É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados?

Por João Vitor Silveira

Falar sobre Zumbi é retratar mais do que somente um personagem histórico fundamental, e contar também a história de resistência do povo preto neste país. O papel ativo e direto de Zumbi por si só seria o suficiente para que fosse digno de nota e de homenagens. Porém, o papel que o líder do Quilombo dos Palmares teve ao longo da história transbordou o seu papel histórico e se transformou num facho de luz potente e inabalável, ainda que tenham ocorrido diversos esforços para tentar diminuir ou até mesmo apagar a sua importância. A construção desse personagem, que se transformou em herói nacional soberano da história preta brasileira, atravessa apagamentos e re-existências.Apesar de tudo, sua influência na resistência e reexistência de toda uma comunidade segue firme até os dias de hoje.

Fundado onde hoje se localiza a União dos Palmares, no Alagoas, o Quilombo dos Palmares foi uma comunidade auto sustentável com sistemas de comércio entre os mocambos que, guardadas as devidas proporções, se assemelhavam a cidades muradas medievais, mas resguardada não por muros, e sim por paliçadas de madeira. É a partir dessa estrutura que esse agrupamento vai organizar a sua resistência aos grilhões.

Mônica Ventura, O Sorriso de Acotirene, 2018.

Ao longo da década de 1670, o Quilombo dos Palmares encontrou um caminho para a expansão, contando muito com a sapiência estratégica e habilidade em combate de Zumbi. O jovem guerreiro, nascido livre em Palmares no mocambo denominado Cerca do Macaco (o maior dos mocambos do Quilombo, chegando a contar com cerca de mil e quinhentas choupanas e até oito mil habitantes), fora capturado em tenra idade, mas alguns anos depois conseguira fugir e encontrar seu caminho de volta a  Palmares. Nesse período, as fronteiras de Palmares iam da margem esquerda do São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho, tendo mais de 200 quilômetros de extensão e contando com 11 mocambos.

A resistência de Palmares era potente e sem precedentes. Mesmo com os constantes ataques e missões para destruir o Quilombo, o mesmo reconstruía suas estruturas e continuava a se expandir. A organização interna dos quilombolas era complexa e bem fundamentada, e o comércio era praticado não só dentro da comunidade mas também com algumas pequenas povoações do entorno. Para Pedro de Almeida, governador da capitania de Pernambuco, submeter Palmares era muito mais interessante do que destruí-lo. Por isso levou ao Quilombo uma proposta de paz e alforria para todos os membros da comunidade quilombola, proposta que foi aceita por Ganga Zumba, até então líder do Quilombo e tio de Zumbi. Porém, Zumbi reluta em aceitar a proposta, tendo em vista que não seria alcançada a liberdade de todos os negros em território brasileiro. Abandonar suas próprias leis e crenças também estava fora de questão para Zumbi.

Pouco tempo depois, Zumbi viria a assumir a liderança do Quilombo dos Palmares, após Ganga Zumba ser assassinado, conduzindo a resistência da comunidade frente às tropas portuguesas. Zumbi pôs sua liderança, capacidade de estratégia e técnicas de combate à prova, mostrando a resiliência daquela comunidade e resistindo por cerca de mais 14 anos após se tornar o líder de Palmares. Porém, seria pelas mãos de Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo que viria a investida final à Palmares, com um ataque direto contra a Cerca do Macaco. Neste conflito, o mocambo cairia e seria destruído, enquanto Zumbi ferido, conseguira fugir do jugo de seus inimigos.

Antônio Parreiras, Zumbi, óleo sobre tela, 1927.

Cerca de um ano após fugir da destruição do Quilombo dos Palmares, Zumbi seria traído por um companheiro, que iria passar a sua localização para os portugueses. Zumbi seria então localizado, preso e degolado, sua cabeça sendo posteriormente exposta em praça pública. A intenção do então governador da capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro (1680 – 1718), foi uma forma  não só de agradar aqueles que odiavam a figura de Zumbi e dos negros revoltosos, mas também de aterrorizar os negros que cultuavam Zumbi e alimentavam a crença de que ele seria imortal. Mas não é Zumbi é, de fato, imortal?

Zumbi dos Palmares conserva consigo a concepção da palavra que lhe dá nome: “Alma ou Fantasma que vagueia pela noite”. É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? Se conhecemos a resistência de Teresa de Benguela e do Quilombo do Quariterê, como é possível afirmar que a alma de Zumbi não vagou pela noite e se tornou símbolo, ídolo e imagem à ser refletida na resistência desse e de tantos outros quilombos que resistiram ao longo do tempo, e firmam ponto na sua existência e na sua perseverança, mesmo com todos os ataques que sofrem até os dias de hoje?

É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? Quando sabemos que Zumbi se tornou um símbolo e fonte de inspiração na luta abolicionista? Se colocarmos a luta e a resistência de André Rebouças, de Chico da Matilde, de Luiz Gama, de Maria Firmina dos Reis, de José do Patrocínio frente ao espelho, não encontraremos reflexo na luta por liberdade e na resistência de Zumbi dos Palmares? O clamor pela liberdade, e aí não só o anseio de se ver livre das correntes sozinho, mas da luta pelo coletivo, para que o todo da comunidade negra no Brasil não encontrasse mais as amarras da escravidão é comum a esses totens da resistência preta nesse país.

