carnaval, Nelson colocava as mãos na massa: não se assumia enquanto artista, porém, encontrava-se em condições de ser o condutor intelectual da produção dos desfiles. Tomava para si a escrita dos enredos e a setorização da escola. Empolgado com o que despontava, concluiu sua escrita em poucos dias, acompanhado de uma carta endereçada ao Departamentos de Turismo e Certames, na qual apresentava o tema e explicava as propostas salgueirenses.

Na missiva, o representante maior do grupo reforçava as ideias que vinham se fortalecendo dentro da escola, ressaltando seu ideal de modificar as concepções carnavalescas, sobretudo, na parte artística e narrativa. Nelson exprime críticas diretas a Walter Pinto e Carlos Machado por conta de seus enredos patrióticos e suas estéticas influenciadas pelo teatro de revista e referências internacionais, defendendo, em contrapartida, as narrativas populares, o olhar para os personagens marginalizados e toda brasilidade que o Salgueiro vinha resgatando até então.

A proposta temática versava com profundidade na vida e obra de Antônio Francisco Lisboa, no mais tradicional dos enredos biográficos. Nelson fecha o texto com o título que havia dado ao enredo e salienta a participação de Pamplona e Dirceu Nery: “No tempo de Aleijadinho” será o título do enredo com que os Acadêmicos do Salgueiro, ao som dos seus tamborins, surdos e cuícas, se apresentarão ao povo no ano de 1961, sob a direção de Nelson de Andrade, com a colaboração de Fernando Pamplona e Dirceu Nery. 8 de fevereiro de 1961”.

Foto do desfile do Salgueiro, Aleijadinho,1961.

Se não diretamente ligado com a temática africana, como vinha o Salgueiro nos anos anteriores e como se projetou nos anos seguintes, o enredo dava luz a um personagem que por muitos fora marginalizado na história oficial do país. O artista negro, autodidata e portador de uma doença que deformava seu corpo era dono de um dom invejável: esculpia como ninguém de forma magistral. O Salgueiro precisava apresentar ao Carnaval e a todo Brasil, através de sua representatividade na folia, esse artista genial. Foi o que Nelson de Andrade e sua turma fizeram.

Para a expressa missão artística de colocar a vermelha e branca na rua, se formou uma robusta equipe que, além de Nelson de Andrade, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, contava também com o experiente casal de aderecistas Dirceu Nery e Marie Louise Nery, o jovem estudante da Escola de Belas Artes Mauro Monteiro, o aderecista e moldador do Theatro Municipal Laurêncio Soares e o escultor professor da Escola de Belas Artes Moacyr Fernandes de Figueiredo.

No dia 12 de fevereiro de 1961, o Acadêmicos do Salgueiro estava posto na Avenida Rio Branco para seu cortejo. Às quatro horas da manhã, a chuva cessou para a oitava escola desfilar: a vermelha e branca tomou a Avenida embalada pelo samba composto por Juca, Duduca e Bala entoado magnificamente por Noel Rosa de Oliveira. A escola arrebatou a passarela com seus 800 componentes dispostos em 26 alas e, para aquele desfile, a surpresa foi o retorno das carretas – nome dado às alegorias – que haviam sido deixadas de lado nos últimos anos.

Logo de início era notório todo luxo e exuberância que a escola do Morro do Salgueiro vinha apresentando. O abre-alas carregava um bloco de pedra-sabão envolto por ornamentos barrocos; em outra carreta, vinha a Igreja de Bom Jesus de Matosinho. As esculturas chamaram muito a atenção pela imponência e semelhança com a obra do artista mineiro. Pamplona declarou que o escultor da escola havia sido o próprio Aleijadinho, tamanho o esforço feito para que as reproduções tentassem captar fielmente o trabalho do escultor.

Nos figurinos, os artistas procuraram imprimir todo tradicionalismo do período colonial, retratando rigorosamente as vestes da sociedade da época. As baianas, ponto alto do desfile, encantaram ao representar “as baterias dos garimpos”, repletas de colares e pulseiras. Carregavam na cabeça um lenço utilizado para proteger e amaciar no contato com as pesadas latas e cestas. O pavilhão confeccionado com ornamentos barrocos foi bravamente defendido pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira Eni e Ananias. A bateria fantasiada com um tecido estampado exclusivamente para o Salgueiro ditava o ritmo e, ao longo de todo desfile, se via muitos ornamentos barrocos e faixas que carregavam os nomes das cidades mineiras onde o artista deixou sua marca.

Desfile do Salgueiro em 1961, Aleijadinho, Revista Cruzeiro.

Se, por um lado, a exuberância e todo requinte barroco salgueirense encantaram a todos, por outro, o desfile como um todo não empolgou. Antes da apuração, alguns jornais colocavam o Salgueiro bem distante da disputa pelo título. Destacavam a beleza e todo o viés performático do desfile, mas não acreditavam ser o suficiente para o campeonato. A Manchete ainda destacou a falta da passista Paula, “atração máxima do Salgueiro”, que estava em turnê em Paris. Contudo, o desfile marcou a estreia de uma personagem que anos depois ganharia notoriedade dentro da escola: convidada por Calça Larga, Isabel Valença desfilou pela primeira vez na escola.

O resultado saiu anunciando a Mangueira campeã com 102,5 pontos, a vice-campeonato para o Salgueiro com 98,5 pontos e, em terceiro, a Portela, com 95,5 pontos. O desfecho não agradou Fernando Pamplona, em especial pelas duras críticas dos jornalistas e do julgador Raimundo Nogueira, que não se deixou seduzir com a reprodução fiel das obras do escultor mineiro e disparou: “Com Aleijadinho, até eu”. Assim, o ano de 1961 se finda com muitas alterações dentro da escola. Nelson, por motivos pessoais e desentendimentos, deixa o Salgueiro e Pamplona acompanha o amigo na saída, deixando as responsabilidades criativas para Arlindo Rodrigues.