Jean Baptiste Debret – Olhares coloniais na construção da história

Por Alice da Palma e Leonardo Antan

Quem não se lembra de ter visto as gravuras de Debret nos livros didáticos da escola?

Você pode não ligar a obra ao nome, mas certamente ao imaginar o período colonial brasileiro são as imagens deste artista francês que vêm à mente. É fundamental a obra do pintor francês, que aportou no território brasileiro em 1816, como membro da Missão Artística Francesa, patrocinada pelo príncipe regente D.João VI. Durante os quinze anos em que esteve no Brasil, o artista foi primordial na fundação da Escola de Artes, Ciências e Ofícios do Rio de Janeiro e na formação de uma primeira geração de pintores brasileiros com treinamento acadêmico; ele instituiu a prática de ensino em ateliê e foi, também, o idealizador das duas primeiras exposições de arte realizadas no Rio de Janeiro, em 1829 e 1830.

Mas, além de figura atuante no cenário artístico e cultural brasileira, Debret deixa para o Brasil um encontro com sua história. Nas gravuras e telas do pincel de influência neoclássica, estão cenas que moldam nossa relação com nosso passado colonial e escravagista, de passeios da corte em liteiras até o duro trabalho dos escravizados. Costumes, crenças, festas, danças, hábitos, plantas, vegetações, animais… Foi vasta a produção do artista, que construiu cenas e personagens que nos apresentam nossas contradições e apagamentos, que constituem a dor e o massacre que nos formam.

A grande produção do artista foi a publicação com  ilustrações produzidas em terras tupiniquins, “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, de 1834. Foi exatamente esta obra que guiou o desfile do Salgueiro produzido por Nelson de Andrade, Hildebrando Moura, Marie Louise e Dirceu Nery.  O livro, visto como um registro da vida cotidiana na sede do reino português e, posteriormente, do Império brasileiro, se transformou num importante testemunho do país nos períodos joanino e do primeiro Império.

A narrativa é dividida em três volumes. No primeiro, Debret nos apresenta os indígenas brasileiros, que ele organizou de forma a criar uma linha evolutiva (do que ele, homem branco europeu e filho do pensamento iluminista, considerava como evolução) do selvagem até o mais civilizado. O texto introdutório do segundo volume deixa clara essa intenção: “Eu me propus a seguir, nesta obra, um plano ditado pela lógica: o de acompanhar a ‘marcha progressiva da civilização no Brasil”.

Neste segundo volume, mais complexo, ele desloca sua atenção para a cidade e seus arredores, investigando as atividades produtivas e seus personagens. O caráter das imagens (e sua organização) revela também a estratificação racial sobre a qual se funda a nossa sociedade e cujos reflexos sentimos até hoje. Já o terceiro e último tomo traz as celebrações e cerimônias, as solenidades que reafirmam o poder monárquico e seus símbolos; as demonstrações um tanto exageradas de religiosidade que deixam clara também a proximidade entre Estado e Igreja no Brasil.

Dessa forma o artista, em seu álbum de viagem pitoresca, investiga a trama social que constitui o nosso país num momento histórico singular em que o Brasil emerge do jugo colonial, acolhendo a família real e sua corte, abrindo seus portos, vendo seu estatuto político para sempre alterado ao passar de capital da maior colônia para sede do reino. Testemunha também a transição de Vice-Reino para a independência de Portugal, feita em 1822 por D. Pedro I, fazendo do Brasil um Império católico nos trópicos.

Voltando ao início, quem não se lembra de ter visto as gravuras de Debret nos livros didáticos da escola? A construção de uma história nacional forjada em tintas brancas tem nas pinturas do artista francês seu tom ideal, suas imagens serviram como construção de narrativas hegemônicas e que reforçam um sistema que todos louros e glórias a personagens masculinos, brancos e heterossexuais. Ao nos depararmos com uma reprodução de sua obra num livro didático, tomamos as representações como verdade absolutas sem questioná-las. Mas seria Debret a voz oficial de um período? Que outras vozes foram apagadas da história? Que outras narrativas poderiam ser ouvidas?

O nosso encontro com as obras de Jean-Baptiste traz a contradição. Se, por um lado, essa produção se torna importante documento histórico e registro de seu tempo, por outro, reproduzem coniventemente um olhar branco, patriarcal, colonizador, eurocentrado e exotificador dos povos africanos e indígenas.

É preciso produzir novas lentes para rever a história e a obra do artista, sobretudo desnaturalizar a posição escravizada dos afro-brasileiros e rever as bases que constituem as estruturas de poder. A quem serve a arte entendida como “erudita”? Ao reproduzir os castigos e sofrimentos, se constrói uma representação onde sujeitos e sujeitas negras e indígenas são desumanizados, apresentados como “incivilizados” ou “selvagens”. Se a História é construção, cabe a nós repensarmos e reinterpretarmos nossa narrativa nacional e artística sob novas lentes. Na afirmativa de novas histórias, novas construções, na valorização de novas narrativas.