É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? Quando o Movimento Negro no país resgata a memória daqueles que caminharam sobre esse chão e enfrentaram as mazelas da nossa sociedade? Andando na contramão do que era o desejo dos brancos e poderosos, trouxeram novamente ao âmbito popular a herança de Zumbi e a influência de sua luta. Ainda a partir da luta do Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, se extirpou a data do 13 de Maio como comemoração simbólica do dia da abolição da escravatura, pois era o espelho de uma passividade. A luta não acabara com a Lei Áurea, e ainda havia muito à lutar. Por isso, era necessário homenagear um símbolo da resistência contra a opressão racial, encontrando no dia 20 de Novembro, data da morte de Zumbi, como marco das comemorações anuais, no que seria o Dia da Consciência Negra.

É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? Ainda que tenha encontrado um movimento ativo e estruturado para que a sua figura e também a história aprofundada do Quilombo dos Palmares fossem deletadas dos registros oficiais, não havia força que pudesse relegar tão resoluto homem ao esquecimento. Foi a partir do trabalho dos Institutos Históricos que diversos documentos foram coletados e divulgados, resgatando a memória de Palmares, também firmando a posição de sua principal liderança.

É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? Quando ele é evocado frente ao trabalho dos Institutos Históricos? Os meados do século XX se tornam um marco dessa presença, quando diversas obras são pensadas, escritas e divulgadas narrando a trajetória palmariana. Num primeiro momento ainda recluso a uma historiografia estrangeira, projetada principalmente na figura do português Ernesto Ennes, que publicou “As guerras nos Palmares; subsídios para a sua história”, em 1938. A obra trazia a ideia de “Troia Negra” para tratar o Quilombo, assim como o samba-enredo salgueirense composto por Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho. Depois gravitando para os romances históricos, como por exemplo a obra do alagoano Jayme de Altavilla (1985 – 1970). Mas foi à partir do livro “O Quilombo dos Palmares” (1958) de Edison Carneiro (1912 – 1972), que o campo da historiografia palmariana se revolucionou. Foi à partir do seu trabalho, juntando os constructos e as revoluções feitas à época, que Zumbi se firmou como a principal liderança de Palmares também no campo da historiografia brasileira, tendo sido de Edison o pioneiro no país. Sua obra inclusive foi o principal pilar da construção teórica do desfile do Salgueiro em 1960.

É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? É até pela vanguarda salgueirense que Zumbi abre novamente seu caminho, e trilha os espaços da cidade e do país. Fazendo-se presente na cultura popular, tendo seu legado lembrado e revisitado em obras artísticas brasileiras, como por exemplo o “Canto dos Palmares”, publicado em 1962, de autoria de Solano Trindade (1908 – 1974), que é considerado por muitos o fundador da poesia épica afro-brasileira. É ainda na década de 60, ainda sobre a influência do desfile salgueirense, que estreia em São Paulo o musical “Arena canta Zumbi”, escrito por Gianfrancesco Guarnieri (1934 – 2006) e Augusto Boal (1931 – 2009), em 1965, que conta com as composições musicais de Edu Lobo (1943).

É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? Ao pegar nossa cultura de frente, e encará-la bem no fundo dos olhos, é possível não enxergar, por trás do brilho do olhar, a figura de Zumbi dos Palmares nos devolvendo seu olhar resoluto e resiliente? Não deve ser nem mesmo possível quantificar quantas menções, homenagens, exaltações e lembranças de Zumbi já passaram pelas avenidas dos carnavais brasileiros. A cada ano Zumbi está novamente vivo e presente caminhando pela Sapucaí, pelo Anhembi, no Sambódromo de Manaus, no Complexo Cultural do Porto Seco e por tantos outros que comportam nossa festa popular em tantos lugares deste país.

É possível alguém afirmar que a alma de Zumbi não caminha à noite, entre nós e nossos antepassados? Cada corpo preto que se levanta e trilha seu caminho por esse país, tem dentro de si um fragmento da alma de Zumbi dos Palmares. Pois, a cada passo dado, é preciso resistir aos flagelos que nossa sociedade insiste em infligir sobre nós. Pois, a cada espaço percorrido, é necessário se levantar contra a opressão de um estado policial que nos vigia, nos controla, nos agride e nos mata pura e simplesmente por sermos herança de Zumbi. Pois a cada fôlego que reivindicamos, é mandatório pensar na libertação de fato e na vida de nossos irmãos e irmãs por todo o país e pelo mundo. Pois nenhum de nós será livre enquanto não o formos todos, seriam as palavras de “Zumbi, o divino imperador”, se posso roubar um trecho do samba do Salgueiro no ano de 1960.

Djalma Sabiá representando a Majestade Africana, tal qual Zumbi, um divino Imperador. Foto: Vítor Melo

E não poderia terminar esse texto sem falar daquele que foi Zumbi dos Palmares para nós por muito tempo. Que fundou e fundamentou o nosso Quilombo dos Palmares, até porque, o que são as escolas de samba se não um aquilombamento que nos permite exercer nossa resistência, nossa cultura? Se podemos fazer isso no nosso Torrão Amado, nosso Quilombo do Salgueiro, é por que tivemos morada na coragem, na resiliência, na persistência, no amor e na liderança de Djalma Sabiá (1926 – 2020). É por isso que é impossível dizer que Zumbi morreu, pois ele se manifesta, vive e sobrevive nas nossas lideranças e nos nossos espelhos.

Então sim, Zumbi é imortal! Assim como Djalma Sabiá também será, pois vive na resistência e na reexistência do povo preto desse país.